Na ponta da calçada, Paula acenava em desvario por um táxi. Quando conseguiu, deu o endereço e pediu urgência. Com poucas palavras, justificou a pressa para sensibilizar o motorista e logo ligou para a colega, para que segurasse a reunião, mas o celular acusou fora de área.
Não acreditou que aquilo estivesse acontecendo. Estava tão atrasada que nem o café da manhã conseguira tomar. Depois de meses de pesquisa e muito trabalho, estava tudo dando errado. Aquele era o dia. Seu projeto publicitário para a campanha do ano seria apresentado aos diretores da empresa. Uma sensação de insegurança instalou o medo e deixou a boca seca.
Na pressa, ao descer do táxi tropeçou. Derrubou a pasta e os papéis deslizaram pela calçada, espalhando suas ideias. Algumas pessoas olhavam para ela, outras nem isso. O motorista fez menção de sair do carro, mas desistiu. Desanimada, juntou as folhas com a ajuda de um senhor de bengala que, como ela, entrou no prédio de escritórios.
Cláudia esperava no lado de fora do salão reservado para a reunião. Visivelmente nervosa, perguntou:
– Por onde andavas? Por que o atraso?
Caminhando apressada em sua direção, Paula replicou:
– Não vou conseguir explicar, nem eu sei o que está acontecendo.
– Sorte sua que o acionista majoritário acabou de chegar. Organize-se e entre – retrucou, irritada, desaparecendo no interior da sala dos trabalhos.
Paula encostou-se na parede e fechou os olhos, buscando o próprio equilíbrio. De onde tiraria ânimo para enfrentar aquela apresentação, pensou. Perdera o elã. A boca continuava seca. Sentia frio. Uma atendente, que organizava o breakfast, assistia à cena de longe. Aproximou-se dela e lhe ofereceu um cafezinho, dizendo:
– Rapidinho, antes de entrar, o que mais pode acontecer de errado agora?
O cheiro do café pareceu trazê-la de volta, No primeiro gole, recobrou o ânimo, no segundo sentiu-se aquecida. Com olhos agradecidos, observava a mulher do café enquanto sorvia os golinhos, um depois do outro, e outro e mais outro… Tinha pressa, mas não conseguia abrir mão daquele sabor que a estimulava. O bem-estar provocado pelo café devolveu-lhe o entusiasmo, o calor e a coragem.
Refeita, foi ao encontro do seu futuro e da diretoria que a aguardava. Ao entrar, percorreu com os olhos a pequena plateia. Bem a sua frente, uma bengala apoiava-se no espaldar da cadeira. Depois dela, o senhor que a ajudara na calçada.
Gilka Coimbra - Palavras. É disso que somos feitos – de palavras. Palavras nos identificam e nos diferenciam, conduzem-nos e dispersam, levam-nos à paz e ao sofrimento, nem sempre tão explícita. Palavras são verdadeiras e enganosas, traiçoeiras e amorosas. Dialogam e discutem, ferem e sensibilizam. A palavra quer contato, porque quer ser arte. Gilka Pierry Coimbra é profissional da educação, tem alguns textos publicados em revistas eletrônicas e sites literários e alguns artigos acadêmicos em periódicos universitários.
Autora da COLUNA SCRIBOMANIA, atualizada quinzenalmente às segundas-feiras.
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Gilka:
A expectativa do que está por vir. A incerteza do futuro. O desânimo. A volta por cima. Tudo isso em poucas linhas. Muito bom!
Marga