Admiro Inês Pedrosa, a escritora portuguesa. Não há de ser só pelos laços e empatia com o lugar onde nasceu – Coimbra –; isso seria muito pouco. Admiro pela intensidade do estilo que escreve.
Dos livros que li: Fazes-me falta e A eternidade e o desejo, a trama é sempre tecida pelo avesso. Escreve pelos desvãos da história narrada. Entrelaça os personagens num movimento de sensualidade e sensibilidade, que me arrebata para novos enredos. Bem, isso é o que faz o bom escritor. Entretanto, Inês Pedrosa, instiga outras possibilidades no imaginário de qualquer leitor mais atento. Embriagada, pela leitura, visito o sonhador que vive em mim, mergulho no meu universo ficcional e crio.
Em A eternidade e o desejo, quando li: “pensei que ficando do lado de fora da vida conseguiria agarrar a dor pelas costas e matá-la” saí do enredo. Pensei que essa poderia ser a frase ideal para um conto. Balizaria o arremedo da vida, quem sabe, de uma menina que acreditou, piamente, no que lhe disseram na infância. Tudo porque “não bateu o tacão de seus melhores sapatos.” Isso deveria ter feito e não fez. Pobre menina, submissa, com pena de si mesma, carregava a mágoa que lhe comia as entranhas. Preferiu “atirar os sapatos ao ar porque sentia os pés a arder.” Ou, será que se deixou levar pelo sapateado geral sobre o palco da sua vida. Afinal, aceitação era tudo que esperava. Não era exigente com seus afetos. Ingênua, entregava-se inteira. O pai morrera cedo e, com ele, foi-se o pouco que lhe restava de indignação. “Veio o óbito”. Foi-se o “olhar da criança sem tédio”. Foi-se aquele olhar impermeável à ofuscação das lágrimas. Cresceu do lado de fora da vida. Enganando a dor, enganou-se.
Daria um bom conto. Quem sabe…
Retorno à história original de um dos livros que leio. Nele a escritora portuguesa tece a busca do verdadeiro amor. E, quando afirma que “as histórias que sonhamos flutuam na neblina como mentiras leves tocadas pelo peso da verdade”, sou induzida a olhar por dentro e, então, vejo melhor.
Admiro Inês Pedrosa.
Quando a leio, sinto-me como “espuma do mar desfeita”.
Gilka Coimbra - Palavras. É disso que somos feitos – de palavras. Palavras nos identificam e nos diferenciam, conduzem-nos e dispersam, levam-nos à paz e ao sofrimento, nem sempre tão explícita. Palavras são verdadeiras e enganosas, traiçoeiras e amorosas. Dialogam e discutem, ferem e sensibilizam. A palavra quer contato, porque quer ser arte. Gilka Pierry Coimbra é profissional da educação, tem alguns textos publicados em revistas eletrônicas e sites literários e alguns artigos acadêmicos em periódicos universitários.
Autora da COLUNA SCRIBOMANIA, atualizada quinzenalmente às segundas-feiras.
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