Vinte anos de casada e não construíra nada que lhe agradasse. A sensação de vazio dormia com ela. Só problemas e desentendimentos, nos intervalos monotonia. O marido um eterno estrangeiro da vida e da sua cama. Num rasgo de rebeldia, aceitou o convite de umas amigas e pela primeira vez, num sábado à tarde, foi a um baile da terceira idade. Agora, durante a semana, ela dança com a rotina da casa, aos sábados com Raul, o par de todos os sábados. Há dois anos.
Ele queria a separação, desejou ardentemente até que a mulher o traísse e que se apaixonasse por outro. Ficaria mais fácil e o vilão não seria ele. Mas não houve jeito, os dias passavam e a situação não mudava. Chegou à conclusão de que a iniciativa teria que partir dele. Ensaiou cada palavra, a forma de dizê-las e o melhor momento. Nada lhe parecia suficiente. O que diria às filhas? Seguiu com a vida dupla até o dia em que a esposa o enterrou com um discreto sorriso de desdém.
Avistou a pequena figura sentada nas dunas. Como sempre, lá estava a sua espera. Sorriu levemente, para que os homens não notassem. Anteviu o prazer do encontro. Seduzido pela amplitude do horizonte e pela rebeldia das ondas, desaparecia mar adentro. Pescador por ofício e por destino, seguia a tradição da família.
Mais um ano de trabalho e conseguiria comprar o próprio barco. Há tempo guardava dinheiro e agora surgira a oportunidade. Sebastião queria vender e prometera esperar. Só assim poderia casar-se. O barco lhe daria garantias para fazer o pedido e assegurar o sustento dos dois. Enquanto recolhia a rede, o pensamento construía o futuro feliz que estava por vir.
Na praia, ela esperava por ele, quando se surpreendeu com um intenso nevoeiro. Levantou-se das dunas e firmou o olhar em direção ao mar.
A sensação toma posse, embrulha o estômago e a deixa tonta. Reconhece seus caminhos mais secretos e com naturalidade, invade a alma e a transborda de sonhos. Sonhos que aceleram o coração e resgatam desejos. Instala-se como se não estivesse fora do tempo, do espaço da vida já vivida. A fantasia corre solta no corre-corre do dia e resgata a juventude da mulher envelhecida. Toda vez que ele aparece – o novo vizinho.
Pela primeira vez tinha ficado depois de muita insistência e durante as últimas semanas aguardava um telefonema, um recadinho no Orkut. Entrava seguidamente no MSN, perdido para sempre, desaparecido. Nenhuma notícia dele. Nada. Chorava no ombro da amiga, na pequena pracinha da escola. Não sabia como lidar com tudo aquilo que lhe apertava o peito e engasgava a voz. Só os olhos destilavam o que vinha sentindo pela primeira vez. Alguém as chamava, insistentemente, para a sala de aula. Foi mal. Foi mal.
Gilka Coimbra - Palavras. É disso que somos feitos – de palavras. Palavras nos identificam e nos diferenciam, conduzem-nos e dispersam, levam-nos à paz e ao sofrimento, nem sempre tão explícita. Palavras são verdadeiras e enganosas, traiçoeiras e amorosas. Dialogam e discutem, ferem e sensibilizam. A palavra quer contato, porque quer ser arte. Gilka Pierry Coimbra é profissional da educação, tem alguns textos publicados em revistas eletrônicas e sites literários e alguns artigos acadêmicos em periódicos universitários.
Autora da COLUNA SCRIBOMANIA, atualizada quinzenalmente às segundas-feiras.
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Gostei Gilka!
Retalhos da vida. Para todas as idades e todos os gostos. Mas o meu preferido foi o segundo. Ele me fez pensar em quantas coisas na nossa vida adiamos para depois nos darmos conta do quanto perdemos. Ah! O medo e a covarida! Sempre atrapalhando e atrasando!
Parabéns!!
Beijos
Marga