Pela Barata Ribeiro, as duas mulheres caminhavam apressadas, acompanhando o frenesi da cidade. Dirigiam-se para o local de venda dos ingressos para o show de Maria Gadú. Na volta, por Copacabana, com sol de 40 graus à sombra, desviavam das pessoas. Distraíam-se com a paisagem, com as figuras exóticas da orla e, com uma água de coco no ponto certo, driblavam o calor. Bem que poderia ser uma cerveja bem gelada, mas uma delas não bebia. Dizia sempre que não tinha uma enzima que absorvia o álcool, e que isso a fazia passar muito mal.
– Bobagem. – dizia-lhe a prima mais nova. – Nem uma Malzebier da Brahma? É fraquinha e docinha, você vai gostar.
Esse assunto, sempre recorrente, às vezes era ignorado. Fingia não ouvir, não queria ser indelicada com a prima que gentilmente a hospedava.
Depois do almoço, quando a casa permanecia no mormaço silencioso da sesta, folheava o livro amarelecido, que encontrara na estante da sala. Uma preciosidade: o legado fotográfico sobre o Rio Antigo (1865 – 1918). Fotos em preto e branco de Marc Ferrez que a transportavam para outro tempo, muito diferente do Rio atual. Em cada plano das paisagens, em cada ângulo das casas, os antecessores falam sem som e sem ruído. Parece que dizem: presente! A nota ao pé da página registrava a impressão de Pedro Nava sobre a obra.
Dos retratos de época, informava um comentarista, os da Alameda dos Bambus no Jardim Botânico eram os mais procurados pelos viajantes estrangeiros que vinham ao Rio de Janeiro. A princípio chamado de Real Horto, fora instalado nas terras de um dos primeiros engenhos de açúcar que pertenciam a Rodrigo de Freitas. Curiosa, convidou a prima para irem até lá e constatou que, mesmo fora do livro e depois de tantos anos, o lugar mantinha o mesmo esplendor captado pelo fotógrafo do século passado.
Seduzida, pelo Jardim, andaram pela alameda central. Ela ouviu ruídos serenos entre os coqueiros, cheiro de mato verde recém brotado, o borbulhar da água descendo nas pedras e o movimento suave dos ramos que brincava com sua própria sombra. Quando um pardal ciscou o chão, lembrou da mesma cena num conto de Clarice Lispector – Amor – e da sua personagem Ana que entrara no Jardim Botânico para fugir da própria cegueira da vida. Olhou ao redor, tentando imaginar em qual dos recantos Clarice fizera Ana sentar-se.
Nem bem havia se recuperado das belezas naturais do Jardim Botânico, a prima levou-a para comer doces numa confeitaria que diziam ser famosa por ali. Ao chegar, parou na entrada fascinada pela decoração art nouveau e pelo seu estado de conservação. Estava em plena Confeitaria Colombo, fundada em 1913. Quatro andares e três amplos salões decorados com oito espelhos bisotados, trazidos da Bélgica de navio, emoldurados em jacarandá acompanhavam as bancadas em mármore italiano e o mobiliário sofisticado. Cinco cristaleiras abrigavam grande variedade de doces e tortas, além de louças do princípio do século e taças de cristal bordadas a ouro. Embasbacada, olhou para cima e viu, coroando o teto, no quarto andar, uma claraboia em mosaicos coloridos que banhavam todo o restaurante com luz natural, como o Sol banha o mar e este as praias daquela cidade maravilhosa.
Turistas, velhinhos aposentados, executivos, senhoras, gente jovem e as duas primas formavam o eclético grupo dos frequentadores da Colombo naquela tarde. O requinte e a nostalgia acompanharam os pastéis de Belém e as mil folhas degustadas com vagar. A Malzebier, é claro, nem foi mencionada.
O dia escolhido para voltar ao Centro da cidade não foi o mais adequado, mas valeu à pena comentaram mais tarde. Na igreja de Santa Luzia, construída em 1593 – a única aberta na sexta de Carnaval – agradeceram e pediram pela vida. A agitação imprimira à cidade o início da folia. O Teatro Municipal imponente e resignado assistia à movimentação nos bares e os blocos de rua que se organizavam em algazarra para o seu primeiro ato. A Biblioteca Pública resguardou-se mais cedo e quando lá chegaram já estava fechada. Deixaram-se, então, absorver pelo espírito brincalhão do povo que circulava solto por todo o canto carioca. Sentadas, no Bar Amarelinho, envolvidas pelo clima de alegria terminaram o dia com chapéus carnavalescos, subjugadas pela miscigenação ambulante que dançava na Cinelândia.
Acompanhadas pela família e por amigos, à noite, num ambiente mais tranquilo, jantaram no terraço do Hotel Sofitel, com as luzes de Copacabana à disposição do olhar. A beleza do lugar e a leve brisa do mar fizeram o contraponto e completaram as cenas vividas à tarde.
Banharam-se nas águas tépidas das praias, desfrutaram da paisagem e do pôr do sol. Visitaram galerias, shoppings da moda e pronta-entrega. Frequentaram as vendinhas e padarias do bairro para manter a casa andando. Assistiram à Banda de Ipanema e voltaram a pé até a Urca com direito a duas paradinhas em Copacabana para água de coco.
Para finalizar a estada, almoçaram num restaurante da rede Outback Steakhouse, sinônimo de sucesso, principalmente entre os jovens atraídos pelo clima informal das instalações, em estilo rústico, simulando uma casa interiorana da Austrália na década de 50.
Sozinha, no vôo de volta para casa, a prima mais velha fechou os olhos e reviveu as boas impressões. Inusitadas! Chamou a aeromoça e pediu uma Malzebier bem gelada.
Gilka Coimbra - Palavras. É disso que somos feitos – de palavras. Palavras nos identificam e nos diferenciam, conduzem-nos e dispersam, levam-nos à paz e ao sofrimento, nem sempre tão explícita. Palavras são verdadeiras e enganosas, traiçoeiras e amorosas. Dialogam e discutem, ferem e sensibilizam. A palavra quer contato, porque quer ser arte. Gilka Pierry Coimbra é profissional da educação, tem alguns textos publicados em revistas eletrônicas e sites literários e alguns artigos acadêmicos em periódicos universitários.
Autora da COLUNA SCRIBOMANIA, atualizada quinzenalmente às segundas-feiras.
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Gilka!
Belíssima descrição desse Rio de Janeiro que a mordenidade desenfrada não consegue apagar.Me vi no Jardim Botânico em meio as suas belezas naturais e lembrei, com saudade, do conto da Clarisse. Fiquei com água na boca ao imaginar os doces da famosa Confeitaria Colombo. Enfim, não fui ao Rio, mas por meio do teu texto estive lá sim, em espírito.
PARABÉNS!!!!
Marga
P.S. Que bom que a prima mais velha finalmente provou a Malzebier, mais uma experiência de vida conquistada.
Gilka querida!!!
Que texto!!!
costumo fazer diario,regitro sempre que vivo momentos especiais e/ou dificeis.Vivi um tempo no Rio,que rendeu um bom diario.
Ao ler teu texto, fico maravilhada com teu estilo,objetividade sem perder detalhes que sao preciosos e carregados de admiracao, amoroso…
Vou imprimi-lo e colar no meu diario para ENRIQUECE-LO.
Obrigada e parabens.
de volta,beijao
lala
O “fecho”, com a Malzebier estah demais!!!!!!!
lala
Quisera ter sido eu esta prima que te acompanhava nestas andanças maravilhosas. Quando visitei o Rio também foi com duas primas, que foram muito legais comigo, mas com certeza, se estivesse contigo, prima querida, minha estada seria poética. É incrível este teu dom, DEUS conserve, como diziam os antigos. Ah… e antes que me esqueça, identifiquei a outra prima. Bjos.