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ESPÍRITO DE NATAL

No meio da semana, dei uma chegada na casa da praia. Precisava fazer uma faxina e abastecer a geladeira; o verão estava chegando e o recesso do Natal traria meus filhos de volta. A tranquila rotina seria alterada para aquele estado de dedicação exclusiva, como no tempo em que eram pequenos. Sem eles, só o silêncio carregado de boas lembranças e o murmúrio sincronizado das ondas do mar.

 

Novamente, altas noitadas, surf mar adentro, excesso de toalhas molhadas e esquecidas por cima das cadeiras, almoço às quatro da tarde, amigos chegando sem avisar com namoradas da temporada. O rebuliço dos jovens daria o tom aos próximos dias.

 

A meu pedido, a mulher do zelador indicou-me a moça para a limpeza e, sem muita certeza da qualidade do serviço, contratei-a aliviada por ter alguém que o fizesse. Chegou cedinho e logo identifiquei o bom nível do trabalho que seria realizado. Pretendia sair para uma caminhada à beira mar, mas uma chuva fininha impediu-me. Comecei a observá-la e puxei assunto já que passaríamos, pelo visto, algumas horas juntas.

 

Conversamos tranquilamente sobre filhos, relacionamentos e lembranças da infância. Trocamos experiências como só as mulheres fazem quando reconhecem o grau de empatia que se estabelece gratuitamente. Compartilhamos sem necessidade de qualquer explicação. Num determinado momento, achei que fosse o Espírito de Natal que, antecipado, chegara à orla e circulava sem pressa, aproveitando o tempo ainda disponível até a correria das Festas.

 

Um dia agradável em companhia de uma desconhecida que organizava minha casa para receber meus filhos. Contratei-a para o período das festividades e com a casa em ordem retornei à cidade satisfeita com o resultado da faxina e com o sentimento de tranquilidade que me invadia.

 

No caminho de volta, avistei alguém que pedia carona. Uma mulher com uma criança no colo à beira da estrada. Instintivamente, diminuí a velocidade do carro, mas não consegui parar. O medo, a desconfiança e a insegurança travaram-me. Acelerei. Arrisquei um olhar pelo retrovisor e a mulher, cada vez mais distante, virou a imagem de dois mil anos atrás e o verdadeiro Espírito de Natal.

 

Senti vergonha da minha humanidade.

 

Gilka Coimbra - Palavras. É disso que somos feitos – de palavras. Palavras nos identificam e nos diferenciam, conduzem-nos e dispersam, levam-nos à paz e ao sofrimento, nem sempre tão explícita. Palavras são verdadeiras e enganosas, traiçoeiras e amorosas. Dialogam e discutem, ferem e sensibilizam. A palavra quer contato, porque quer ser arte. Gilka Pierry Coimbra é profissional da educação, tem alguns textos publicados em revistas eletrônicas e sites literários e alguns artigos acadêmicos em periódicos universitários. Autora da COLUNA SCRIBOMANIA, atualizada quinzenalmente às segundas-feiras.
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