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categoria: SCRIBOMANIA

A CORTINA: PARTE III

Anos de profissão, de experiência como curador do desespero alheio, lidando com as patologias da mente e os dilemas da alma humana, não foram suficientes para alertá-lo de que a vida não era linear e que os segredos retornam inexoráveis quando menos se espera. O tempo o fez relaxar. Neuropsiquiatra, no início da carreira, dedicou-se às pesquisas, mas foi depois de algum tempo que descobrira seu verdadeiro interesse na profissão. Há anos, tornara-se um psicoterapeuta de renome. Sua vida particular restringia-se à clínica e ao filho que criara sozinho, hoje um homem feito, advogado, construindo a carreira com relativo sucesso.

 

O Dr. Rubens Landi recebeu um telefonema do filho, marcando um encontro para o dia seguinte. Gustavo não quis adiantar o assunto. As opiniões e pareceres clínicos que lhe fornecia sobre determinados comportamentos sempre o auxiliaram na lógica dos argumentos de defesa que desenvolvia no trabalho. Portanto, o doutor concluiu que o filho estaria interessado em mais um julgamento seu.

 

Encontraram-se no lugar de sempre, uma cafeteria antiga no centro da cidade. Localizada numa rua lateral, constituía-se num nicho dos profissionais liberais que procuravam ali um lugar reservado para fechar acordos, discutir negócios, atualizar-se nos assuntos de economia e de política, ou simplesmente encontrar colegas de profissão para um bom café.

 

Gustavo chegou um pouco antes e sentou-se a mesa de sempre, no canto esquerdo do salão. Dali avistava a porta de vidro, ornamentada por uma leve cortina de voal, envelhecida pelo tempo. Através dela viu o pai no outro lado da rua.  Precisaria ter cuidado ao relatar o que lhe acontecera na casa do beco, ou não conseguiria desvendar aquela situação.

 

Enquanto aguardavam o pedido, conversaram sobre trivialidades. Interrompidos pelo garçom que chegava com o café, Gustavo serviu-se da água mineral, bebeu meio copo e, como se não pudesse mais segurar a pergunta que lhe queimava, a boca perguntou, olhando-o nos olhos fixamente:

 – Pai, quem é Tereza?

 

Dr. Rubens engasgou-se. Não era possível, não deveria ser a mesma pessoa. Com certeza, aquilo não estava acontecendo. Organizando-se emocionalmente, serviu-se da experiência adquirida com os anos de profissão e devolveu a pergunta ao filho:

 

 – Que Tereza, Gustavo?

 Não sei, pensei que o senhor pudesse ajudar-me. Uma mulher chamada Tereza mandou-me um recado. Pediu que voltasse à casa dela sozinho, assim que possível, porque tem assuntos pendentes comigo.

 Não estou entendendo – disse o pai, ainda querendo ganhar tempo para recompor-se, temia estampar no rosto a angústia que estava sentindo. A vida toda temera por aquele momento. A vida toda escamoteou fatos da sua história pessoal para proteger o filho e agora aquilo

– O senhor está bem? – perguntou Gustavo, mais preocupado naquele momento com a palidez do pai do que com a história que o intrigava há dias.

– Estou bem, nãomotivos para preocupações – respondeu, recompondo-se, enquanto pensava como aquele recado chegara até ele, e como Tereza o encontrara. Precisava ir até ela antes dele. – Conta-me, Gustavo, essa história desde o começo.

 

Sentados frente a frente, pai e filho iniciaram a conversa. A cortina da porta principal da antiga cafeteria filtrava a luz reduzida a um claro-escuro de sombras. fora, uma tempestade aproximava-se, como a estranha penumbra que os envolvia.

 

(continua…)

 

 

Gilka Coimbra - Palavras. É disso que somos feitos – de palavras. Palavras nos identificam e nos diferenciam, conduzem-nos e dispersam, levam-nos à paz e ao sofrimento, nem sempre tão explícita. Palavras são verdadeiras e enganosas, traiçoeiras e amorosas. Dialogam e discutem, ferem e sensibilizam. A palavra quer contato, porque quer ser arte. Gilka Pierry Coimbra é profissional da educação, tem alguns textos publicados em revistas eletrônicas e sites literários e alguns artigos acadêmicos em periódicos universitários. Autora da COLUNA SCRIBOMANIA, atualizada quinzenalmente às segundas-feiras.
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Comentários

Um comentário para “A CORTINA: PARTE III”

  1. Hummm, tá com jeito de ser uma novela, ou um romance…já estou curiosa pelo desfecho!Quando a cortina vai revelar todo o mistério?

    Posted by ivone rizzo bins | December 6, 2009, 21:15

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