Quando entrou no carro, sentiu o coração afobado e a respiração curta como se o ar fosse-lhe negado. Com a mão trêmula, tentava ligar o motor que parecia sufocado. Sentia o suor frio escorrendo e se alojando entre o pescoço e o colarinho impecável. Uma última olhada pelo espelho retrovisor e não viu mais a pequena casa encostada no barranco ao final do beco. Uma bruma densa cobria a ruela, deslizando em sua direção. Novamente, acionou o motor, acendeu as luzes e saiu daquele lugar sombrio.
Após algumas quadras, olhou para Cristina recostada no banco, alheia a ele, aparentava forte irritação.
– Não entendi quase nada – disse ela, olhando-o de soslaio. – Essa vidente foi bem recomendada.
– O que foi que houve? – perguntou para disfarçar o desconforto, já que não conseguia entender o que ele havia visto no interior da casa.
– Não sei, não previu nada e nem respondeu minhas perguntas. Disse chamar-se Tereza e que tu a conhecias. Pediu que voltasses a casa, sozinho, assim que possível, tem assuntos pendentes contigo. Ficou repetindo isso quase todo o tempo da conversa.
– Tereza? Que Tereza? Esse era o nome da vidente? – perguntava confuso, enquanto relembrava a cena que presenciara na sala ao lado, separada apenas pela cortina rota que esvoaçava entre os dois cômodos.
O que fazia, naquele lugar, a mulher do porta-retrato do quarto do seu pai? Aquela que lhe fora apresentada como sua falecida mãe. Era ela, tinha certeza. Era ela.
O silencio pegou carona pelo resto do trajeto. Era noite quando desceu a avenida que os levaria ao centro e dali ao bairro residencial onde Cristina morava. Só o frio e o vento circulavam nas esquinas. Já não se via as rodinhas improvisadas nas calçadas, nem os jovens nos pequenos bares com mesas e cadeiras ao relento, dividindo a noite. Era o início do inverno.
Depois que a deixou na portaria do edifício em que morava, numa despedida fria, compreendeu que quanto antes a afastasse, melhor seria para ambos. Não era dado a intuições, mas teve a certeza de que algo estranho estava por acontecer. Queria chegar a casa para pensar melhor sobre tudo aquilo. Talvez o pai pudesse ajudá-lo. Precisava telefonar para ele, marcar um encontro e rever a fotografia da mãe instalada há anos na cabeceira da sua cama. Quanto à vidente que se chamava Tereza… Não conseguia lembrar.
Tomou um banho quente e uma dose de conhaque para relaxar. Acendeu a lareira e com uma caixa de fotografias antigas no colo iniciaria a busca por um passado em preto e branco. Nada, nenhuma pista.
Aquela noite teve um sono agitado e diversas imagens esquecidas da infância, povoaram seus sonhos.
(continua…)
Gilka Coimbra - Palavras. É disso que somos feitos – de palavras. Palavras nos identificam e nos diferenciam, conduzem-nos e dispersam, levam-nos à paz e ao sofrimento, nem sempre tão explícita. Palavras são verdadeiras e enganosas, traiçoeiras e amorosas. Dialogam e discutem, ferem e sensibilizam. A palavra quer contato, porque quer ser arte. Gilka Pierry Coimbra é profissional da educação, tem alguns textos publicados em revistas eletrônicas e sites literários e alguns artigos acadêmicos em periódicos universitários.
Autora da COLUNA SCRIBOMANIA, atualizada quinzenalmente às segundas-feiras.
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Muito bom Gilka!
Senti consistência nas tuas descrições. O ambiente e as emoções do personagem principal podem ser sentidos como se estivéssemos vivendo aquela situação inusitada e, aparentemente, incompreensível.
Estou ansiosa pela continuação.
Parabéns
Marga