- O que você sente quando é grosseiro com seus colegas? – perguntou a médica.
- Em primeiro lugar, não vejo como possa ser grosseria dizer a verdade. Meus colegas são cientistas – físicos –, assim como eu, portanto, devem estar preparados para ouvir a verdade. Em segundo lugar, se os trabalhos que eles me apresentam são um lixo, em nome da Ciência, não posso simplesmente calar para não ferir os seus sentimentos. Afinal, não somos mais crianças.
- Quando você diz que não é grosseria falar a verdade, a qual verdade está se referindo? – quis saber a médica.
- E existe mais de uma? Para um físico há apenas a verdade científica, o fato, o que pode ser provado. Até mesmo quando estamos desenvolvendo uma teoria – algo que ainda não foi testado – sabemos que em algum momento a verdade por de trás do fenômeno irá se revelar, mesmo que seja para ser refutada. É apenas uma questão de tempo e paciência.
Enquanto Pauli dissertava, Erna limitava-se a ouvir e a fazer rápidas anotações.
Pauli era um homem extremamente inteligente e, portanto, dono de uma personalidade complexa. No entanto, a sua visão unilateral dificultava muito certas abordagens mais heterodoxas. Por esse motivo, Erna resolveu que já era hora de provocá-lo. Queria testar até onde iriam as suas convicções sobre o que ele chamava de verdade.
- E quanto à morte de sua mãe? – inquiriu a médica.
Imediatamente a atmosfera do consultório se alterou. A postura professoral mantida até agora por Pauli foi abandonada e a sua tensão tornou-se evidente.
- O que isso tem a ver com a nossa discussão? – perguntou na defensiva.
- Não sei. Você é que deve me dizer – Erna respondeu com tranquilidade. – Você consideraria a atitude de sua mãe um “lixo”? Ou, para você, ela é um “lixo”?
O olhar lançado por Pauli teria feito gelar o sangue de qualquer um. Contudo, Erna estava preparada. Dessa vez ela não deixaria que ele escapasse ou se escondesse.
- Minha mãe era uma escritora, uma intelectual – disse Pauli, visivelmente perturbado. – Ela não era um “lixo”!
- Muito bem, sua mãe não era um “lixo”. Então, sua decisão de se matar pode ser considerada um “lixo”? – insistiu a médica.
Silêncio. Erna esperou. Ela sabia que estava pisando em terreno perigoso, mas para que a terapia pudesse ter alguma chance de sucesso era preciso que Pauli enfrentasse um dos seus piores pesadelos: a morte da mãe.
Depois de alguns minutos ele finalmente começou a falar. Agora sem aquela posse arrogante, marca do seu comportamento nas últimas semanas.
- Minha mãe – disse devagar – não suportou conviver com as traições de meu pai. Por debaixo da máscara de mulher cosmopolita e intelectualizada, havia uma pessoa frágil, carente de afeto e atenção. Infelizmente, todos nós nos deixamos iludir por sua aparência alegre e despreocupada, bem ao estilo dos atores de teatro que frequentavam a nossa casa.
- Você quer dizer – interrompeu Erna – que a sua mãe representava um papel?
- Sim. E eu fui suficientemente tolo e cego para não perceber.
- Você acredita que se tivesse percebido essa outra realidade poderia ter evitado que ela se envenenasse?
- Não sei – respondeu Pauli. – Mas se eu soubesse, se ao menos suspeitasse, talvez pudesse tê-la impedido.
- Perdoe-me, mas você não acha que está exagerando nessa atitude de “Dono da Verdade”? Talvez o seu problema seja considerar-se um deus, capaz de ver o que ninguém vê ou profetizar eventos futuros – provocou a médica.
O choque nos olhos de Pauli era evidente. Ele não estava esperando ser tratado daquele modo. Aproveitando-se do abalo produzido ela prosseguiu:
- Você vive comentando que a maioria das ideias de seus colegas é um lixo. Como você definiria o que acaba de me contar? Lixo?! – Sem dar chance a Pauli de responder, Erna olhou de maneira ostensiva para o relógio. – Bem, como o nosso tempo está terminando vou lhe dar uma tarefa. Você deve analisar, com todo o cuidado, o encontro de hoje. Examine suas palavras como se fosse uma de suas teorias. Aplique o método de análise que preferir, e tente, apenas tente enxergar as outras verdades por detrás de tudo o que conversamos.
Bastante abalado, Pauli levantou-se da poltrona e em silêncio dirigiu-se para a porta. Quando já estava saindo, Erna o chamou:
- Herr Pauli, mais uma coisa: não se esqueça de continuar anotando os seus sonhos. Em nosso próximo encontro falaremos sobre eles.
E com um aceno da cabeça a médica deu a consulta por encerrada.
(Continua…)
Margarete Hülsendeger - Professora de Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. Autora da COLUNA QUEDA LIVRE, atualizada quinzenalmente aos domingos.
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