Exaltar-te-ei, ó Senhor, porque tu me exaltaste; e não fizeste com que meus inimigos se alegrassem sobre mim.
Salmo 30
21 de junho, solstício de verão. Na praça, uma grande fogueira ardia. Essa era uma antiga tradição dos estudantes da Universidade da Basileia. Os festejos iniciavam-se no dia anterior e se prolongavam até o dia seguinte. As autoridades pouco interferiam nessas brincadeiras. Afinal, a universidade e, consequentemente, seus alunos, eram o centro cultural e econômico da cidade. Sem eles, ela deixaria de existir.
As tabernas e os bordéis estavam lotados. No entanto, em um deles, um grupo de jovens estudantes havia se reunido em torno de um homem franzino, portador de uma enorme corcunda. Estavam todos envolvidos em uma discussão que se tornará recorrente dentro da universidade:
- Aristóteles defende a observação como um passo essencial para a cura. – afirmou um dos rapazes.
- Di-di-ga-me, meu jovem, co-co-como vai curar se não pretende pôr as mãos em seu pa-pa-ciente? – perguntou sério o homem mais velho. – Se a di-di-di-sse-ca-cação de cadáveres é proibida, como iremos com-com-pre-pre-ender o fun-fun-cionamento do corpo humano? Como ser um bom médico se-se-se estamos presos a essas estúpidas su-su-pers- ti-tições?
- Basta que busquemos as respostas nos livros dos grandes doutores da medicina: Galeano e Avicena, por exemplo. – retrucou o jovem.
- São to-to-dos seguidores de antigas e u-u-u-ltrapassadas tra-tra-dições. Não vê que existem mais coisas para aprender? Só olhar para o ca-ca-tarro ou a urina dos en-en-enfermos não é su-su-ficiente – contra-atacou o corcunda.
Apesar dessas discussões estarem ocorrendo há muito tempo dentro da universidade, só agora elas tinham ido para as ruas, para os bares e até mesmo para os bordéis. E o responsável por esse movimento havia sido aquele homem franzino que com tanta energia defendia as suas ideias.
Ele tinha chegado há pouco menos de um ano na universidade, para assumir a cátedra de medicina. Quando foi apresentado aos alunos, tornou-se, durante um curto espaço de tempo, alvo de uma série de brincadeiras de mau-gosto. Tudo por conta da sua gagueira e de uma corcunda que ele não procurava esconder. Entretanto, para espanto de todos, e desânimo de alguns, em nenhum momento ele se deixou abalar. Aparentemente, já estava acostumado com esse tipo de situação.
Hoje, suas aulas eram as mais assistidas da universidade e seus seguidores aumentavam a cada dia. Alguns chegaram a lhe dar a alcunha de Aureolus, uma alusão clara a “divino”. Contudo, o nome pelo qual ele mesmo se chamava era Theophrastus.
- Mestre? Qual o caminho que o senhor nos aconselha a seguir para romper com esses métodos ultrapassados? – questionou outro rapaz.
Theophrastus não respondeu de imediato. Pensou em tudo o que até agora tinha vivido. Ele viajara pela Áustria, Egito, Hungria, Tartária, Arábia e Polônia. De muitos desses lugares fora expulso, justamente por insistir em propagar doutrinas pouco ortodoxas. Como, então, responder a um jovem com tão pouca experiência da vida? Optou por escolher o caminho mais simples, a verdade.
- Ca-ca-ro rapaz, não existem re-re-gras claras sobre o que é certo e e-e-rrado. Du-du-rante muito tem-tem-po as ideias de A-a-ris-tó-tó-teles foram com-si-sideradas corretas, isso nem eu posso negar. No entanto, esse te-te-tempo já pa-pa-ssou. Assim, um dia me fiz a seguinte pe-pe-rgunta: se não e-e-xistissem pro-pro-fessores de Me-me-dicina neste mundo como faria eu para a-a-a-prender essa arte? A res-res-posta que me satisfez foi que deveria estudar no gra-gran-nde livro aberto da na-na-tureza, escrito pelo dedo de D-D-eus. E de-de-sde então, assim o tenho feito.
Um silêncio pouco comum se fez naquele momento. Todos refletiam sobre as palavras de seu mestre. Passados alguns minutos, um dos alunos resolveu sugerir:
- Mestre, e se fizéssemos uma cerimônia para selar o nosso voto de rompimento com os antigos conhecimentos? As pessoas precisam saber que os tempos são outros. Existem novas práticas, novos livros e novos mestres a quem ouvir e com quem aprender.
O grupo imediatamente se animou com a ideia do colega. A questão era o que fazer para selar esse pacto. Theophrastus olhando para seus jovens discípulos apontou para os livros depositados sobre a mesa. Não houve necessidade de mais explicações. Todos saíram gritando palavras de ordem enquanto deixavam a taberna. À frente de todos Theophrastus, com os olhos brilhando, os guiava.
Na praça repleta de pessoas dançando e cantando, poucos deram atenção ao grupo de jovens que se colocou em torno da fogueira. Era apenas mais um bando de estudantes, um entre tantos que já haviam passado por ali.
Tomando a dianteira, Theophrastus levantou o braço. Na sua mão podia-se ver um exemplar do livro de medicina de Avicena. Iluminado pelas chamas da enorme fogueira, gritou para que todos o pudessem ouvir.
- Que toda esta miséria possa ir pelos ares como fumaça! – Imediatamente jogou o livro no fogo. Esse foi o sinal para que todos fizessem o mesmo.
Mestre e discípulos permaneceram em torno da fogueira até que cada um daqueles volumes fosse devorado pelas chamas. E, naquela mesma noite, Theophrastus passou a ser chamado por outro nome. Nome cujo significado seria “aquele que está além”.
“O que uma geração considera como o máximo de saber, é frequentemente considerado como absurdo em gerações seguintes; e o que, num século, é considerado como superstição ou ilusão, pode formar a base da ciência nos séculos vindouros”.
Theophrastus
Continua…
Margarete Hülsendeger - Professora de Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. Autora da COLUNA QUEDA LIVRE, atualizada quinzenalmente aos domingos.
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