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categoria: QUEDA LIVRE

ROTEIRO DE VIAGEM

A vida nunca fora fácil para ele. Durante anos havia trabalhado para que nada faltasse em casa. Sentia-se orgulhoso em saber que sempre pagara suas contas em dia, sem pedir favores a ninguém. No entanto, em todos esses anos nunca havia tido tempo de pensar em si mesmo. Sempre se colocara por último, incluindo aí seus próprios desejos.

Agora, na sua aposentadoria, viúvo e com os filhos criados, decidiu que já era hora de realizar um dos seus grandes sonhos: conhecer o mundo. Assim, numa bela manhã, despediu-se dos filhos preocupados e embarcou para Roma. Essa cidade seria o seu ponto de partida para a sua primeira e, quem sabe, última aventura.

Na chegada, o deslumbramento foi total. Roma era a história viva. Seus monumentos deslumbrantes em meio a um trânsito barulhento e caótico tornavam tudo ainda mais insólito e aventuresco. Os primeiros dias foram passados visitando os pontos turísticos mais conhecidos: o Coliseu, a Fontana di Trevi, a Piazza di Spagna, entre outros. O peso dos anos o havia abandonado completamente. Sentia-se outra vez um rapaz.

Uma tarde, sentado à mesa de um bar na Piazza Navona, degustando um spresso, pôs-se a analisar o seu roteiro de viagem. Havia marcado, com caneta vermelha, o próximo local a ser visitado. Ele ficava fora de Roma. Tratava-se de uma pequena cidade, na bela região da Toscana, chamada Pisa. Lá pretendia conhecer a famosa torre inclinada.

Sobre essa torre sabia pouco, apenas o que havia aprendido na escola. Sua inclinação de aproximadamente 4 metros em relação ao seu eixo vertical era causada pelo terreno arenoso onde fora construída. No entanto, esse fato, que em outras circunstâncias teria provocado o seu fechamento definitivo ou até mesmo a sua derrubada, havia sido justamente a razão da sua fama ao longo dos séculos. Além disso, ali também teria sido o lugar no qual Galileu realizara a sua famosa experiência sobre a queda dos corpos. Lembrava de ter lido algo sobre o assunto para os filhos, quando eles ainda estavam no colégio. Agora seria a sua oportunidade de conhecer o que só tinha lido nos livros de história.

A viagem de trem não foi muito longa. Havia tanta coisa para ver e admirar pelo caminho que o tempo simplesmente perdeu o seu significado. Pisa, ao contrário de Roma, não era uma metrópole. Aliás, se não fosse pela afluência ininterrupta de turistas, seria como tantas outras cidades do interior da Itália. Chegando à estação, resolveu fazer a pé o trajeto até a torre. Não se sentia cansado. O dia estava deslumbrante, sem uma nuvem no céu. Com um mapa na mão foi pedindo informações às pessoas que por ali passavam e, sem pressa, chegou até a Piazza del Duomo. E ali, mais ou menos no seu centro, deparou-se com a torre inclinada de Pisa.
Inicialmente, ficou um pouco decepcionado. Imaginava-a mais alta e imponente. Contudo, não havia como negar, era belíssima. Toda em mármore branco com sua torre em estilo gótico. A inclinação era tal que muitas pessoas se divertiam tirando fotos como se a estivessem sustentando. Suspirou dominado por uma estranha emoção. Novamente, como em tantas outras vezes desde que chegara a Itália, sentiu-se transportado para uma outra época na qual ele não era esse velho gasto fazendo sua primeira viagem ao exterior. Compreendeu estar vivendo um momento mágico em sua vida.

Apesar da escada em caracol e dos degraus estreitos de seus sete andares não serem muito confortáveis para uma pessoa da sua idade, resolveu conhecer a torre por dentro, subir até o seu topo e desfrutar um pouco mais dessa atmosfera de encantamento. Aderiu, então, ao próximo grupo de visitantes e, em poucos minutos, encontrou-se no seu interior.

Dentro dela não havia muito a se ver, mas o ambiente o envolveu de tal maneira que chegou a sentir uma vertigem. Tentando não atrair muito a atenção, apoiou-se na parede e fechou os olhos. De repente, sentiu um silêncio estranho instalar-se em torno dele. Abriu os olhos bem devagar. Surpreso, percebeu que estava só. Todos – turistas e guias – tinham literalmente desaparecido no ar.

Quando ainda tentava entender o que havia lhe acontecido, um ruído de passos na escada chamou a sua atenção. Um homem com uma roupa estranha vinha subindo devagar. Nas mãos carregava duas bolas. Uma era de metal e a outra parecia ser de um tipo de cortiça. Quando passou por ele, agiu como se não o tivesse visto. Seguia, com passos resolutos, para a cúpula da torre, no sétimo andar.

“Que coisa mais esquisita!”, disse para si mesmo. Olhando ao seu redor, procurou alguém que lhe desse alguma explicação. Nada se havia alterado. Continuava sozinho. Decidido, resolveu ir atrás do estranho; quem sabe, assim descobria o que estava acontecendo.

O esforço foi grande, mas conseguiu chegar ao alto da torre. Encontrou, nesse momento, o tal homem debruçado sobre o balcão acenando para baixo. Discretamente ele também se inclinou para olhar, mas viu apenas os mesmos turistas de sempre tirando suas fotos. Ninguém se mostrava muito preocupado. No entanto, o homem agia como se estivesse sendo aplaudido.
De repente, sem nenhum aviso, o desconhecido segurou as duas esferas no ar e deixou-as cair. Extasiado, o homem ficou olhando para baixo como se houvesse realizado um grande feito. O susto foi grande. E se uma daquelas bolas atingisse a cabeça de alguém? Com certeza, seria muito sério. Rapidamente se debruçou sobre o balcão para gritar um sinal de aviso. Porém, com surpresa, não viu nada caindo.

Irritado com toda aquela encenação resolveu perguntar diretamente ao homem o que fazia ali. Contudo, para seu espanto, quando se voltou, ele tinha desaparecido. Sentiu uma nova vertigem se aproximando. Olhando para o local onde estivera o homem não encontrou nada que denunciasse a sua presença. Nenhuma marca. Nenhum sinal. Em compensação os turistas e os guias tinham retornado como se nada houvesse ocorrido.

Envergonhado, e sem entender mais nada, decidiu dar por encerrada a visita. Sabia que a mente muitas vezes prega peças às pessoas mais equilibradas, mas acreditava-se imune a isso. Afinal, sempre fora considerado um homem saudável física e mentalmente. Como, então, explicar aquela estranha visão? Ou seria ilusão? Talvez fosse o cansaço. “Isso, o cansaço. A viagem me cansou mais do que havia imaginado”, pensou. Com muito cuidado começou a descer as escadas. Necessitava com urgência de ar puro.

Fora da torre procurou um bar onde pudesse sentar e beber alguma coisa gelada. Precisava se acalmar. Estava sentado, bebendo um refrigerante, quando percebeu um casal, próximo da sua mesa, folheando um livro com ilustrações. Curioso, espichou o pescoço tentando ver algumas das imagens. Com um susto reconheceu de imediato uma deles. Era o mesmo homem da torre. Sem se conter pediu ao casal que o deixasse dar uma olhada.
Na legenda da imagem – uma pintura antiga – estava escrito:
Galileo Galilei, físico e matemático italiano. Nasceu em 15 de fevereiro de 1564 na cidade de Pisa e faleceu em 8 de janeiro de 1642 na cidade de Arcetri.

Margarete Hülsendeger - Professora de Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. Autora da COLUNA QUEDA LIVRE, atualizada quinzenalmente aos domingos.
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Comentários

Um comentário para “ROTEIRO DE VIAGEM”

  1. Muito bom! Percorri o caminho e as minhas lembranças. Quando lá estive encontrei-a fechada para reparos em função da movimentação do terreno. Adorei visitar a torre por dentro com o teu personagem e, ainda com ele, ver Galileu Galilei. Parabéns!
    Bju, Gilka

    Posted by Gilka | July 11, 2009, 14:22

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