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categoria: QUEDA LIVRE

PHILLIPUS

Bem-aventurado o varão que não anda segundo o conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores.

Salmo 1

 

Na praça ouviam-se as risadas das crianças. Duas meninas e três meninos rodeavam um vulto caído no chão.

- Fala gaguinho. Fala. – debochava um dos meninos, chutando o corpo com a ponta do sapato.

- Olha a cara dele? Fica nos olhando feito um idiota. – escarnecia uma das meninas.

- Vamos tirar o casaco. Quero ver como é a corcunda. Dizem que passar a mão nela dá sorte. – informou, com ares de entendido, outro menino.

- Isso! – gritaram todos juntos. – Vamos ver a corcova do gaguinho!

E movidas pelo mesmo instinto maldoso, elas se aproximaram do corpo que permanecia encolhido no chão. Nesse momento, por sobre toda aquela algazarra, ouviu-se uma voz enfurecida:

- Seus diabinhos! Que maldade vocês estão fazendo?

Não houve tempo para mais nada. A brincadeira rapidamente perdeu o interesse, com todos fugindo em diferentes direções. Aquela voz sempre tivera o dom de apavorá-los.

 

O ferreiro era um homem grande e muito forte; capaz de levantar uma carroça sozinho e até de vencer numa briga vários homens ao mesmo tempo. Poucos tinham coragem de enfrentá-lo. No entanto, apesar da sua aparência e forças assustadoras, o ferreiro era um bom homem. Sabia reconhecer a diferença entre uma inocente brincadeira e a simples e fria maldade. E, nessas ocasiões, nunca deixava de se perguntar como crianças tão pequenas podiam ser tão más.

 

- Vamos pequeno. Levante desse chão sujo. O que esses desalmados, filhos de uma mula, andaram fazendo com você? – dizia o ferreiro, enquanto ajudava o menino a se erguer. – Onde está Herr Doktor? – voltou a perguntar, olhando para os lados.

- E-e-e-le es-tá-tá cu-idan-do-do de Frau Ma-Ma-ria. – respondeu o menino, tentando controlar os tremores que agitavam o seu corpo.

Era uma criança pequena. Não devia ter mais do que oito anos de idade. De seu rosto escorriam lágrimas de dor e humilhação.

- Você não devia estar com ele? – interrogou o ferreiro, enquanto limpava com um lenço sujo o rosto do menino.

- Pa-pa-pá p-p-precisava de-de al-al-al-gumas ervas. Q-Q-Q-uando saí as cri-cri-cr-anças… – ele se interrompeu.

- Tudo bem, não precisa explicar mais nada. Vamos, eu levo você até o seu pai.

Olhando o menino machucado pelo canto dos olhos, o ferreiro sentiu-se dominado pela raiva. E sem conseguir se conter, falou:

– Phillipus, você é um menino muito inteligente. Certo que não é dos mais bonitos, mas que importância isso tem? Olha para mim – e ele apontou para si mesmo – de que adianta ser bonitão se vou ser sempre um ferreiro?

 

Phillipus se surpreendeu. Nunca havia visto o ferreiro fazer um discurso tão longo. Ele sempre fora de poucas palavras. Ouvi-lo falar assim – e justo com eleera estranho. No entanto, quando finalmente eles chegaram ao seu destino, o menino se sentia melhor.

Em frente a casa de Frau Maria, o ferreiro curvou-se sobre Phillipus e, segurando-o pelos ombros, o fez olhar bem dentro dos seus olhos:

- Ouça bem, pequeno. Você é filho de Herr Doktor Bombastus. Você vai ser alguém na vida. Vai estudar e seguir os passos do seu pai. É capaz até de, no futuro, um desses diabinhos virem procurá-lo pedindo ajuda. Eu tenho certeza. E quanto a isso? – falou, dando um pequeno tapa nas suas costas. – Isso não é nada. Você compreendeu? Nada.

Dito isso ele lhe deu as costas e retornou para a sua ferraria.

 

Sentado a sua mesa de trabalho, Phillipus Bombastus recordava as palavras do ferreiro. Naquela ocasião era apenas um menino. Contudo, sempre que algum problema aparentemente insolúvel o assombrava, vinha-lhe à mente a lembrança daquele dia. Foi a primeira vez que alguém o tratara com respeito.

Seu pai, por outro lado, não foi tão compreensivo. Quando o viu chegar todo machucado e sem as ervas custou muito a se conter. Herr Doktor era um homem bem educado, não fazia cenas diante de seus pacientes. quando chegaram em casa é que o inferno desabou sobre ele.

- Você tem se comportar como um homem! – vociferava o pai. – Onde se viu permitir que essa ralé o trate assim!

Phillipus não pôde deixar de sorrir. “Pobre pai. Pobre Herr Doktor”, nunca superou o fato de não ter um filho simplesmente perfeito. A gagueira e a corcunda eram os sinais visíveis do seu fracasso. Ele, que havia conquistado o respeito de todos por curar diferentes tipos de males, não conseguia curar o próprio filho. Devia ser difícil conviver com a dura realidade de ter gerado um aleijão.

 

No entanto, apesar de não ter sido um pai muito compreensivo e amoroso, foi um excelente professor. Herr Doktor estava sempre descobrindo novos métodos de tratamento e de cura. Observando a forma como ele manipulava as ervas para tratar os enfermos da sua região, Phillipus aprendera muito. Hoje ele reconhecia: seu amor pela medicina nasceu dos momentos que havia passado ao lado dele, vendo-o cuidar de seus doentes.

Contudo, será que Herr Wilhelm Bombastus, médico e alquimista, poderia imaginar o destino de seu filho inválido?” perguntou-se Phillipus. “Não. Acho que não”.

Seu manuscrito estava quase pronto. Ali descrevera um método completamente novo para tratar uma doença terrível quevários anos assolava a Europa. Ele se deu ao trabalho de escrever tudo o que considerou importante, desde o processo de obtenção do remédio até os resultados obtidos. Sabia, porém, que os chamados “doutores da medicinanão iriam aceitar com tranquilidade suas descobertas.

 

Pensou mais uma vez no ferreiro e no seu pai. Há muito, eles haviam morrido. Agora ninguém mais o chamava de Phillipus. Hoje era outra pessoa. E por ser um homem diferente, escolhera para si outro nome. Um nome que o afastava da sua infância triste e solitária. Hoje ele era Theophrastus.

 

Que nenhum homem capaz de pertencer a si mesmo se renda a outro.

Phillipus Bombastus Von Hohenheim

 

Continua…

Margarete Hülsendeger - Professora de Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. Autora da COLUNA QUEDA LIVRE, atualizada quinzenalmente aos domingos.
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Comentários

Um comentário para “PHILLIPUS”

  1. Margararete, a gagueira foi fantástica, perfeita, principalmente se lermos em voz alta. Gostei da superação do teu personagem. Vou aguardar a continuação.
    bju Gilka

    Posted by Gilka | November 9, 2009, 12:12

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