O som de passos no corredor o obrigou a esconder, debaixo de seu catre, as folhas de papel. Colocando-se de joelhos no chão frio, fingiu rezar. Os passos se interromperam diante da sua porta. Escutou a chave girando. Apenas uma fresta foi aberta, o suficiente para que depositassem no piso a refeição da noite: pão seco, um pouco de queijo e um cálice de vinho aguado.
Há meses o mantinham preso naquele cubículo. Se não fosse pelos amigos que ainda o apoiavam, já estaria louco. Eles tinham contrabandeado para dentro de sua cela material para que ele pudesse continuar escrevendo. Precisava, no entanto, manter-se alerta. Assim como conquistara muitos amigos leais, sabia que seus inimigos esperavam apenas uma chance para acabar com a sua vida. Mas ele não lhes daria essa oportunidade.
Levantando-se lentamente do chão, pegou, sem muito ânimo, a comida que lhe haviam deixado. Até isso estava acontecendo. Tentavam matá-lo de fome. Comeu, distraído, o pão e o queijo bolorentos, empurrando-os goela abaixo com um pouco de vinho. Sem ter a sua fome saciada retirou, do seu esconderijo, as folhas de papel.
Como não queria expor seus companheiros a maiores perigos, procurava economizar o material que lhe fora entregue. Assim, toda a extensão das páginas até agora escritas estavam ocupadas por sua letra miúda. Abusava apenas quando queria desenhar algum esquema ou figura importante. Poucas pessoas seriam capazes de entender aquelas linhas. Tinha se dado ao trabalho de criar uma linguagem cifrada com o objetivo de esconder de seus inimigos suas ideias e descobertas. Eles, com certeza, teriam motivos para matá-lo se conseguissem entender o que andava escrevendo naquelas folhas de papel.
Como pudera se enganar tanto. Fora um tolo. Ao ingressar na Ordem Franciscana, acreditara ser esse o único caminho para uma reforma realmente profunda da cristandade. Pior de tudo, havia se convencido que o ideal franciscano poderia dar o impulso necessário para que isso viesse a ocorrer. Tardiamente percebeu que esse ideal há muito tempo estava morto e sepultado, assim como seu idealizador, Francisco de Assis.
Voltando o olhar para as páginas do manuscrito, releu com cuidado algumas de suas observações. Ali expunha suas crenças mais profundas, entre elas a certeza de existir apenas três caminhos possíveis para edificar a ciência: a tradição, a razão e a experiência. Para ele, a mais inexata e temível era a primeira, pois, muitas vezes, ela nos tornava cegos. Já a segunda não conseguia eliminar as dúvidas e as incertezas. Restando, no final, a experiência, uma espécie de fiel da balança, pois era nela que todo o conhecimento devia se embasar.
Segurando a pena, com delicadeza, mergulhou-a na tinta para concluir o desenho que iniciara antes de ser interrompido. Com cuidado, para não borrar o papel, desenhou o que parecia ser um espelho. Havia muitas dessas figuras em seu manuscrito, assim como todo o tipo de lentes. Luz. Essa era a sua ideia central. Luz refletida. Luz refratada. A essência da natureza, a chave para a compreensão de todos os processos naturais. Luz.
Ao lado da figura do espelho escreveu: “A alma desfigurada por pecados é como um espelho enferrujado, no qual as imagens das coisas não podem aparecer bem”. Quantos de seus irmãos não andavam mirando-se em espelhos enferrujados? Quantos já não conseguiam distinguir suas imagens verdadeiras daquelas que eles haviam forjado para se enganar? Daí o medo de vivenciar experiências fora de seus dogmas e rituais sem sentido.
Descansando a pena dentro do tinteiro, olhou pensativo para a réstia de luz que passava por debaixo de sua porta. Quando sua “ciência da luz” fosse amplamente divulgada ela, com certeza, ajudaria a compreender melhor o mundo que nos cercava. No entanto, para que isso pudesse ocorrer, ele precisava sair daquela cela e, principalmente, daquele mosteiro. Encarcerado, seria praticamente impossível divulgar e defender suas ideias.
No momento, sua única esperança era o Cardeal Guy de Foulques, um homem de mente aberta que havia se interessado por seu trabalho. Daqui a alguns dias, um amigo tentaria contrabandear seu manuscrito para fora dos muros do convento. Essa seria, quem sabe, sua última chance. Tinha fé que, ao receber o livro, o cardeal ordenasse a sua libertação. Mas para isso precisava terminar o que havia começado.
Molhando novamente a pena na tinta, procurou um lugar onde pudesse colocar a sua assinatura. Precisava, no entanto, ter cautela, ela só poderia ser reconhecida por um iniciado. Usou, para isso, o maior e mais importante dos símbolos alquímicos: a rosa cruz. Desenhou-a com cuidado em uma das últimas páginas do manuscrito e ao lado dela escreveu: “Eu, R.B., sou o autor”.
Continua
Margarete Hülsendeger - Professora de Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. Autora da COLUNA QUEDA LIVRE, atualizada quinzenalmente aos domingos.
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