‑ Menino! Acorda! Sai desse quarto!
As batidas na porta eram firmes e insistentes. No interior do quarto, no entanto, não se percebia nenhum movimento.
Do lado de fora, a mulher insistia:
‑ Menino! Levanta! Vai tomar um pouco de ar fresco.
Nada. Nenhuma resposta. Aborrecida, a mulher, sacudindo a cabeça, virou-se e foi embora. Afinal, tinha mais o que fazer do que tentar acordar um rapaz preguiçoso, que só sabia ficar dentro do quarto fazendo sabe-se lá o quê.
No silêncio que, finalmente, restabeleceu-se, o jovem, deitado na cama, abriu os olhos. Não sentia vontade de levantar. Seu desejo era ficar quieto, não ser perturbado. As pessoas acreditavam que ele nada fazia, entretanto, isso não era verdadeiro. Ele pensava. Pensava tanto que às vezes esquecia-se das coisas mais banais da vida, como comer, tomar banho ou até mesmo sair daquele quarto. As pessoas não o entendiam. E ele, por sua vez, também não se esforçava em entendê-las.
Com preguiça, levantou da cama. Movendo-se pelo quarto, tocava os objetos tão seus conhecidos. Na sua escrivaninha, a desarrumação era total. Papéis e mais papéis, com rabiscos indecifráveis cobrindo toda a sua extensão, espalhavam-se de forma desordenada por toda a mesa. Ninguém senão ele poderia compreender o que ali estava escrito.
Quando cansou de andar pelo quarto, resolveu abrir a janela. A luz do Sol não melhorou em nada o aspecto do lugar. Ao contrário. Só pôs mais em evidência a confusão que ali reinava. Entretanto, ele parecia não se importar. Na verdade, sequer percebia. Sem pressa, vestiu-se. Quando já estava pronto, lançou um último olhar às folhas de papel sobre a mesa. Sua expressão ficou tensa, preocupada. Porém, com um sacudir de ombros, decidiu sair, sem esquecer-se, é claro, de trancar a porta.
Ao passar pela cozinha, percebeu o olhar de enfado da mulher que tentara acordá-lo. Ele fingiu não vê-la. Tinha interesses mais importantes a perturbá-lo. Empertigado, foi para o jardim. Precisava refletir, sem que ninguém viesse incomodá-lo.
Era um dia de primavera. O céu estava muito azul. Havia uma aragem agradável balançando as copas das árvores e as flores encontravam-se em plena floração. Um dia perfeito. Sentiu um pouco da sua tensão se desfazer. Há semanas o que mais fazia era pensar. As folhas de papel espalhadas pelo seu quarto eram testemunhas silenciosas do seu esforço para tentar entender o que a natureza, insistentemente, procurava transmitir-lhe.
Olhou pensativo para o céu. Além daquela abóbada azul existia um imenso espaço negro ocupado por corpos em perpétuo movimento. Entre eles, o responsável por toda aquela luminosidade e calor: o Sol. Há algum tempo aceitava-se ser ele o centro do universo e a nossa pequena Terra apenas mais um planeta girando em torno dele. Entretanto, algumas questões fundamentais ainda estavam sem repostas. E eram elas que mantinham sua mente em constante agitação. “Quais as causas do movimento dos corpos celestes? Seria possível transformar essa realidade em números?”. Perguntas que ele remoía, dia após dia, sem descanso ou trégua. Assim como aqueles que o antecederam, ele acreditava que a matemática era a linguagem do Universo. Se fosse possível matematizar a natureza, estar-se-ia muito próximo, inclusive, de compreender o funcionamento da mente de Deus. “Haveria missão mais sublime que essa?”, questionava-se.
Cansado, resolveu sentar sob a sombra de uma macieira. Fechando os olhos, procurou trazer um pouco de calma e equilíbrio para sua mente. Sem perceber, foi tornando-se mais sensível aos sons à sua volta. O ruído do vento nas folhas das árvores, o rumor dos pequenos insetos caminhando pela grama e o bater das asas dos pássaros assumiram, para ele, naquele momento, uma dimensão irreal, quase fantástica.
De repente, com um sobressalto, foi arrancado desse estranho devaneio. Uma maçã havia-se desprendido da árvore. Sem pensar, estendeu a mão para pegá-la. No entanto, não chegou a concluir o gesto. A maçã ficou ali caída, no chão, imóvel. Um silêncio incomum desceu sobre o lugar. O rapaz e a maçã, cada qual em sua posição, aguardavam que o mundo voltasse a se mover.
Longos minutos se passaram. Lentamente, muito lentamente, o rapaz, enfim, se moveu. Segurando, com cuidado, a fruta entre as suas mãos, olhou-a com renovado interesse. Um raro sorriso insinuou-se em seus lábios Compreendeu, então, que havia encontrado o que tanto procurava.
A Natureza e suas leis jaziam ocultas nos escuros céus azuis,
Deus disse, Faça-se Newton! E fez-se toda Luz.
Alexander Pope
Margarete Hülsendeger - Professora de Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. Autora da COLUNA QUEDA LIVRE, atualizada quinzenalmente aos domingos.
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Que lindo texto! Fiquei pensando: por que temos pressa em acordar os meninos que pensam? para serem iguais a todos os outros – que não pensam. Parabéns Meg.
Abraço, Gilka
Margarete,
que bom o reencontro contigo e a Gilka naqueles corredores escuros e tristes da tal senhora cega que ‘tarda e quase sempre, falha’ !
Valeram os papos sobre uma vida quântica.
beijos !