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categoria: QUEDA LIVRE

O QUE IMPORTA O QUE AS PESSOAS PENSAM – PARTE III

UM AMIGO DA FAMÍLIA

- Ele era louco por Arline. Você sabia que eles se conheceram quando Richy tinha apenas 13 anos?
- É mesmo? E como era ela? – perguntou o repórter
- Era uma menina muito bonita e popular, enquanto Richy era um rapaz tímido, magricela e até meio esquisito. Os dois não combinavam muito. No entanto, para surpresa de todos, eles acabaram se apaixonando.
- E os pais o que acharam desse relacionamento?
- A Sra. Lucille, mãe do Richy, não interferiu, talvez porque conhecesse Arline e a achasse uma boa moça. Já o Sr. Melville não gostou nem um pouco dessa história.
- Por quê? Ele não gostava dela?
- Não. Ao contrário. Ele gostava bastante dela, o problema eram os estudos de Richy. O velho tinha medo que, por conta da paixão, Richy acabasse largando a faculdade.
- E o que o Sr. Melville fez para evitar isso?
- Uma coisa bem feia. Richy ficou muito aborrecido quando ficou sabendo.
- O que foi? – quis saber o repórter.
- Bem, ele procurou Arline e a convenceu a abandonar Richy. E você acredita que ela, mesmo gostando um bocado do rapaz, acabou indo embora? Ela, inclusive, foi trabalhar em outra cidade.
- E Richy como reagiu quando soube?
- Ele ficou uma fera! Largou tudo e foi atrás dela. E no fim os dois terminaram reatando. Mas quer saber, as preocupações do Sr. Melville não tinham nenhuma razão de ser. Arline nunca atrapalhou os estudos de Richy. Ele foi para Princeton fazer o seu doutorado e ela seguiu com a vida, empregando-se de babá só para os dois ficarem juntos. Eles eram muito apaixonados. Por isso todos acharam uma pena o que aconteceu depois. Arline e Richy não mereciam.

PROFESSOR ORIENTADOR EM PRINCETON

- Richard era uma pessoa com a qual valia a pena conversar. Nossas reuniões eram sempre cheias de risos e brincadeiras. E essas brincadeiras sempre acabavam gerando novas e boas ideias. A mente de Richard estava continuamente em busca de novos caminhos que explicassem de forma simples o que se passava na natureza. Ele acreditava que era possível descrever de várias maneiras diferentes um fenômeno, sem com isso comprometer o seu entendimento. Sua capacidade extraordinária de lidar com a matemática mais complexa o auxiliava a ver coisas que a maioria de nós não conseguia nem mesmo suspeitar. Além disso, ele adorava aborrecer os colegas das outras áreas. Richard gostava de denunciar e ridicularizar tudo o que considerava vazio, não racional ou pomposo e nessas ocasiões ele sempre usava na sua argumentação métodos “emprestados” às outras disciplinas. Era uma figura! No entanto, como seu amigo, fiquei muito receoso por ele quando Arline ficou doente. Isso aconteceu no mesmo ano em que ele apresentou a sua tese de doutorado. Foi uma época muito difícil para os dois – concluiu o professor J. Wheeler.

O MÉDICO

- Sim, lembro-me do caso. Tratava-se de uma moça que chegou ao consultório com inchaços no pescoço e febre muito alta. Imediatamente fiz com que fosse encaminhada a um hospital, pois desconfiei de febre tifoide.
- E o diagnóstico se confirmou?
- Infelizmente, não. Os vários exames realizados depois não confirmaram o diagnóstico inicial e passamos a acreditar que pudesse ser alguma doença do sistema linfático.
- E como o Dr. Feynman reagiu à notícia?
- Naquela ocasião procuramos explicar a dificuldade de realizar um diagnóstico desse tipo. Recordo-me, no entanto, que ele foi bastante grosseiro, tentando nos dizer como realizar o nosso trabalho.
- Mas pelo que fiquei sabendo, ele chegou a lhe fornecer outro diagnóstico. Isso é verdade? – perguntou o repórter.
- Sim.
- E ele estava certo?
- Sim – disse o médico, relutante.
- E o que aconteceu depois? – insistiu o repórter.
– Tratava-se de uma tuberculose do sistema linfático. Mas, veja bem, esse tipo de diagnóstico não é algo simples de se fazer – repetiu o médico. Apenas uma biópsia, realizada meses depois, é que confirmou a doença. O rapaz ficou muito aborrecido, apesar de tentarmos explicar que a medicina não é uma ciência exata como a matemática ou a física.

AMIGA DA FAMÍLIA

- Foi um choque quando se soube da doença de Arline. Afinal, tuberculose é uma doença contagiosa e incurável.
- Como a família reagiu à notícia?
- Você pode imaginar. Quem é que deseja ver o filho casado com uma moça nessa situação? Deus me livre, eu não quero! Mas Richy era teimoso, mesmo sabendo de todos os riscos colocou na cabeça que ia casar com Arline. Não houve ameaças que o fizessem mudar de ideia.
- E a família, no final, aceitou a decisão dele?
- De jeito nenhum. Os pobrezinhos casaram no cartório municipal, tendo apenas dois desconhecidos como testemunhas do casamento. Ninguém da família apareceu. Ninguém!

Continua…

Margarete Hülsendeger - Professora de Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. É autora da obra E TODAVIA SE MOVE (E POR SI MUOVE), editada em 2011 pela Edipucrs. Assina a COLUNA QUEDA LIVRE, atualizada quinzenalmente.
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Comentários

Um comentário para “O QUE IMPORTA O QUE AS PESSOAS PENSAM – PARTE III”

  1. Como um caleidoscópio revelas as diferentes “imagens” do personagem. Como diz teu professor da Puc – Literatura não é realidade, é validade. Parabéns!!! bju, Gilka

    Posted by Gilka Coimbra | April 24, 2012, 13:33

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