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categoria: QUEDA LIVRE

O QUE IMPORTA O QUE AS PESSOAS PENSAM – PARTE II

O PROFESSOR

- Richy? Claro que me lembro de Richy! Um rapaz espetacular. Tive o privilégio de ser seu professor de física no último ano do colegial – disse o professor Abram Bader.
- E o que o senhor se lembra daquela época? Como ele era como aluno?
- Naquela época já dava para notar que ele teria um futuro brilhante. O currículo normal da escola era muito fácil para ele. Um tédio. Assim, um dia resolvi lhe emprestar um livro de matemática avançada para que ele se distraísse durante as aulas fáceis. Richy ficou felicíssimo com a oportunidade. E acredite, ele conseguiu transitar pelo cálculo avançado com uma facilidade inacreditável. No entanto, o que o deixou extasiado foi minha explicação do princípio da mínima ação. Você sabe o que é isso? – perguntou Bader.
- Não – respondeu simplesmente o repórter.
- Pois saiba que Richy, com apenas 15 anos, já entendia perfeitamente bem o conceito e as suas implicações. E olhe que não é uma coisa fácil de se entender. Um rapaz extraordinário! Em todos os meus anos como professor, nunca mais voltei a encontrar outro aluno igual. Extraordinário mesmo!

O COLEGA DE UNIVERSIDADE

- Um brincalhão! Era isso que o Dick era. Além, é claro, de um crânio.
- E como foi a sua chegada na universidade? Ele sofreu algum tipo de trote por parte dos veteranos? – quis saber o repórter.
- Que nada! – respondeu o homem. – Na verdade, quando Dick chegou no MIT, ele foi literalmente disputado a tapa pelas fraternidades judaicas. E no final quem saiu vencedora foi a Phi Beta Delta.
- Então, não ocorreu nada de extraordinário? – insistiu o repórter.
- Bem… Aconteceu uma coisa.
- O quê? Pode contar, essas informações são confidenciais – mentiu o repórter.
- Certo – disse o homem. – Houve outra fraternidade (não me peça o nome) que o raptou para tentar convencê-lo a mudar de ideia. Uma falta séria naquela época – explicou. – Mas Dick, quando colocava uma coisa na cabeça, nada e nem ninguém o fazia voltar atrás. Era um cara de palavra. Assim, apesar de todas as promessas feitas, ele não abandonou a Phi Beta Delta.
O repórter, decepcionado com o que ele acreditou que pudesse ser uma informação interessante, voltou a perguntar:
- E como era o Dr. Feynman como aluno do MIT?
- Para Dicky não havia problema difícil, tudo era apenas uma questão de tempo e de esforço aplicado. Ele estudou física avançada sem sequer esperar o último ano. O cara era uma fera! Ele só não se dava bem nas disciplinas da área de humanas.
- Então, ele não era tão genial assim?
- Nas humanas ele era um verdadeiro desastre. Dava pena de ver.
- E como ele conseguia passar? Usou algum tipo de artifício? – insinuou o repórter.
- Como assim?
- Cola.
- Claro que não! Esse não era o estilo do Dick. Ele era um CDF. Como não queria desonrar a fraternidade ele fez de tudo para ser aprovado em inglês e filosofia. Você acredita que ele se usou de cobaia para o trabalho de conclusão de filosofia? Dá para acreditar numa coisa dessas? Esse era o Dick! – disse o homem com um enorme sorriso nos lábios.

PROFESSOR ORIENTADOR NO MIT

- Richard era, sem dúvida nenhuma, um dos nossos melhores alunos. Por isso nós o recomendamos para uma vaga no doutorado em Princeton – explicou o professor Philip Morse.
- Mas as notas nas disciplinas das áreas de humanas não eram baixas? Como é que vocês conseguiram que o pessoal de Princeton ignorasse isso? – quis saber o repórter.
- Simples: dizendo a verdade. Realmente suas notas em inglês, filosofia e história eram baixas – medíocres até –, mas no resto ele era excepcional. Um diamante a ser lapidado e Princeton era, sem dúvida nenhuma, o lugar para ele.
- E o fato de ele ser judeu? Como foi encarado pela nova faculdade?
- Naquela época não havia “quotas judias”, mas nós acreditávamos que as suas notas em matemática e física contornariam esse problema com facilidade.
- O Dr. Feynman ficou preocupado com a possibilidade de não poder ingressar em Princeton?
- Ele não, mas o seu pai sim.
- Não entendi.
- Um dia o Sr. Feynman marcou uma reunião comigo e com o professor Slater para discutir o futuro do filho. Ele queria saber das chances de Richard de seguir para Princeton. O pobre homem estava preocupadíssimo, acreditando que as notas baixas, em história e inglês, poderiam comprometer o futuro acadêmico do filho. Segundo ele, Richard só poderia prosseguir na universidade se conseguisse uma bolsa de estudos.
- E vocês o que fizeram?
- O tranquilizamos é claro! Apesar de a sua preocupação ter algum fundamento, pois a preferência era por estudantes não judeus, as notas de Richard em matemática e física eram, como já lhe disse, excepcionais. Assim, mesmo sendo judeu, não houve nenhum problema na sua admissão. Além disso, logo em seguida, ele conseguiu assumir um cargo de assistente de pesquisa, o que lhe garantiu uma completa independência financeira. Gostaria de ter visto a reação do Sr. Melville quando recebeu a notícia – concluiu o professor.

Continua…

Margarete Hülsendeger - Professora de Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. É autora da obra E TODAVIA SE MOVE (E POR SI MUOVE), editada em 2011 pela Edipucrs. Assina a COLUNA QUEDA LIVRE, atualizada quinzenalmente.
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Comentários

Um comentário para “O QUE IMPORTA O QUE AS PESSOAS PENSAM – PARTE II”

  1. Muito bom, como sempre. Parabéns, vou aguardar a continuação. bjubju, Gilka

    Posted by Gilka Coimbra | April 14, 2012, 21:17

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