O FÍSICO
- Eu não o conhecia, mas as referências eram as melhores possíveis. Wheeler e Wilson me informaram que ele tinha a competência necessária para participar do projeto. Por isso, fiquei bastante surpreso quando inicialmente ele recusou o convite. Sua alegação era a de que tinha perdido muito tempo trabalhando com os militares no arsenal de Frankford, na Filadélfia, e que precisava se concentrar na sua tese – explicou o físico Robert Wilson.
- O senhor sabe qual era o trabalho do Dr. Feynman no arsenal de Frankford?
- Não tenho muito certeza, pois na ocasião eu já estava envolvido com o projeto. Mas parece que ele trabalhou na construção de um computador que tinha por objetivo dirigir os disparos da artilharia antiaérea. Pelo que fiquei sabendo, ele se engajou ao esforço de guerra já em meados de 1941.
- O que o senhor fez para que ele mudasse de ideia e viesse a participar do Projeto Manhattan?
- Na verdade, nada. Apenas disse que teríamos uma reunião preliminar no meu escritório e que era ali que ele poderia nos encontrar. Para minha satisfação, Richard acabou se apresentando, dizendo que a possibilidade dos alemães desenvolverem primeiro a bomba era assustadora demais para que ele pudesse ignorá-la. Assim, antes que mudasse de ideia, eu o instalei em uma sala e ele imediatamente já começou a trabalhar com seus outros colegas. Com certeza, foi uma excelente aquisição para o projeto.
OFICIAL DE SEGURANÇA
- Enervante. Indisciplinado. Um cabeça dura. Essas são as palavras que melhor o definem. Todos diziam que ele era um gênio, alguém para o qual não havia problemas insolúveis. No entanto, sua mania de querer nos dar lições do como gerir o campo era absurda e ridícula.
- Como assim? Ele pertencia à equipe de segurança ou à da administração?
- Claro que não! Mas ele sentia prazer em identificar os pontos fracos na administração do campo. Ele gostava de encontrar buracos nas cercas ou defeitos nas fechaduras. Uma atitude infantil e totalmente despropositada. Além, é claro, de antipatriótica.
- E o que o senhor fez a respeito?
- Alertei seus superiores, assim como os colegas, da sua mania de arrombar cofres e gavetas. Atitude não só perigosa, mas totalmente inapropriada. Afinal, quem era ele para vir nos dizer como devíamos realizar o nosso trabalho? Eu repito: aquele rapaz era um perigo para todos!
UM COLEGA NO CAMPO
- A vida em Los Alamos não era fácil para ninguém, mas para Richard era pior ainda. Além de todo o trabalho tentando encontrar a quantidade correta de plutônio para ser utilizada na bomba, ele ainda tinha o problema da doença da esposa. Mesmo que Oppenheimer tenha encontrado um lugar para Arline em uma clínica de Albuquerque, ainda eram 150 km que Richard percorria todos os sábados pela manhã. Ele nunca a deixava de visitar, mesmo que para isso tivesse de atormentar todo mundo para conseguir um passe ou um carro que o levasse até lá. E toda a vez que ele retornava para o campo as pessoas percebiam que ele voltava muito preocupado.
- Essa situação afetava o seu trabalho no campo?
- De jeito nenhum! Ele era incrível. Apesar de todos esses problemas ele conseguia manter o ânimo em alta, brincando com todo mundo e sempre fazendo o melhor no seu trabalho. Você sabia que ele consertou todas as máquinas Marchant? Aquelas coisas quebravam com frequência e foi o Richard que teve a ideia de fazer o conserto ali mesmo no campo para não perdermos mais tempo. Ele era incansável, mas aquela história com a mulher era muito triste.
Continua…
Margarete Hülsendeger - Professora de Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. É autora da obra E TODAVIA SE MOVE
(E POR SI MUOVE), editada em 2011 pela Edipucrs. Assina a COLUNA QUEDA LIVRE, atualizada quinzenalmente.
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