// você está lendo...

categoria: QUEDA LIVRE

O QUE IMPORTA O QUE AS PESSOAS PENSAM? – PARTE 1

- Ah! Por favor, outra biografia não! Já estou farto delas – gemeu o repórter.
- Você prefere a seção de esportes? Ou, quem sabe, o obituário? – perguntou o editor.
Desanimado, ele logo percebeu que a decisão já estava tomada.
- Tudo bem, já entendi. Quem é o cara?
- É um cientista. Ele está cotado para ganhar o Prêmio Nobel de Física deste ano e você ficou encarregado de levantar informações sobre a sua vida. Caso ele realmente ganhe o prêmio, queremos ter uma matéria pronta para publicação imediata.
- Desde quando nos interessamos por cientistas? Achei que só nos importássemos com políticos, estrelas de cinema e astros de rock – quis saber o rapaz.
- É que esse cara parece ser um tipo especial. Vale a pena investigar – explicou.
- Certo, mas por onde começo?
- Pelo amor de Deus! Estou começando a desconfiar que você errou de profissão. Comece por onde quiser, mas me traga essa matéria pronta em quinze dias, entendeu? – disse o editor, dispensando o repórter com um gesto impaciente.

Quando deixou a sala, ele sentiu que, se não fizesse aquele trabalho direito, seu emprego estaria por um fio. Mesmo parecendo ser uma matéria chata, teria de dar o seu máximo. De repente, percebeu que o editor não tinha lhe dado o nome do tal físico. Sem ter outro remédio, voltou à sala do chefe e bateu na porta:
- O que é? – perguntou o editor, mal-humorado.
- Chefe, qual é o nome do sujeito sobre o qual tenho de escrever?
- Não acredito que você ainda não sabe! – respondeu, rabugento. – É Feynman. Richard Feynman!

A IRMÃ

- Quando ele nasceu, papai disse à mamãe: “Esse menino vai se tornar o que eu não consegui ser: um cientista”.
- E como sua mãe reagia a esse tipo de comentário? Ela gostava da ideia?
- Na verdade, ela levava mais na brincadeira, mas às vezes ficava bastante aborrecida com papai – disse Joan Feynman.
- Por quê?
- Bem, ele tinha a mania de ficar lendo páginas e páginas da Enciclopédia Britânica quando Richy ainda era apenas um bebê. Aí, mamãe dizia: “Mell, pelo amor de Deus, larga esse menino, não vê que ele é muito pequeno para entender?”. Papai, no entanto, não pensava assim. Para ele, Richy era pequeno, mas não era burro.
- E o que mais você lembra que o seu pai fazia para estimular o seu irmão?
- Ah! Muitas coisas. Havia as idas ao Museu de História Natural de Manhattan. Richy não parava de fazer perguntas e papai explicava tudo o que podia, sempre o encorajando a perguntar sobre o significado de todas as coisas. Nas pescarias não havia pedra que não levantássemos, folha ou flor que não observássemos. Papai nunca se limitava a dizer apenas os nomes. Ele acreditava que conhecer o nome de uma coisa era totalmente diferente de realmente conhecer essa coisa. Eram maravilhosos esses passeios!
- E você acredita que isso influenciou o seu irmão?
- Ah! Com certeza! Afinal, tudo aconteceu exatamente como papai previu. Richy se transformou num cientista importante. Para ele, tudo sempre foi uma grande diversão, sobretudo quando, a partir da observação, tentava compreender o funcionamento das coisas. E quanto maior era o problema, mais ele se divertia.

O COLEGA DE AULA

- Por que você não gostava dele?
- Ele se achava muito esperto. Sempre querendo aparecer.
- Como assim?
- Como era bom em matemática se achava uma espécie de menino-prodígio. Mas quer saber, Richy era um bobalhão. Na hora das aulas, em vez de se concentrar na explicação dos professores, ele ficava lendo outros livros e depois ficava enchendo a paciência de todo mundo com um monte de perguntas que ninguém sabia responder. Um chato! Era isso o que ele era: um tremendo chato!

Continua…

Margarete Hülsendeger - Professora de Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. É autora da obra E TODAVIA SE MOVE (E POR SI MUOVE), editada em 2011 pela Edipucrs. Assina a COLUNA QUEDA LIVRE, atualizada quinzenalmente.
Mande um mail para o autor | Todos os artigos de Margarete Hülsendeger

Comentários

Um comentário para “O QUE IMPORTA O QUE AS PESSOAS PENSAM? – PARTE 1”

  1. Margarete, uma nova série que, pela primeira parte, já despertou o meu interesse na continuidade da história. Como sempre, tua escrita flui leve e agradável. Parabéns!!!
    Abraço, Gilka

    Posted by Gilka Coimbra | March 24, 2012, 14:58

Deixe um comentário