OUTRO COLEGA DE LOS ALAMOS
- Richard foi o único de nós que teve coragem de observar a explosão sem óculos de sol. No início pensamos que pudesse ser algum tipo reação ao que havia acontecido com Arline, mas depois logo percebemos que era apenas curiosidade. Bem típico de Richard.
- O que ele fez?
- Simplesmente se escondeu atrás do para-brisa de um caminhão e esperou que a bomba fosse detonada.
- E o que ele viu?
- Bem, pode-se dizer que Richard foi o único a ter uma visão não alterada do acontecimento. Ele descreveu que primeiro observou um raio, depois uma luz que se tornou amarela e depois laranja e, finalmente, uma enorme esfera cor de laranja que se ergueu e inchou até se tornar uma grande bola de fumaça com raios que saíam do seu centro.
- E qual foi a reação dele?
- A mesma de todos nós: alegria. Afinal, estávamos trabalhando naquele projeto há mais de dois anos, sem saber se estávamos na direção certa. Constatar que todo o nosso esforço e sacrifício não haviam sido em vão foi um alívio.
- E depois?
- Depois do quê?
- Depois que vocês ficaram sabendo sobre Hiroshima e Nagasaki? Qual foi a reação do Dr. Feynman?
- A maioria de nós ficou bastante apreensiva e com um tremendo sentimento de culpa. Richard era um dos mais preocupados com o emprego que foi dado ao nosso projeto. Ele, assim como nós, não queria que a bomba fosse utilizada da maneira como foi, sobre cidades e civis. Aquilo nos deixou realmente arrasados.
- Ele chegou a lhe dizer alguma coisa diretamente?
- Apenas que não conseguia parar de imaginar o efeito de uma bomba como a de Hiroshima sendo lançada na 34º avenida, em Nova York. Ficava calculando quantos prédios iriam cair e quantas pessoas morreriam. Ele ficou realmente abalado. Isso eu posso garantir.
- E a situação da esposa?
- O que tem ela?
- Ela já havia morrido quando a explosão aconteceu?
- Sim. Foi muito triste. Mas sobre isso não quero falar. É um assunto íntimo demais. Mas posso dizer uma coisa: Richard e Arline não mereciam.
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- Criança-prodígio, estudante excepcional, cientista brilhante ou como o físico Hans Bethe, colega em Los Alamos, definiu: “Um mágico que faz coisas que ninguém mais poderia fazer e que parecem totalmente inesperadas”. Esses são apenas alguns dos adjetivos usados quando as pessoas querem falar sobre Richard Feynman.
- Pelo visto esse cara o deixou bastante impressionado – disse o editor.
- Para falar a verdade, sim. O homem era realmente uma figura e, com certeza, marcou a todos que vieram a cruzar o seu caminho. Seu amor pela ciência e sua curiosidade em querer descobrir os mistérios da natureza o levaram por caminhos diferentes e originais, como suas contribuições ao Projeto Manhattan e à Mecânica Quântica. Portanto, não posso mais estranhar a sua indicação para o Prêmio Nobel de Física. Ele, com certeza, mereceu.
- E quanto a sua vida pessoal? Algum escândalo que possamos usar para apimentar a matéria? – perguntou o editor.
- Se você considera viver um grande amor um escândalo que valha a pena ser noticiado, então, sim, temos um enorme escândalo nas mãos – ironizou o repórter.
- Não acredito! Você virou um romântico!
- Pode ser. No entanto, não tenho dúvidas de que esse homem foi marcado pela força da paixão que viveu com a sua primeira esposa, Arline. Para ele, ela permaneceria na sua vida como sendo um amor como não conheceu igual.
- Matéria encerrada? – perguntou o editor.
- Sim – respondeu o repórter.
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Richard Feynman recebeu o Prêmio de Nobel de Física em 1965 pelo seu trabalho na eletrodinâmica quântica. Além disso, 21 anos depois, em 1986, ele foi o único cientista a participar da comissão de pesquisa que investigou o acidente com a nave espacial Challenger. Dois anos depois, em fevereiro de 1988, ele morreu vítima de câncer no estômago. Uma de suas últimas frases antes de morrer foi: “Eu odiaria morrer duas vezes. É muito chato!”
Margarete Hülsendeger - Professora de Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. É autora da obra E TODAVIA SE MOVE
(E POR SI MUOVE), editada em 2011 pela Edipucrs. Assina a COLUNA QUEDA LIVRE, atualizada quinzenalmente.
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Muito interessante conhecer alguns detalhes sobre a vida de cientistas. Muito bom!!!! Sempre gosto das tuas histórias e dessa mescla que fazes entre a realidade e a ficção. Parabéns!!!!!! bju