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categoria: QUEDA LIVRE

O MANUSCRITO

Na rua, praticamente deserta, Miguel caminhava apressado. Era uma manhã fria de inverno, agravada por uma chuva miúda que caía desde a noite anterior. No entanto, Miguel parecia não perceber. Desde que havia saído do correio, pensava em chegar o mais rápido possível ao trabalho. Estava aguardando essa encomendadias.

 

Na sua profissão, era normal ser consultado sobre a autenticidade de determinados documentos e objetos; sendo um antiquáriotanto tempo, sabia muito bem o quanto as falsificações eram comuns. Contudo, desde que recebera aquele e-mail, e o anexo que o acompanhava, vivia momentos de grande excitação. Estava prestes a examinar algo único.

 

Ao dobrar a esquina, viu-se, finalmente, diante do pequeno prédio onde estava instalada sua loja de antiguidades. Com as mãos tremendo, abriu a porta. Rapidamente acionou o interruptor de luz e, com um suspiro de alívio, viu-se dentro do seu santuário.

 

A primeira coisa que atingia qualquer um que ali entrasse era o cheiro: misto de poeira com aquele odor característico de papel velho. Definitivamente, o inferno para alguém com problemas respiratórios. Miguel, no entanto, não se sentia afetado. Ao contrário. Para ele, esse cheiro, que irritava os narizes mais delicados, era um aroma agradável e muito bem-vindo.

 

Na loja podia-se encontrar desde livros antigos, sua especialidade, até quadros, louças e alguns móveis. Havia praticamente de tudo. E Miguel tinha um inventário completo de todos os objetos que entravam e saíam do depósito. Cuidava sozinho da loja. Somente quando era obrigado a se ausentar para fazer a avaliação de alguma peça ou adquirir algum artigo que houvesse chamado a sua atenção, consentia em contratar alguém. Tarefa difícil, pois seu nível de exigência era bastante alto quando se tratava da sua loja.

 

Após trancar a porta, colocou sobre a sua escrivaninha, estilo Luís XVI, o pacote que trazia apertado junto ao corpo. Sentando-se, abriu o seu laptop e quando a conexão se estabeleceu, digitou rapidamente a seguinte mensagem: “A encomenda chegou sem problemas. Assim que tiver novidades entro em contato. M.”. Apertando a tecla de enviar, fechou o computador. Agora eram apenas ele e o pacote.

 

Com as mãos tremendo abriu, com cuidado, o papel do embrulho. Uma caixa de papelão apareceu. Usando uma tesoura, cortou a fita adesiva que a prendia. dentro, enrolado em papel bolha, um livro muito antigo aguardava.

 

Sem querer, suspendeu a respiração. As imagens recebidas por e-mail não haviam mentido. Era o mesmo livro. Calçando luvas especiais, tomou todo o cuidado possível para removê-lo da sua embalagem de proteção. Era um livro pequeno, semelhante aos conhecidos pocket books.

 

Não precisaria datá-lo, isso fora feito por outro antiquárioalguns anos. O manuscrito era do final do século XIII. Na capa, o título estava escrito em uma linguagem desconhecida. Não era latim e nem qualquer língua falada na Idade Média. Além disso, o nome do autor estava ausente.

Com um objeto metálico, semelhante a uma espátula, abriu com delicadeza o manuscrito. Toda a extensão de suas folhas estava coberta por uma caligrafia miúda e por ilustrações ricamente coloridas. A tinta usada fora feita de pigmentos extraídos de minerais, como o lápis lasuli e o zarcão, e de diferentes vegetais. As figuras representavam plantas desconhecidas, símbolos astrológicos e científicos entre eles, espelhos e lentes. Além disso, muitas delas mostravam mulheres nuas banhando-se em fontes com líquidos de cor esverdeada. Algumas dessas gravuras ele havia examinado quando dos primeiros contatos por e-mail. No entanto, vê-las assim, ao vivo e a cores, era uma emoção completamente diferente. Apesar de ter se deparado com documentos ainda mais antigos do que este, o livro a sua frente estava tão carregado de mistérios que era difícil não se deixar levar por especulações de todo o tipo.

 

Afastando-se um pouco da mesa, procurou um lenço no bolso do seu casaco. Nervosamente secou o suor da testa. Ainda olhando para o livro, abriu com uma chave a gaveta da sua escrivaninha. Ali dentro estava escondido um outro segredo. Ele não o dividira com ninguém, nem mesmo com a pessoa que o havia contratado para decifrar os caracteres do misterioso manuscrito. Do interior da gaveta, retirou um pequeno caderno de anotações.

 

Quando recebeu as primeiras imagens do livro, pôs-se a trabalhar febrilmente nelas. Passou noites em claro tentando entender o que ali estava escrito. Uma noite, sentindo-se quase morto de exaustão, dormiu sobre os vários rascunhos que havia feito. Acordou de madrugada todo dolorido e com a boca seca. Estava pronto para guardar tudo e ir dormir em sua casa, quando seus olhos pousaram sobre uma das folhas de papel. De repente, como por magia, os símbolos assumiram um significado que antes ele não havia percebido. Uma ligação se estabeleceu e ele conseguiu associar aos símbolos, letras e às letras, palavras.

 

A partir daí começou o árduo trabalho de traduçãoou seria melhor dizer, decodificação. Na verdade, Miguel descobriu que não se tratava de um idioma novo, mas de um código extremamente complexo. Agora, naquele pequeno caderno de anotações, podiam-se encontrar muitos trechos decifrados do manuscrito.

 

Quando Miguel percebeu o que havia conseguido, insistiu em ver o livro pessoalmente. Depois de muitas trocas de e-mails, enfim, recebeu a confirmação que ele estaria a caminho. Entretanto, existia um outro segredo.

 

No final do manuscrito alguns rabiscos tinham chamado a sua atenção. , em símbolos que ele agora podia entender, destacava-se uma frase. Quando a viu pela primeira vez não pôde acreditar. Testou novamente todas as possibilidades. Mas quanto mais testava, mais clara a frase aparecia diante de seus olhos.

 

Com o livro a sua frente, procurou, nervoso, a página onde a sentença estava inscrita. Para Miguel, ela agora se destacava como se estivesse pintada com tinta fosforescente. Naquela pequena anotação, o autor do misterioso manuscrito, enfim, se identificava.

 

Continua…

Margarete Hülsendeger - Professora de Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. Autora da COLUNA QUEDA LIVRE, atualizada quinzenalmente aos domingos.
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Comentários

2 comentários para “O MANUSCRITO”

  1. Gostei. Tem um ritmo que lembra o Dan Brown. Aguardo a segunda parte!

    Posted by Daniela Pereira | December 23, 2009, 13:38
  2. Excelente! Parabéns! Bom ritmo, coeso e com a dose certa de mistério – um belo “gancho” para a continuaçào.
    Vou aguardar!
    bju, Gilka

    Posted by Gilka Coimbra | December 25, 2009, 17:33

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