// você está lendo...

categoria: QUEDA LIVRE

O INVENTOR – PARTE 2

O jovem Nikola encontrava-se diante da fachada imponente do edifício há no mínimo uma hora. Ele estava apavorado. Nem quando quase morrera de cólera havia sentido tanto medo. Na mão, uma folha de papel já meio amassada. Era a carta de recomendação de seu antigo chefe.

Nikola estava prestes a conhecer não só o presidente da companhia para a qual trabalhava há dois anos, mas também seu grande ídolo: Thomas Alva Edison. Assim, apesar de na sua mente tudo estar absolutamente claro, ele tinha receio de ser atrapalhado pelo nervosismo. Afinal, desde a adolescência, quando cursara a escola Politécnica de Engenharia, em Graz, sonhava com esse encontro.

Edison era um homem famoso, um gênio reconhecido. Seu sistema de corrente contínua já vinha fornecendo, há algum tempo, energia elétrica a várias cidades do mundo inteiro e a lâmpada incandescente, que ele tinha criado, só tinha feito aumentar ainda mais a demanda por esse tipo de energia. E por conta disso, sua central elétrica, localizada em Pearl Street, em Manhatttan, estava rapidamente se tornando um monopólio. Tratava-se, portanto, de um homem não só famoso, mas também, rico, muito rico. E era esse homem que Nikola estava prestes a encontrar.

Quando, finalmente, reuniu coragem para subir até o escritório de Edison, Nikola ainda teve de esperar por mais de duas horas para ser atendido. E, quando, enfim, ficou frente a frente com seu grande herói, ele demonstrou não ser o interlocutor amigável e bem disposto que Nikola estava esperando.

Para grande desânimo do jovem, suas ideias para um novo sistema de geração de eletricidade, tendo como base a corrente alternada, não despertou o interesse que ele havia imaginado. No entanto, para seu alívio, a entrevista não foi um fracasso total. Edison contratou-o para realizar melhorias em suas estações de corrente contínua, com a promessa de um bônus de 50 mil dólares caso ele conseguisse uma melhora satisfatória.

Apesar de o projeto de corrente alternada estar pronto na sua cabeça, Nikola não viu problema algum em abandoná-lo por um tempo para se dedicar à tarefa imposta pelo novo chefe. E como sempre acontecia quando ele se voltava para um novo projeto, mergulhou de corpo e alma no trabalho, não medindo esforços e nem se importando em perder horas de sono para chegar ao seu objetivo. Além da questão do dinheiro, importante naquele momento, Nikola não queria decepcionar o seu ídolo.

Alguns meses depois daquela primeira entrevista, ele retornou ao escritório de Edison. Dessa vez não estava muito nervoso, pois tinha em mãos algo que com certeza iria agradar ao presidente da companhia.

- Muito bem, meu jovem, a que devo o prazer desse novo encontro? – perguntou Edison em tom de brincadeira.

Nikola estava tão emocionado que sequer percebeu a zombaria.

- Bem, há alguns meses o senhor deu-me uma tarefa e eu vim lhe dar o retorno – explicou.

- E qual teria sido essa tarefa? – quis saber Edison, fingindo não se lembrar.

- O senhor pediu que eu aumentasse a eficiência dos dínamos de corrente contínua em no mínimo 25%.

- Ah! É mesmo? Então, conseguiu? Ou será que o senhor veio até aqui apenas para me dizer que não há um sistema melhor?

- Nenhuma das duas coisas – Nikola respondeu, sério.

- Como assim? A essa altura o senhor já deve saber que eu sou um homem muito ocupado e não tenho tempo para desperdiçar com jovens imigrantes que se acham melhores do que os outros – Edison disse, furioso.

Com um sorriso no rosto, Nikola retirou de dentro de uma pasta velha alguns papéis e sem pressa foi espalhando-os sobre a mesa. De má vontade, Edison começou a examinar o material e lentamente sua expressão de aborrecimento foi sendo substituída pela de espanto.

- O que significa isso? – quis saber Edison.

- O que está escrito aí. Eu não melhorei o aproveitamento dos dínamos em 25%, mas em 40%. Isso está bem para o senhor?

Edison olhava para os papéis e depois para Nikola, sem saber o que dizer. No entanto, aos poucos, percebeu que aquele jovem magro e com um forte sotaque da Europa Oriental o havia superado, demonstrando, sem dúvida alguma, que era muito melhor do que ele. Edison não gostou nem um pouco da sensação.

- Muito bem, rapaz. Vejo que obteve sucesso nesse trabalho, agora vamos ver o que mais pode me oferecer. Dependendo do que fizer a partir de agora, talvez você tenha um futuro dentro da companhia – disse Edison, engolindo o despeito.

- Obrigado, senhor. Mas… – começou a dizer Nikola.

- Mas, o quê?

- E o bônus?

- Que bônus?

- Aquele que o senhor me prometeu de 50 mil dólares.

- Caro rapaz, eu não prometi nada.

- Prometeu sim – respondeu, nervoso, Nikola.

- Veja bem, se fiz alguma promessa, foi na forma de uma brincadeira. Quando o senhor se tornar um americano de verdade, apreciará uma piada americana – disse, rindo, Edison.

Apesar da sua grande inteligência, Nikola demorou um pouco para assimilar as palavras de Edison. Quando, enfim, as entendeu, o sorriso de satisfação lentamente sumiu do seu rosto e o seu corpo ficou rígido de tensão.

- Então, o senhor está dizendo que não vai cumprir com a palavra dada? – perguntou Nikola.

- Não. Estou dizendo que não lhe dei palavra alguma; tratou-se apenas de uma brincadeira. Afinal, o que o senhor fez aqui nada mais foi que a sua obrigação, para isso que eu lhe pago um salário – respondeu Edison, furioso.

- Muito bem – começou a dizer Nikolas de forma lenta e contida -, então, o senhor pode enfiar esse seu salário naquele lugar, pois eu não trabalho com mentirosos e homens sem palavra.

E sem dizer mais nada Nikolas saiu do escritório de Thomas Alva Edison, sem os seus 50 mil dólares, sem emprego e sem um herói.

“Amigos”, o velho pensou, “nunca os tive”. Apenas seus lindos pássaros brancos nunca o haviam decepcionado. Somente por eles sentia algum carinho. Os demais souberam apenas explorá-lo quando esteve no alto, para depois, quando não tinha mais nada a oferecer, esquecerem-se da sua existência. Hoje compreendia que o seu problema foi ter colocado seus ideais acima de qualquer ganho material. Sempre fora um discípulo da ciência pura e essa, com certeza, havia sido a sua grande perdição. No entanto, ele tinha consciência de que faria tudo de novo. Não mudaria nada.

Continua…

Margarete Hülsendeger - Professora de Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. É autora da obra E TODAVIA SE MOVE (E POR SI MUOVE), editada em 2011 pela Edipucrs. Assina a COLUNA QUEDA LIVRE, atualizada quinzenalmente.
Mande um mail para o autor | Todos os artigos de Margarete Hülsendeger

Comentários

Um comentário para “O INVENTOR – PARTE 2”

  1. Interessante, Margarete. Estou ainda mais curiosa para saber o desenrolar dessa história. Vou aguardar! Abraços, Gilka

    Posted by Gilka Coimbra | July 24, 2012, 23:43

Deixe um comentário