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categoria: QUEDA LIVRE

O INVENTOR – PARTE 1

No pequeno quarto de hotel ouvia-se apenas o arrulhar dos pombos. Pombos brancos. Nervosos, eles se agitavam dentro das gaiolas como se soubessem que algo estava prestes a acontecer. Em uma mesa, entre farelos de bolachas e pontas de lápis, podiam-se ver várias folhas de papel repletas de desenhos e rabiscos estranhos e desconhecidos.

Diante da janela, sentado em uma poltrona, o velho contemplava o parque. Seu fim estava próximo, ele sabia. No entanto, sua mente nunca estivera tão clara como agora. Toda a sua vida – com seus erros e acertos – encontrava-se diante dele. Não sentia arrependimentos. Contudo, o peso do cansaço que agora o dominava era insuportável. Só uma vez na sua vida havia se sentido assim.

- Nikola! Nikola! – repetia aflita a mulher

- Não adianta, Djuka, a febre está muito alta e ele não nos ouve – disse o homem, enquanto abraçava a esposa, retirando-a de perto da cama do doente.

- Ah! Meu bom Deus! Ele vai morrer? Diga-me, Milutin! Deus vai nos tirar mais um filho?

- Fique quieta mulher! Não faça perguntas tolas! O melhor que você tem a fazer é buscar mais água e panos limpos para lavá-lo. Quem sabe, assim a febre baixe – disse, enfurecido, o homem.

Desesperada e aos prantos, a mulher deixou o quarto, lançando um último olhar ao filho doente que, em meio à febre, delirava. Quando se viu só, Milutin caiu de joelhos ao lado da cama.

- Santo e bondoso Deus, ouça a minha prece. Tua sabedoria é infinita e eu nada mais sou do que um pobre homem, indigno de colocar em dúvida os Teus desígnios. Porém… – Milutin se interrompeu, sentindo que a qualquer momento o desespero e o pranto também o dominariam. – Porém – voltou a dizer –, Nikola é meu único filho, ou melhor, meu último filho, já que Dane encontra-se ao Teu lado. Por isso suplico a Tua misericórdia. Poupa-o. Permite que ele viva. Se essa enorme graça me for concedida, eu prometo, meu Pai, prometo que…

Nesse momento, Milutin percebeu que lhe apertavam o braço. Com um susto, abriu os olhos e viu que Nikola o olhava, tentando lhe dizer alguma coisa.

- Filho?! O que é? Água? Queres água? – perguntou, aflito.

O rapaz fez um gesto para que o pai se aproximasse e com esforço disse:

- Pai, não se preocupe, eu vou ficar bem.

- Claro, meu filho, eu sei disso. Eu só estou pedindo ao Todo Poderoso que a tua recuperação seja breve – disse Milutin, tentando sorrir.

- Pai – voltou a chamar o jovem.

- Fale, meu filho;

- O senhor pode me prometer uma coisa? – perguntou o rapaz, enquanto tentava se erguer da cama.

- Qualquer coisa meu filho. Qualquer coisa, mas fique quieto, por favor.

- Se eu sobreviver o senhor permite que eu me torne um engenheiro?

Milutin ficou sem saber o que dizer. Seu filho estava lhe fazendo um pedido. Talvez, seu último pedido. E mesmo que desejasse muito vê-lo seguir o caminho do sacerdócio, emocionado, não pensou duas vezes:

- Claro, Nikola. Tudo o que você quiser. Quando estiver curado pode ir para Graz cursar a escola de Engenharia. Eu prometo diante de Deus!

Com um sorriso nos lábios o rapaz soltou o braço do pai e recostando-se nos travesseiros, voltou a dormir. Seis meses depois, a escola Politécnica de Graz recebia um novo aluno.

O velho moveu-se inquieto na poltrona. Sentia que os fantasmas começavam a assombrá-lo, despejando sobre ele lembranças de outras épocas e de pessoas que há muito tempo já estavam mortas e esquecidas. Os pombos continuavam inquietos, batendo as asas dentro de suas pequenas gaiolas. O velho tentou se levantar. Seu corpo não quis lhe obedecer. Exausto e respirando com dificuldade, compreendeu que em breve seus “amigos emplumados” não teriam mais a sua companhia. “Amigos”, essa palavra lhe trouxe um gosto amargo à boca. Um gosto de derrota. Um gosto de traição.

Continua…

Margarete Hülsendeger - Professora de Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. É autora da obra E TODAVIA SE MOVE (E POR SI MUOVE), editada em 2011 pela Edipucrs. Assina a COLUNA QUEDA LIVRE, atualizada quinzenalmente.
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Comentários

Um comentário para “O INVENTOR – PARTE 1”

  1. Não vou perder nenhum capítulo dessa nova série. Gostei imensamente do ritmo e do “tom” que usaste para descrever esse novo personagem. Parabéns!!!! bju, Gilka.

    Posted by Gilka Coimbra | July 5, 2012, 15:52

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