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categoria: QUEDA LIVRE

O EXPERIMENTO

Esta é a essência da ciência: faça uma pergunta impertinente e cairá no caminho da resposta pertinente.

J. Bronowski

 

- O que você acha, Maria? A energia será suficiente? – perguntou o homem mais velho, chamado Parker, chefe da equipe principal do projeto.

- Acredito que sim. No entanto, não podemos descartar a possibilidade de um blackout momentâneo. Quem ficou de avisar as autoridades?

Num canto do enorme laboratório, um grupo de cientistas, alheio à confusão reinante em torno deles, conversava. Seus gestos eram nervosos e suas expressões eram um misto de cansaço e expectativa.

- Fui eu – respondeu um homem moreno, de baixa estatura. – Os governos suíço e francês estão avisados. Eles não gostaram muito da ideia, queriam garantias de que tudo voltaria rapidamente ao normal.

 

Todos acharam graça desse pedido. Eles sabiam muito bem que, na fase na qual se encontravam, garantia era algo difícil de oferecer. No momento, limitavam-se a torcer para que tudo saísse de acordo com o planejado. No entanto, compreendiam a preocupação das autoridades. Afinal, a energia envolvida enquanto o equipamento estivesse funcionando era da ordem de sete trilhões de elétrons-volt, o consumo aproximado de quarenta shopping center.

 

Passado esse breve momento de descontração, todos voltaram a se concentrar nos papéis espalhados em cima da mesa. Eram esquemas complexos de algo que parecia ser uma enorme estrutura na forma de anel.

- Muito bem – voltou a falar o homem mais velhoComo estão os alinhamentos dos ímãs? Qualquer desvio na trajetória das partículas pode pôr a perder toda a experiência.

- Não se preocupe. Eu mesmo conferi tudo, no mínimo umas duzentas vezes. Todos os 1232 ímãs vão dar conta do recado. – respondeu, otimista, outro homem com um forte sotaque alemão.

 

Todos demonstravam bastante segurança de seus encaminhamentos. Ao olhar para eles, Parker sentiu um grande orgulho. O que estavam prestes a atingir seria considerado um importante marco da ciência moderna. Saber que esses homens e mulheres encontravam-se ao seu lado lhe dando o apoio necessário para seguir adiante era um verdadeiro alívio. Apesar de que nem sempre fora assim.

 

Quando o grupo se formara, havia sido muito complicado lidar com os egos de pessoas tão inteligentes e qualificadas. Essa tarefa tinha-lhe custado horas de sono e muito stress. No entanto, depois de quase dez anos trabalhando juntos, tentando resolver os mais variados problemas, muitas dessas dificuldades de temperamento haviam sido contornadas. Todos agora reconheciam não as suas próprias qualidades, mas também as de seus colegas. Uma conquista formidável quando pensava que diante de si havia três prêmios Nobel.

 

- E a imprensa? Quem ficou encarregado de falar com a imprensa? - de repente perguntou um baixinho moreno chamado Rajid, pós-doutor em Física de Partículas.

 

Silêncio. Todos olharam ansiosos para o chefe da equipe. A imprensa.

Apesar de seus inúmeros títulos acadêmicos, eles temiam a imprensa e, consequentemente, os jornalistas. Desde que havia vazado a noticia sobre o que pretendiam fazer, os repórteres não os deixavam em paz. Telefones tiveram de ser trocados e muitos cientistas estavam preferindo dormir em seus gabinetes de trabalho. Apenas os que tinham família se arriscavam a deixar as dependências do Centro. Um inferno!

 

Para tornar tudo ainda pior, foram divulgadas informações absurdas sobre o experimento. Falava-se de tudo, desde que se estaria tramando o fim do mundo até que o objetivo da experiência era provar que Deus não existia. Quase todos os integrantes do projeto tinham recebido e-mails, vindos de praticamente todas as partes do planeta, acusando-os de assassinos da humanidade e de seguidores de satã. Absurdos!

 

Com um pigarro nervoso, o chefe da equipe explicou:

- A ordem é para não darmos mais entrevistas. Isso fica a cargo do departamento de relações públicas do Centro. O último e-mail deixou o pessoal da segurança um tanto quanto preocupado. Todas as informações agora devem passar por eles antes de serem divulgadas à imprensa.

Todos ali sabiam a qual e-mail Parker estava se referindo. Além de o emitente demonstrar conhecimento de detalhes altamente técnicos e complexos do projeto, ele fazia ameaças muito sérias, comocolocar tudo abaixo antes que eles apertassem o botão que destruiria o planeta”.

 

- Que porcaria! – disse o alemão Bernhard, engenheiro de materiais, responsável pela manutenção dos grandes imãs bipolares. – Como se não bastasse os nossos problemas, ainda temos de lidar com esses malucos.

- Nós não vamos ter de lidar com nenhum maluco. Isso, a partir de agora, é problema do pessoal da segurança e do RP. – disse firme o chefe da equipe. – Vamos nos concentrar no nosso trabalho para que tudo corra da maneira mais perfeita e tranquila possível.

Virando-se para o encarregado da coleta de informações, ele perguntou:

- E os computadores? Eles vão conseguir processar os dados que serão obtidos durante as colisões?

 

O responsável em questão era um homem jovem, não devia ter passado ainda dos trinta, coisa rara, pois a maioria dos cientistas tinha ingressado há algum tempo numa idade mais madura. Seu nome era Mikael e era de nacionalidade sueca. Começou como hacker, mas ao ser descoberto e posteriormente contratado pelo Centro, trocou suas atividades ilícitas pelo trabalho cientifico. Sabia tudo sobre computadores e era o único que não tinha um doutorado. No entanto, isso não parecia incomodar ninguém. Ao contrário. Muitos haviam tido uma amostra das suas habilidades: a desagradável experiência de ter suas máquinas invadidas por ele. Portanto, tinham rapidamente aprendido a respeitá-lo e, principalmente, a temê-lo.

- Tudo dentro do cronograma. fizemos várias simulações. Os dados foram coletados sem problemas, seguindo o planejamento estabelecido por vocês. Assim que as informações começarem a chegar, elas serão imediatamente encaminhadas para a rede, com todos podendo ter acesso quase instantâneo a elas. A previsão é de que em um ano se possa gerar o valor aproximado de quinze milhões de gigabytes de dados.

- Muito bem, o relógio está correndo e faltam agora apenas algumas horas para o dia D. Precisamos ter toda a calma do mundo. Revisar e revisar cada fio, cada equação, cada equipamento, para tudo acontecer dentro do previsto. Não quero nem pensar se alguma coisa der errada – falou com firmeza Parker.

 

Não era a primeira vez que escutavam esse mesmo discurso. No entanto, todos sabiam das suas responsabilidades e dos riscos que estavam correndo. Nenhum deles tinha o menor interesse em colocar suas carreiras e seus nomes em risco. Assim como nenhum deles gostaria de estar em outro lugar; aquele experimento era o sonho dourado de qualquer cientista.

- Chefe? A data continua sendo a mesma ou houve alguma alteração? – perguntou Maria, doutora em Física de Alta Energia, e integrante do projeto desde o começo.

- Não houve nenhuma alteração! O experimento começará dia 10 de setembro às 10 horas. Ou seja, caros colegas, estamos há exatas quarenta e quatro horas do inicio da “grande corrida”.

 

Continua…

 

 

 

 

Margarete Hülsendeger - Professora de Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. Autora da COLUNA QUEDA LIVRE, atualizada quinzenalmente aos domingos.
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Comentários

Um comentário para “O EXPERIMENTO”

  1. Oi Margarete. Parabéns! Esse é mesmo um mundo a parte. Que bom que tu deixas tudo mais claro e interessante pela tua palavra. Vou aguardar a continuação.
    bju, Gilka

    Posted by GilkaCoimbra | March 18, 2010, 9:41

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