Paris – 1934
Deitada, toda vestida de branco, ela parecia em paz. Suas mãos ásperas, calosas, endurecidas e profundamente queimadas repousavam abertas sobre o peito. Ao lado dela, a jovem havia parado de chorar.
Em breve, a cerimônia começaria. Ela seria simples, como fora a de Pierre. Apenas a família e os amigos íntimos. Olhando-a ali, tão quieta e tranquila, era difícil imaginar que aquela mulher, pequena e frágil, havia se tornado a primeira a receber um Prêmio Nobel. Do mesmo modo, poucos sabiam quantos sacrifícios ela fora obrigada a fazer e quantas perdas tivera de suportar. Sim. Poucos, muito poucos, sabiam ou desejavam saber.
******
Paris – 1906
Nada em sua vida a preparara para tamanho sofrimento. Nada. Sentia-se profundamente só. Como lidar com esse sentimento avassalador que a empurrava cada vez mais para baixo, para a escuridão? Precisava pensar em suas filhas, Eve e Irène. Uma parte dela estava preocupada; no entanto, a outra, aquela que agora a dominava, só queria esquecer.
“Pierre, Pierre, meu Pierre”, ela repetia. Seu querido, seu amado estava morto. Marie não conseguia acreditar, principalmente agora, quando se sentiam tão confiantes no futuro.
Quando ela entrara na sala, simplesmente, alguém lhe dissera: “Ele está morto”. Sequer tivera tempo para se despedir. Isso a atormentava. Ela que já havia vencido tantas batalhas, agora vivia a mais amarga das derrotas.
“Pierre, Pierre, Pierre”, ela continuava repetindo, como se assim pudesse trazê-lo de volta à vida. Uma carroça. Uma simples e estúpida carroça havia se encarregado de tirá-lo dela. Sua cabeça impiedosamente esmagada. “Ah, meu Deus!”, gemia. Ela não suportava imaginar. Sua única esperança era de que, no final, ele não houvesse sofrido.
“Pierre, Pierre, Pierre. Meu querido. Meu amado. Meu amigo”. Tantos planos, tantas esperanças encerradas de maneira tão tola. O novo laboratório. As novas pesquisas. Suas filhas crescendo felizes e com saúde. O que seria agora dela? Como poderia seguir vivendo?
Todos foram pegos de surpresa. Num momento ele estava saindo de um encontro com amigos e colegas animado e alegre e no outro caía no chão, em meio a chuva, com o crânio esmagado. Os jornais a atormentavam, assim como há três anos quando os dois receberam o Prêmio Nobel de Física. A diferença era que, naquela época, eles viviam um momento de grande felicidade e realização, enquanto agora havia apenas esse sofrimento excruciante dominando sua alma e seu corpo.
Quando o colocaram no caixão, fora ela que segurara a sua cabeça enfaixada. “Não é verdade que você não desejaria que nenhuma outra pessoa segurasse a sua cabeça?”, ela lhe perguntava silenciosamente. Agora, no entanto, era preciso se despedir. Uma cerimônia simples, sem estardalhaço, exatamente, como sempre fora o desejo dele.
No final, antes de o caixão ser fechado, Marie encostou a cabeça na testa ferida de Pierre e prometeu que o amaria para sempre, com todo o seu coração. E desse último contato, algo como uma calma ou, quem sabe, uma intuição, a dominou e ela soube que encontraria forças para continuar vivendo. Para Marie, aquele sentimento de paz não fora uma ilusão, mas um acúmulo de energia vinda dele. Seu último ato de amor para com ela.
Continua…
Margarete Hülsendeger - Professora de Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. Autora da COLUNA QUEDA LIVRE, atualizada quinzenalmente aos domingos.
Mande um mail para o autor | Todos os artigos de Margarete Hülsendeger
Que lindo, Margarete! Parabéns!!!
Quero ler a continuação da história dessa mulher, que me parece muito forte e especial.
bju Gilka