O mundo é um lugar perigoso de se viver, não por causa daqueles que fazem o mal, mas sim por causa daqueles que observam e deixam o mal acontecer.
Albert Einstein
— Vocês sabem o que é uma onda? — perguntou séria a professora.
Primeiro o silêncio. Depois gestos começaram a ser feitos no ar, na tentativa de esclarecer, por meio da mímica, aquilo que era difícil, para eles, expressar em palavras.
— Muito bem! Eu sei o que vocês estão querendo dizer, mas quem consegue explicar com palavras? — desafiou a professora.
Novamente o silêncio. Todos já ouviram falar em onda, afinal, estavam no século XXI, mas ninguém, até agora, tinha pedido que eles explicassem. Para que explicar? Não bastava saber que elas existiam?
— Micro-ondas? — perguntou timidamente uma menina.
— Muito bom! Micro-ondas é um ótimo exemplo — respondeu a professora.
— Som!
— Luz!
— Ondas eletromagnéticas!
A professora sorriu. Finalmente, ela havia conseguido romper a resistência e a timidez iniciais. Agora todos tinham algo a dizer.
— Calma, pessoal — interveio — Todos estão corretos. Esses são ótimos exemplos de ondas. Só tem um problema. Ninguém ainda respondeu a minha pergunta: o que é uma onda?
As vozes se calaram instantaneamente. E de novo a dúvida: como colocar em palavras o que, para eles, era inexplicável? Lá atrás, no entanto, na última mesa, na fila ao lado da parede, um dos alunos mexia-se nervoso na cadeira. A professora percebendo, perguntou:
— Eduardo? Qual o problema?
O rapaz ficou branco. Não. Amarelo de pavor. Detestava ser chamado a atenção. Sabia que boa coisa não poderia resultar disso. Os colegas, reconhecendo quem havia sido o advertido, começaram a dar risadinhas, debochando daquele que estava sendo alvo do interesse da professora.
— Nada — respondeu Eduardo num sussurro.
— Tem certeza? — voltou a perguntar a professora. — Algo me diz que você sabe a resposta.
Ele sabia. Mas não tinha a menor intenção de responder. Há algum tempo aprendera a ficar de boca fechada. Saber demais só tinha lhe trazido problemas. “Fica quieto. Fica quieto”, repetia silenciosamente, rezando para que a professora o esquecesse. No entanto, ela não o esqueceu.
— Vamos, Eduardo, eu sei que você sabe. Explique para os seus colegas o que é uma onda — ela pediu, enquanto com o olhar tentava impor silêncio a turma que, entre risos, aguardava a resposta.
Eduardo, cada vez mais nervoso, se remexia na cadeira olhando desesperado para a porta, só pensando em fugir. Do outro lado da sala, uma menina observava a cena sem nada dizer. Ela sabia que a intenção da professora era boa, mas ela também entendia o silêncio de Eduardo. E por entender, estava com muita pena dele.
— Eu não sei professora — respondeu, enfim Eduardo.
— Tem certeza? — insistiu a professora.
— Não adianta, sora. Esse aí não sabe de nada. É burro mesmo — interrompeu outro adolescente que, rindo, olhava para a turma em busca de apoio.
— E por acaso eu lhe perguntei algo, Rogério? Pensando melhor, talvez você saiba a resposta. Quer, por favor, explicar para os seus colegas o que é uma onda? — ela rebateu.
— Puxa, sora, não precisa ficar nervosa — disse sem jeito o adolescente, enquanto seu rosto ficava vermelho, pois agora ele era o alvo das risadas da turma.
De repente, a professora percebeu que o ambiente na sala havia mudado. Eduardo permanecia imóvel olhando fixo para a mesa. O resto da turma, em expectativa, sedenta por mais um pouco de diversão, esperava o desfecho da história. Amaldiçoando-se por ter deixado que as coisas chegassem aquele ponto, ela decidiu tomar de volta as rédeas da situação.
— Muito bem. Chega de piadinhas! Não estou vendo graça alguma. Além disso, ninguém até agora respondeu a minha pergunta. Ninguém! — disse irritada.
A menina que quieta, do outro lado da sala, observava o bate-boca, fez um sinal, chamando a atenção da professora:
— Sim, Mariane?
— Onda é uma perturbação que se propaga em um meio físico. — explicou a menina.
Dessa vez não foram ouvidas risadinhas. A turma permaneceu em silêncio esperando o veredicto da professora.
— Ótimo Mariane! É isso mesmo! A onda é uma perturbação que se propaga em um meio físico — repetiu aliviada a professora.
No fundo da sala, Eduardo levantou lentamente a cabeça. Seus olhos encontraram os de Mariane que, séria, o fitava. Nenhuma palavra ou gesto foi trocado entre eles. E apesar do espaço que os separava, naqueles poucos segundos toda a distância ou diferença foi esquecida e eles reconheceram-se como iguais.
Enquanto isso, a aula prosseguia, com a professora se arriscando a fazer uma nova pergunta:
— Certo pessoal. Agora quem me responde qual é a principal característica de uma onda?
Margarete Hülsendeger - Professora de Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. Autora da COLUNA QUEDA LIVRE, atualizada quinzenalmente aos domingos.
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