- Só um momento. – voltou a interromper o repórter. – Agora lembro onde ouvi o nome desse rei. Foi em uma palestra, dada por um historiador, sobre as dinastias europeias. E se esse é o mesmo cara, ele viveu no século XIV, portanto, é impossível que você o tenha conhecido.
- Mas eu o conheci – disse simplesmente o homem.
Um novo silêncio se instalou no quarto. O homem e o repórter se encaravam. O primeiro aparentando uma tranquilidade assustadora e o segundo pasmo diante de afirmativa tão absurda. Entretanto, o profissionalismo falou mais alto:
- Quero ver se entendi bem. Você está dizendo que conheceu o rei Carlos V? – perguntou o repórter.
- Conhecer, não o conheci. Afinal, para todos, continuava sendo um simples escrivão. Mas posso dizer que vivi na mesma época na qual ele governou a França. – esclareceu o homem, como se estivesse falando algo absolutamente trivial.
Cautelosamente, pronunciando as palavras da forma mais clara possível, o repórter fez a pergunta que há algum tempo rondava a sua mente:
- Em que ano exatamente você nasceu?
- No ano da graça de 1330.
- Você pode me dizer o seu nome?
- Creio que agora não há mais problema. Meu nome é Nicholas Flamel.
O repórter sentiu o quarto rodando a sua volta. Se aquela era uma brincadeira, o seu autor havia se esforçado bastante. O homem a sua frente tinha quase conseguido enganá-lo. Sem mais uma palavra, ele desligou o gravador e começou a colocar as suas coisas de volta na mochila.
- Você não acredita em mim. Posso ver. – disse o homem, parecendo realmente triste.
O repórter não tinha a intenção de prolongar por mais tempo aquela conversa. Entretanto, estava sentindo tanta raiva que não pôde se controlar:
- Diga ao seu companheiro que ele conseguiu. Ou seria melhor dizer vocês conseguiram? Vocês me fizeram de idiota. Parabéns! Mas eu juro que vou descobrir quem armou tudo isso. E quando descobrir alguém vai pagar por todo o meu tempo perdido. – ameaçou o repórter furioso.
Flamel ouviu a explosão de ira sem pestanejar. Percebia-se que ele estava esperando esse tipo reação. Sem pressa, se aproximou mais uma vez da cama. E de debaixo dela removeu outra caixa semelhante à primeira. Colocou-a sobre a mesa com cuidado. E olhando para o repórter, disse:
- Sei o que isso parece. No entanto, eu lhe garanto, é tudo verdade. Dentro desse baú encontrará as provas que precisa. Você com certeza as achará bem interessantes. Ao longo desses séculos, preocupei-me sempre em manter um registro de todas as minhas atividades, acreditava que um dia isso poderia ser útil. Pois bem, o momento chegou.
O repórter aproximou-se lentamente da caixa e a abriu. Pegou o primeiro maço de papéis que lhe veio às mãos. Eram fotografias. Algumas muito antigas, outras mais recentes. Em todas elas, Flamel aparecia ao lado de uma mulher. “Perrenelle”, pensou o repórter. E o mais impressionante, nunca um ano mais moço ou mais velho.
- Afinal o que você quer que eu faça? – perguntou o angustiado repórter.
- Não sei. Confio em você para fazer o melhor. Estou também lhe deixando o outro baú. Precisará de recursos para levar sua história adiante.
- E você?
- Vou morrer.
- Como assim? Não entendo.
- Perrenelle e eu decidimos que já era hora de deixarmos a vida seguir o seu curso. Há seis meses paramos de tomar o elixir. Agora vamos envelhecer como todas as pessoas normais.
- Elixir? Está falando do Elixir da Longa Vida?
- Sim. Como já lhe expliquei, o trabalho com a Grande Obra nos ofereceu vantagens materiais importantes. Contudo, estamos cansados de perambular. É difícil ver nossos amigos morrendo, enquanto nós, que já devíamos estar mortos há muito tempo, continuamos seguindo com a vida. Agora é a nossa vez.
O repórter se espantou com a alegria que percebeu nas palavras de Flamel. Ele, realmente, parecia feliz com a possibilidade de morrer. No entanto, como era um ser humano normal, o repórter precisou fazer uma última pergunta.
- E quanto ao Elixir? A forma de produzi-lo também se encontra dentro dessa caixa?
Flamel sorriu.
- Não, caro rapaz. O livro dourado e seus segredos estarão indo para o túmulo comigo. E acredite, meu jovem, estou lhe fazendo um favor; viver por muito tempo cansa. Bem, agora, está na hora de nos despedirmos. Espero que a história da minha vida tenha sido o que você esperava. E, principalmente, que você possa fazer bom uso dela.
Ele lhe estendeu a mão para um último cumprimento. O repórter, como um autômato, retribuiu o gesto sem perceber o que fazia. Quando se deu conta, estava sozinho no quarto. Como que saindo de um sonho, olhou para as duas caixas em cima da mesa. Uma repleta de barras de ouro e prata e a outra cheia de documentos que ele precisaria analisar com todo o cuidado.
O barulho de uma porta fechando o fez correr para a janela. Um carro saía do estacionamento. No volante, uma mulher. Não conseguiu ver o seu rosto, no entanto, ele sabia muito bem quem era.
“E agora?”, se perguntou. “Como fazer para não passar por maluco?”. Nos próximos dias, teria muito no que pensar. Pela primeira vez, naquela longa noite, estava absolutamente calmo. Virando-se para o interior do quarto começou a guardar as suas coisas. Lá fora um sol entre nuvens esforçava-se por aparecer.
FIM
Margarete Hülsendeger - Professora de Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. Autora da COLUNA QUEDA LIVRE, atualizada quinzenalmente aos domingos.
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Margarete
MUITO BOM! Parabéns! Teu texto está cada vez mais estruturado tecnicamente sem perder a sutileza.Desenvolve-se discretamente, insinua-se, despertando a curiosidade, o mistério e o enigma. bju Gilka