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categoria: QUEDA LIVRE

E TODAVIA SE MOVE

Na sala escura, duas figuras imponentes, uma vestida de vermelho e outra de negro, conversavam em voz baixa. Enquanto a de branco sentava-se em uma cadeira de espaldar alto, lembrando um trono, a de negro mantinha-se em pé, de cabeça baixa, em sinal de respeito e subserviência.
— Ele já foi interrogado?, perguntou o cardeal.
— Sim, excelência. — Respondeu com humildade o homem vestido com o hábito negro
— E?
— Ele nega. Alega haver escrito o livro com boa intenção.
— Isso não é suficiente. Ele precisa renunciar publicamente a esses escritos. Faça com que isso ocorra o mais rápido possível.
— E caso ele se mostre difícil, posso proceder conforme manda o rito?
Houve um momento de hesitação. Mas, ele passou rápido:
— Sim.
Ainda com a cabeça baixa, o homem de negro ajoelhou-se para beijar o anel na mão que lhe era estendida.

A sala não chegava a ser uma cela. Contudo, era igualmente sinistra. Havia apenas uma mesa, uma cadeira e um crucifixo de madeira pendurado na parede por detrás dessa mesma mesa. Há algum tempo, ele aguardava de pé. Sabia instintivamente que a cadeira não era para ele. Ele conhecia muito bem os métodos da Inquisição. Toda aquela encenação era uma manobra para intimidá-lo.
Até agora ninguém havia se dado ao trabalho de explicar o que estava acontecendo. Era um homem velho, temente a Deus, portanto, nada fizera com a intenção de ferir qualquer dos dogmas da igreja. Em seu livro apenas confirmara aquilo que Copérnico, há alguns anos, já havia demonstrado: o Sol estava fixo no firmamento enquanto a Terra girava em torno dele. Além disso, a publicação fora realizada com o aval das autoridades eclesiásticas. Por que agora os interrogatórios, as ameaças e essa quase prisão?
O ruído da porta se abrindo interrompeu seus pensamentos. O homem que acabara de entrar era o mesmo que já o havia interrogado antes. Sua postura deixava claro que um novo exame iria começar. Desta vez, no entanto, ele não vinha sozinho. Acompanhavam-no dois outros homens, também trajando o hábito negro. Eles carregavam uma grande caixa coberta com uma espécie de lona.
O inquisidor ocupou a única cadeira da sala. Os seus acompanhantes, cruzando os braços, postaram-se um pouco atrás dele, depositando antes a caixa sobre a mesa. O silêncio era absoluto. Nenhum deles tinha pressa em iniciar o interrogatório.
Quando a tensão dentro da sala tornou-se insuportável, o inquisidor fez um rápido sinal a um de seus companheiros. Sem dizer uma única palavra este se aproximou da caixa e começou a esvaziá-la. Os olhos do velho arregalaram-se de pavor. Sobre a mesa começaram a ser depositados os mais variados e absurdos instrumentos. Ele não sabia os seus nomes, mas compreendia perfeitamente bem para que serviriam. Sentiu o seu coração bater mais rápido, um suor frio e pegajoso inundou o seu corpo, suas pernas tremeram e sem conseguir se controlar caiu de joelhos em frente aqueles homens.
Num murmúrio ele perguntou:
- O que querem de mim?
A resposta não se fez esperar:
- A abjuração.

… eu, com sinceridade de coração e fé não fingida, abjuro, maldigo e detesto o mencionado erro e heresia, e em geral todo erro ou seita contrária à Santa Igreja; e juro que para o futuro não mais direi nem afirmarei, seja por palavras ou por escrito, nada que dê motivo a tal suspeita, mas, pelo contrário, se conhecer qualquer herege ou pessoa suspeita de heresia, denunciá-la-ei a este Santo Ofício ou ao Inquisidor e Bispo do lugar em que estiver.
O penitente estava de joelhos vestido apenas com uma simples bata de algodão. Na grande sala de audiências o silêncio da assembleia era completo. Os juízes esperavam o término da leitura. Todos estavam ali para servir de testemunhas. A humilhação tinha de ser completa. Nada menos do que isso podia ser aceito. Quando, finalmente, a leitura foi encerrada um a um os juízes foram-se retirando. Nenhum deles se dignou a lançar um único olhar ao penitente. Ele, no entanto, ainda permaneceu algum tempo de joelhos. Seus lábios se moviam sem fazer ruído fazendo todos pensar que estivesse rezando, pedindo perdão a Deus por seus pecados. Contudo, se prestassem atenção às palavras murmuradas se surpreenderiam. Ele não suplicava por perdão, mas repetia sem parar “E todavia se move!”.

Eu acima referido Galileu Galilei, abjurei, jurei prometi e comprometi-me como fica dito; e, em testemunho disso assinei com minha própria mão, este documento de minha retratação, que repeti palavra por palavra em Roma, no Convento de Minerva, neste dia de 22 de junho de 1633.
(2009 – Ano Internacional da Astronomia)

Margarete Hülsendeger - Professora de Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. Autora da COLUNA QUEDA LIVRE, atualizada quinzenalmente aos domingos.
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Comentários

2 comentários para “E TODAVIA SE MOVE”

  1. Margarete
    Cada vez gosto mais dos assuntos e dos personagens da Física. Isso se deve a forma como a traduzes para nós. Parabéns!!!! Quando vais escrever algo relacionado a Física Quântica?
    bju, Gilka

    Posted by Gilka | May 18, 2009, 7:29
  2. Muito bom.

    Posted by Rogério | May 27, 2009, 8:26

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