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categoria: QUEDA LIVRE

DUALIDADE

No início era apenas o Nada. De repente, lá estava eu, uma entidade híbrida: sem corpo, mas com substância. Como não me lembro do dia do meu nascimento, fico me perguntando se o Vazio não seria meu pai e a Existência a minha mãe? Não sei…

Muitos, ao longo dos séculos que separam o Nada da Eternidade, quiseram me desvendar. Alguns chegaram bem perto; outros, no entanto, moveram-se em círculos, criando a meu respeito histórias estranhas e extremamente imaginosas. Com algumas, até me diverti.

Houve, por exemplo, um rapaz grego que insistiu em querer descobrir como era o meu caminhar. Achando-se muito esperto, logo percebeu que eu andava em linha reta. Entretanto, apesar de toda a esperteza, seu interesse por mim não foi muito longe e a pergunta “o que sou?” ficou por ser respondida.

Enquanto isso, as pessoas comuns pouco refletiam sobre esses assuntos. Para elas, durante muito tempo, eu fui apenas aquela que separava o dia da noite. Se por algumas horas me ausentava, logo sentiam a minha falta e com fervor oravam para que eu retornasse o mais rápido possível. Não posso negar: tornei-me muito vaidosa. Afinal, saber-se o centro da atenção de tanta gente mexe com o ego de qualquer um!

No entanto, com o passar tempo, a necessidade de compreender a minha verdadeira essência, transformou-se, para alguns, em uma obsessão. Foi mais ou menos o que ocorreu com um outro rapaz chamado Snell. Ele observou que meu caminho podia ser facilmente desviado. Ao passar por diferentes regiões, mudo de direção, apesar de continuar andando em linha reta. Tão perspicaz ele foi que até criou uma equação para tentar me definir. Porém, a velha pergunta – o que sou? – ele também não conseguiu responder.

E quando eu menos esperava, algumas respostas começaram a surgir na tentativa de me explicar. Tímidas, é claro, mas respostas.

Um dos primeiros a conseguir tal façanha foi um jovem inglês muito introvertido. Isaac Newton era o seu nome. Ele chegou, sem dúvida nenhuma, muito perto de me entender, mas teve medo de seguir adiante. Considerou suas respostas revolucionárias demais para a época, e com receio que debochassem dele, preferiu calar. Deixou, para a posteridade, no entanto, o caminho aberto para o entendimento da minha natureza.

Posteridade. Palavra estranha. Eu confesso, não a entendo muito bem. Talvez minha incompreensão seja por não estar presa aos limites impostos pelo tempo e o espaço. Para mim, não há passado, presente ou futuro. Simplesmente existo. Sempre existi e sempre existirei. Posso, agora, estar aqui, mas também em outro lugar ao mesmo tempo. Sou o que sou. Porém, os homens não me vêem assim. Ingênuos, acreditam que me tornando objeto de seus estudos poderão me aprisionar.

Assim, o esforço em tentar-me entender continuou. Foram feitas muitas experiências e passos importantes foram dados. Contudo, os homens, tão acostumados a certezas – ao tudo e ao nada, ao preto e ao branco –, relutavam em aceitar aquilo que há algum tempo insistia em passar frente aos seus olhos. Várias vezes as respostas estiveram diante deles, mas sempre foram ignoradas e, em muitos momentos, ridicularizadas. Foi preciso que alguém corajoso elevasse a voz para obrigar todos a ouvirem. Esse alguém foi um moço chamado Einstein. Sem medo, ele finalmente demonstrou que minha natureza, na verdade, não era única.

Em mim estão contidas duas diferentes possibilidades, predominando por vezes uma, por vezes outra. Dual, portanto, é a minha essência. O homem é capaz de ver apenas uma ínfima parte de mim mesma. Posso me mover em linha reta, mas também contorno objetos e até sou curvada por eles. Ando tão rápido que minha velocidade é considerada o limite absoluto da velocidade em nosso Universo. Sou matéria, mas também energia.

Entretanto, o homem ainda não está satisfeito. Hoje, sua busca é outra. Agora, quer descobrir o dia em que eu passei a existir. Construiu uma grande máquina, um enorme anel de metal, pelo qual pretende chegar ao momento exato do meu nascimento. Não importa. Nada me importa. Os homens que continuem buscando respostas a suas infindáveis perguntas. De minha parte, sei que quando eles não mais existirem, ainda estarei aqui. Afinal, a Eternidade é o meu lar.

No princípio criou Deus os céus e a terra.
A terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo, mas o Espírito de Deus pairava sobre a face das águas.
Disse Deus: “Haja luz”. E houve luz.
(Livro do Gênesis)

Margarete Hülsendeger - Professora de Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. Autora da COLUNA QUEDA LIVRE, atualizada quinzenalmente aos domingos.
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Comentários

Um comentário para “DUALIDADE”

  1. Marga,
    os mistérios da criação, da vida, do tempo,da materia e da não-matéria vão sempre nos facinar. Soubeste muito bem “contar”,aqui, parte disto. Realmente esse campo do conhecimente é fantástico: “haja luz”!!!! Parabéns.
    bju Gilka

    Posted by Gilka | December 7, 2008, 14:28

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