// você está lendo...

categoria: QUEDA LIVRE

DOCTOR MIRABILLIS

“Eu, R.B., sou o autor”. Ao decifrar esta pequena frase, Miguel compreendeu que havia desvendado um grande mistério. Afinal, aquele manuscrito já passara por inúmeros especialistas, sem que nenhum deles conseguisse descobrir quem fora o seu autor.

 

Da gaveta onde tinha guardado o seu caderno de anotações, retirou uma série de papéis. Eles eram o resultado de suas pesquisas sobre a biografia do autor do manuscrito. Não fora fácil encontrar informações confiáveis: afinal, ele vivera há mais de oito séculos. Muito havia se perdido e o que existia estava sujeito a todo o tipo de especulação. As opiniões estavam divididas. Alguns o viam como um grande mago e ocultista. Outros como um cientista experimental, totalmente deslocado de seu tempo. Sem contar, é claro, aqueles que até duvidavam da sua existência. Enfim, para alguém que vivera há tanto tempo, ele ainda suscitava muita discussão e polêmica.

 

Miguel não era um acadêmico, portanto, estava fora desses debates que, segundo ele, não levavam a lugar algum. Seu interesse era motivado pelo simples prazer da descoberta. Desvendar esse mistério, que por tantos anos havia atormentado seus colegas antiquários e renomados historiadores, só o motivara a ir atrás de mais informações. E o que até agora tinha descoberto era surpreendente.

 

Os símbolos alquímicos que enchiam as páginas do livro indicavam, por exemplo, a importância dada pelo autor à Alquimia. E ali não se via nada sequer parecido com o que se imputava aos antigos alquimistas, como a receita para o elixir da longa vida ou a fórmula da transmutação de chumbo em ouro. Na verdade, suas anotações demonstravam seu interesse em descobrir novas substâncias e as suas aplicações na metalurgia. E em meio a esses símbolos, muitas figuras que nada mais eram do que alegorias para disfarçar ideias mais profundas e até mesmo revolucionárias.

 

Folheando com cuidado as páginas antigas, Miguel conseguiu identificar outros elementos importantes da filosofia defendida pelo autor. O estudo do comportamento da luz estava muito presente em todas as páginas do manuscrito. Ele se esforçava em explicar os fenômenos naturais, utilizando os princípios da ótica. Combinou dados experimentais, obtidos a partir de experimentos criados e executados por ele, com a ideia de que a luz explicaria não só a criação do mundo, mas a própria existência de Deus. Havia, por exemplo, várias gravuras representando espelhos, lentes, arco-íris, os eclipses do Sol e a mais surpreendente de todas: a representação quase perfeita do olho humano. Tudo desenhado com capricho e repleto de detalhes.

 

Miguel esfregou os olhos. Sentia-se cansado. Olhando para o relógio em cima de sua mesa, surpreendeu-se ao constatar que já se encontrava há mais de quatro horas envolvido na análise do manuscrito. A manhã já se passara e ele ainda tinha almoçado. Levantando-se da cadeira, andou um pouco pela loja para descontrair os músculos doloridos. Não estava com fome. Nervoso, sabia que não o deixariam ficar com o livro por muito tempo. Quem o tinha adquirido não estava interessado em seu conteúdo, mas no valor que ele viesse a atingir no mercado de antiguidades. Conhecer o nome do autor só o tornara mais valioso. Voltando-se andou novamente em direção a mesa. Comeria mais tarde, agora precisava aproveitar o tempo que dispunha para seguir estudando o texto a sua frente.

 

Relendo algumas das passagens já traduzidas, Miguel observou que, apesar do autor ter sido um homem da Idade Média, sua mentalidade era, sem dúvida nenhuma, moderna. No entanto, algo o distinguia dos cientistas atuais. Ele acreditava na existência de dois tipos de experiência: a externa e a interna.

 

O primeiro tipo seria algo muito próximo do atual experimento científico. Ao fazer uso de lentes e espelhos, procurando formular os princípios da refração e da reflexão da luz, se tornou um precursor da ciência moderna. Não foi por acaso que acabou recebendo o apelido de Doctor Mirabillis. Foram realizações admiráveis quando se leva em consideração a época em que elas ocorreram, em pleno século XIII.

 

Por outro lado, o que ele chamava de experiência interna era um processo mais profundo, de natureza psicológica e espiritual, razão pela qual muitos historiadores o rotularam de ocultista e até mesmo de mago. Contudo, Miguel não se sentia à vontade com esse ou qualquer outro rótulo. Na verdade, para ele, esse homem estava além de qualquer definição. Uma coisa, entretanto, era certa: se os cientistas atuais se guiassem pela ética desenvolvida por ele, muitos dos problemas do mau uso da ciência teriam sido evitados. Enfim, não havia como ignorar: esse era um homem muito à frente do seu tempo.

 

Miguel estava tão absorvido na leitura do texto que demorou em ouvir o telefone tocando. Ficou na dúvida se devia atender. Sabia quem era. Ele não havia tido paciência de aguardar seu prometido retorno. Com relutância, largou a caneta e estendeu a mão para o telefone. A voz do outro lado não lhe deu tempo para se explicar. Autoritária, exigia uma resposta, afinal, ele estava pagando e tempo no seu negócio era ouro. Miguel, nervoso, argumentou estar na fase final da sua análise do texto e que em breve teria uma resposta. O homem não estava com muita paciência, mas aceitou a sua explicação. Intuiu que Miguel encontrava-se muito próximo de lhe apresentar os resultados que tanto desejava. Dando-lhe um prazo máximo de quarenta e oito horas, desligou o telefone com violência, sem sequer se despedir.

 

Miguel suspirou aliviado. Tinha mais quarenta e oito horas. Não era o tempo ideal, mas era o tempo suficiente para fazer o que precisava ser feito. Não ia permitir que uma obra desse nível fosse parar nas mãos de pessoas que não pudessem lhe dar o devido valor. Devolveria o dinheiro com o qual fora pago e levaria o manuscrito para um local seguro. Doctor Mirabillis seria revelado ao mundo, mas da maneira correta. Ele, Miguel, o antiquário, se encarregaria disso.

 

Embalando o livro com cuidado, pegou suas anotações, seu laptop e esvaziou a gaveta. Quando viessem procurá-lo, nada encontrariam. De repente, uma grande tristeza o dominou. Não veria por um longo tempo a sua querida loja. No entanto, esse era um preço pequeno a pagar, afinal estava protegendo algo que ele considerava um patrimônio da humanidade. Deixou-se ficar na entrada da loja, gravando em sua mente as imagens e o odor daquele que sempre fora o seu santuário. Resignado, saiu, sem esquecer de desligar a luz e trancar a porta. Na rua a chuva continuava caindo, mas Miguel, apertando o pacote contra o corpo, nada percebia.

 

Podem ser feitos instrumentos para navegar… de tal modo que grandíssimos navios fluviais e marítimos sejam conduzidos por um único piloto, com mais velocidade do que se estivessem cheios de remadores. Pode-se também fazer carros que se movam sem animais, com incalculável ímpeto… Pode-se também construir instrumentos para voar, tais que o homem, sentado no centro do mecanismo e movendo algum instrumento, faça com que asas artificialmente compostas percutam o ar, ao modo de um pássaro que voa… Podem vir a ser feitos também instrumentos para caminhar no mar e nos rios até o fundo, sem perigo corporal E infinitas outras coisas podem vir a ser feitas, como pontes sobre rios sem colunas ou outros apoios

 

(Roger Bacon – Doctor Mirabillis, Filósofo e cientista)

 

Margarete Hülsendeger - Professora de Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. Autora da COLUNA QUEDA LIVRE, atualizada quinzenalmente aos domingos.
Mande um mail para o autor | Todos os artigos de Margarete Hülsendeger

Comentários

Sem comentários para “DOCTOR MIRABILLIS”

Deixe um comentário