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categoria: QUEDA LIVRE

DIÁLOGO SOBRE A INCERTEZA

Você nunca vai conseguir me fazer sentir mais tolo do que me vejo com meus próprios olhos.

Niels Bohr

 

— Incerteza? Complementaridade? Você só pode estar brincando — dizia o homem de cabelos revoltos, gesticulando de maneira furiosa.

Sentado, com suas longas pernas cruzadas, Niels aguardava que os ânimos serenassem para que a discussão pudesse prosseguir. Apesar de já estarem discutindo há algum tempo, o outro se recusava a aceitar seus argumentos.

— Então, é esse o seu universo? Um amontoado de eventos aleatórios, dependentes de um observador oculto e, quem sabe, diabólico? — provocou o homem furioso.

 

Com um suspiro ele percebeu que não podia continuar calado. Seu velho e nervoso amigo estava se excedendo.

— Você sabe muito bem que não é nada disso — replicou, esforçando-se para manter a voz tranquila. — O que estou tentando explicar é que as medidas não podem mais ser consideradas absolutas. Elas são influenciadas pelo observador. Em outras palavras, todo o fenômeno observado é essencialmente diferente do não observado. Apenas isso.

— Apenas isso?! — gritou o homem, agitando ainda mais sua cabeleira desgrenhada. — Que tipo de Física é essa? Me nego a aceitar semelhante disparate. Se isso é verdade, e tenho certeza de que não é, prefiro ser um sapateiro ou um empregado em uma casa de jogos em vez de ser físico — declarou, para depois se sentar e acender, com gestos nervosos, o seu cachimbo.

 

Niels controlou-se para não rir. Seu amigo estava se comportando como uma criança birrenta. O estranho é que fora ele quem começara toda essa história. Será que ele havia esquecido a sua participação no surgimento dessa “nova Física”. Como, agora, entender essa sua posição intransigente?

Com um gesto tranqüilizador, inclinou-se na poltrona e, dando um tapinha na perna do amigo, disse:

— Você não entende que estamos lidando com um universo onde o senso comum não tem validade? Esqueça suas ideias preconcebidas e a abra a sua mente. Estamos diante de algo totalmente novo. As descrições ondulatória e corpuscular das partículas elementares não podem mais ser consideradas opostas. Ambas, na verdade, são descrições necessárias exatamente por serem complementares — argumentou, procurando acalmar o amigo que, ensimesmado, continuava fumando nervosamente o seu cachimbo.

 

Os dois, cada qual em sua poltrona naquela sala aconchegante, encaravam-se como se fossem dois gladiadores. Era como se estivessem em planetas diferentes. Enquanto um se apegava a um conhecimento estabelecido e a um universo determinista, o outro estava disposto a inaugurar um novo campo do saber, nem que para isso tivesse de criar uma nova linguagem. Contudo, os dois sabiam que o objetivo de suas vidas era o mesmo: a busca pela verdade.

 

Por esse motivo, Niels não podia permitir que a discussão terminasse daquele modo. Era preciso encontrar um ponto de convergência. Algo que permitisse ao outro ver o que ele, já há algum tempo, aceitava como uma realidade possível. Assim, respirando fundo, fez uma nova tentativa:

— Albert, você tem de concordar que, por mais absurdas que essas ideias pareçam, elas funcionam. Melhor: elas explicam. E não é isso que queremos como o nosso trabalho, explicar?

 

Silêncio. Era difícil para Albert aceitar essa nova realidade. Ela ofendia profundamente a sua visão de um universo determinista e causal. Olhando firme para o homem que estava a sua frente, resolveu colocar em palavras aquilo que o estava perturbando:

— Bohr, não pense por um minuto que eu não considere essa nova Física impressionante. Seria ridículo da minha parte não reconhecer que a teoria tem produzido bons resultados. No entanto, uma voz interior me diz que ainda não se trata da verdade. — Parando um instante para esvaziar o seu cachimbo, prosseguiu com a sua argumentação. — Tenho certeza de que essa Mecânica Quântica ainda está incompleta, numa espécie de fase infantil do seu desenvolvimento. Talvez, quando chegar a sua maturidade, ela possa ser aperfeiçoada, passando a descrever a natureza de modo mais aprimorado, livre desse caráter probabilístico que vocês insistem em impor a ela.

 

Novo silêncio se seguiu às palavras de Albert. Niels, que não tinha por hábito desistir de uma boa discussão, foi obrigado a aceitar que o seu velho amigo ainda não estava preparado para compreender. Pelo menos não naquele momento. No entanto, entendia o dilema ali presente. Eles não estavam apenas debatendo a validade de uma teoria. Na verdade, eles discutiam a própria natureza do universo e a sua capacidade de descrevê-lo. Alguns deles – incluindo seu amigo e colega – talvez precisassem de mais tempo para absorver esses novos e revolucionários conceitos.

 

A esposa de Bohr foi encontrá-los, um pouco mais tarde, fumando em silêncio os seus respectivos cachimbos, enquanto olhavam distraídos os anéis de fumaça que se formavam acima de suas cabeças. Como o jantar já estava para ser servido, ela não hesitou em interromper os seus devaneios.

— Niels, querido, o jantar está pronto. Você e o Sr. Einstein podem passar para a sala de refeições que ele será servido em seguida.

 

Arrancados das suas elucubrações, os dois homens se olharam e sorriram. Teriam de deixar o seu debate para depois. Afinal, no universo controlado pela esposa de Niels Bohr a probabilidade de não estarem presentes ao jantar em família era praticamente zero.

 

Margarete Hülsendeger - Professora de Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. Autora da COLUNA QUEDA LIVRE, atualizada quinzenalmente aos domingos.
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