Eu estava dormindo e me acordaram
E me encontrei, assim, num mundo estranho e louco…
E quando eu começava a compreendê-lo
Um pouco,
Já eram horas de dormir de novo!
Mário Quintana
Campo de flores? Não! Campo de futebol? Também não! Há dias tentava escrever uma história cuja personagem principal fosse essa pequena palavra: C-A-M-P-O. E até agora, não havia conseguido produzir nada. Pelo menos nada espetacular, nada nem mesmo original. C-A-M-P-O. Algo tão simples, mas, ao mesmo tempo tão, tão complexo.
Foi quando percebi que a responsável pela minha paralisia mental era justamente a complexidade do significado dessa expressão, C-A-M-P-O. Criar uma história sobre algo que poucos conseguem entender estava me deixando sem palavras, até mesmo os pensamentos pareciam escapar. C-A-M-P-O. Como fugir desse labirinto de ideias mal construídas transformou-se em meu mais novo desafio. Lembrei, então, de um personagem da história, um inglês do século XIV, chamado Occam.
Occam – também conhecido pelo nome de Doutor Invencível – era um frade franciscano, logo, alguém acostumado a lidar com conceitos que não estavam ao alcance da maioria das pessoas. E foi esse hermetismo, defendido pela Igreja da qual era membro, que o levou a questionar e atacar a maior autoridade dessa instituição: o Papa. Para Occam, nada podia se interpor entre o homem e o livre arbítrio, pois qualquer pessoa, não importa sua condição social, era capaz de escolher entre o certo e o errado sem nenhuma intervenção exterior.
A identificação foi imediata. Occam, assim como eu, deve ter sofrido a angústia de não conseguir expor de forma clara e convincente conceitos de grande complexidade. Ele também deve ter acreditado que palavras complicadas, explicações longas e, muitas vezes, sem sentido, seriam a melhor maneira de resolver problemas difíceis, dando-lhes a devida credibilidade. Enfim, Occam, assim como todos os que se veem uma vez que outra diante do desconhecido, buscava a solução mais complexa. No entanto, Occam não entrou para a história porque seguiu agindo como todos os que o antecederam. Em algum momento, deve ter percebido que essa estratégia não o levaria a lugar algum. E foi nesse instante de revelação que ele se tornou o responsável pelo nascimento de uma ideia absolutamente inovadora:
“Se em tudo o mais forem idênticas as várias explicações de um fenômeno, a mais simples é a melhor”, passou a defender Occam.
Brilhantemente simples!
A simplicidade tornou-se, portanto, a qualidade mais proeminente do princípio filosófico que ele defendia. Segundo Occam, quanto mais complicada fosse uma ideia, mais chances ela tinha de estar errada. Afinal, a natureza é econômica e não se multiplica inutilmente. E mesmo que nem sempre a simplicidade leve à perfeição, é possível perceber, quando olhamos a nossa volta, que a perfeição é quase sempre simples.
Assim, voltamos à palavra C-A-M-P-O. Quem sabe a forma tradicional de começar uma história fosse, não só a melhor, mas a mais simples.
Era uma vez um C-A-M-P-O…
Um lugar que ninguém pode ver. Um lugar no qual todos vivem e morrem pelo menos uma vez. Um lugar sem forma, sem cor, sem gosto, sem nada, mas contendo nele tudo. Um lugar que pode ser ao mesmo tempo real e imaginário. Nele convivem, na mais perfeita harmonia, princesas e dragões, maçãs e foguetes, estrelas e planetas. C-A-M-P-O. Como tem uma natureza múltipla, pode atrair e repelir, e quanto mais próximos estamos dele, mais forte o sentimos. Para quem está de fora – se isso é possível – tem a aparência de uma rede e nós somos os peixes. Uma entidade física que, junto com o tempo, constitui um continuum. Enfim, tudo e todos fazem parte de um C-A-M-P-O. Até mesmo essa história.
“Que história?”, você deve estar se perguntando. Afinal, até agora tenho andado em círculos, sem, aparentemente, sair do lugar. E a estranheza é justamente essa: quando se trata do C-A-M-P-O não se tem de chegar a nenhum lugar, pois já estamos nele. E quanto a Occam? Bem, a essa hora ele deve estar se revirando no túmulo, pois mesmo a perfeição sendo simples, isso não significa que ela seja fácil de entender ou de explicar.
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Navalha de Occam é um princípio filosófico criado pelo frade franciscano William of Ockham (1285-1349). “Pluralitas non est ponenda sine neccesitate” ou “Pluralidade não deve ser colocada sem necessidade.” É considerado por alguns estudiosos como o último dos pensadores medievais, enquanto outros, o veem como o primeiro dos pensadores modernos. De qualquer maneira, Occam é um dos responsáveis por marcar a virada do pensamento escolástico medieval em direção ao pensamento científico moderno. Devido as suas ideias, contrárias às da Igreja Católica, foi excomungado pelo Papa João XXII.
Margarete Hülsendeger - Professora de Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. É autora da obra E TODAVIA SE MOVE
(E POR SI MUOVE), editada em 2011 pela Edipucrs. Assina a COLUNA QUEDA LIVRE, atualizada quinzenalmente.
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Muito interessante, gostei desse campo… bjus, Gilka Coimbra
Lendo tua história lembrei de outra que depois te conto…De Marcel Duchamp e Maria Martins, dois artistas, dois mundos, uma paixão! Bjus.
AHH! Adorei essse CAMPO! Me lembrou a Vida, nela também se anda em círculos com a pretensão de se chegar a algum lugar. Não?
bjs