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categoria: ESPECIAL ISAAC NEWTON

AS ORIGENS DOS PRINCIPIA – PARTE III

- Quem é o senhor? E quem lhe deu permissão para invadir essa sala? – perguntou, furioso, um homem que Halley logo reconheceu como sendo o matemático que procurava.

- Desculpe, mas ao chegar não encontrei ninguém e como vi a porta aberta resolvi entrar. Meu nome é Edmond Halley e tenho, se não estou enganado, um encontro marcado com o senhor.

 

A fisionomia do homem se suavizou um pouco. Entrou na sala sem se preocupar com cumprimentos ou cortesias. Halley não sabia se ele simplesmente estava ignorando as boas maneiras ou se achava que não era preciso se mostrar educado. De qualquer modo, depois de se convencer que tudo estava exatamente como havia deixado, é que ele decidiu se apresentar:

- Muito bem. Seja, então, bem vindo ao meu laboratório, Sr. Halley. Meu nome é Isaac Newton.

 

A satisfação de Halley por ver seu anfitrião de tão bom humor foi imensa. Se conseguisse jogar suas cartas direito, tinha certeza que sairia dali com a aposta ganha. Contudo, não estava preparado para ouvir a pergunta que lhe foi feita de modo brusco:

- Sr. Halley, o senhor se interessa por teologia?

Nervoso, Halley pensou um pouco sobre que resposta deveria dar.

- Bem, senhor, como astrônomo, não posso me furtar à ideia de que exista por detrás de tudo o que conhecemos uma força divina que se manifesta a todo o instante. No entanto, preciso confessar: não sou um estudioso do assunto.

 

Enquanto Halley falava, Newton acomodou-se em uma poltrona que miraculosamente não estava ocupada por qualquer um dos materiais que entulhavam a sala. Entretanto, não fez nenhum gesto para que seu convidado também se sentasse. Halley, ignorando a descortesia, tratou de encontrar um espaço para sentar, pois percebeu que aquela conversa iria longe.

 

- Então, o senhor acredita em Deus? – voltou Newton a perguntar.

- Sim – mentiu Halley, poismuito tempo considerava todas essas crenças, divulgadas pela maioria das igrejas, como bobagens criadas para e por mentes infantis.

- O senhor leu a Bíblia? – insistiu Newton.

- Algumas passagens. Mas como lhe disse, não sou um estudioso do tema.

Halley estava tentando se manter calmo. Não compreendia o objetivo do interrogatório, mas como precisava conquistar a confiança daquele homem, responderia as suas perguntas até o fim e se fosse preciso mentir, mentiria sem vergonha alguma.

- Fico feliz, em ouvir que o senhor se interessa pela Bíblia – respondeu NewtonEsse é um livro maravilhoso, mas, infelizmente, muito mal compreendido. Meus estudos me fazem acreditar que ela está escrita em código, código esse que poderá ser quebrado se conseguirmos decifrá-la à maneira dos textos de tradição hermética. O que o senhor acha disso? – perguntou Newton.

 

Halley sentia-se preso a uma armadilha. Será que aquilo tudo era alguma espécie de teste?

- Bem… – começou, cautelosamente, a responder – os antigos, com certeza, eram donos de uma sabedoria que nós não conhecemos. Se conseguirmos chegar a essas fontes, talvez possamos compreender melhor o conjunto de verdades que existem não apenas sobre Deus e suas relações com o mundo que Ele criou, mas também sobre o próprio mundo.

 

De imediato Halley percebeu que havia dito a coisa certa. A expressão de Newton era de total satisfação. Ele passou a vê-lo como alguém que compartilhava dos mesmos ideais e, portanto, digno da sua confiança.

- Muito bem, Sr. Halley, parece que temos muitas coisas em comum. Contudo, acredito que o senhor não veio até aqui para discutir teologia. Qual é, então, o propósito da sua visita?

 

Finalmente!”, pensou Halley satisfeito. Agora poderia colocar a questão que, naquele momento, era a mais crucial de sua vida.

- Sr. Newton, o senhor deve saber o quanto tem custado aos filósofos naturais entender as leis que dão origem às órbitas elípticas. Os debates têm sido acirrados, mas até agora, pela falta de uma formulação matemática consistente, não há uma resposta para essas questões. – Respirando fundo, Halley preparou-se para a cartada final. – Foi-me dito que não há na Inglaterra, e quiçá na Europa, homem melhor preparado para esclarecer essa dúvida. E esse foi, justamente, o assunto que me fez solicitar esse encontro com o senhor.

 

Newton se manteve silencioso, chegando, inclusive, a fechar os olhos. Halley temeu que tivesse perdido o seu tempo. Será que aquele homem, com ideias tão estranhas, teria a resposta que ele tanto necessitava? Qual não foi, então, a sua surpresa quando, depois de alguns minutos, Newton simplesmente respondeu:

- Sim, me interroguei sobre esse assuntoalguns anos. Acredito também que exista uma força dirigida para o Sol e inversamente proporcional ao quadrado da distância. Inclusive, fiz a demonstração matemática dessa teoria.

 

Halley estava estupefato. A teoria mais importante e mais discutida por todos os astrônomos e filósofos naturais da Inglaterra e Europa e esse homem afirmava ter pensado sobre o assunto e que até tinha a demonstração pronta? Incrível!

- E o senhor pode fornecê-la? Prometo que seu trabalho será divulgado e seu nome conhecido por todos. – disse Halley, torcendo para não estar diante de um louco com manias de grandeza.

 

Levantando-se da poltrona, Newton caminhou pela sala como se tivesse esquecido da presença de seu convidado. A espera estava praticamente matando Halley de ansiedade. “Meu Deus! O que será que ele está esperando?”, pensou.

Virando-se, Newton finalmente, respondeu:

- Não sei onde ela está. Acredito que devo tê-la guardado em alguma gaveta. Mas, me comprometo de enviá-la ao senhor assim que a encontrar. – E com essa frase deu por encerrada a entrevista.

 

Quando o perplexo Halley saiu do laboratório, não acreditava o que havia ocorrido. “Esse homem, simplesmente, não pode ser normal!”, pensava. A última imagem que ficou daquele dia foi a de Newton debruçado sobre a sua mesa de trabalho lendo, quem sabe pela milésima vez, os textos que, segundo ele, poderiam esclarecer os mistérios do universo.

 

******

 

Essa entrevista ocorreu em agosto de 1684. Exatamente três meses depois, em novembro, Newton enviou a Halley um pequeno manuscrito, intitulado De motu, no qual ele respondia não a questão levantada por Wren como também lançava as bases para a obra que subverteria a ciência da época. O livro completo levou três anos para ser concluído e foi chamado de Principia. Com ele, Newton entrou para o panteão dos grandes heróis da Ciência, fato enaltecido por Halley quando, na introdução dessa monumental obra, escreveu: “nenhum outro mortal foi capaz de se aproximar tanto de Deus”.

 

Será que é preciso dizer quem ganhou a aposta?

 

FIM

Margarete Hülsendeger - Professora de Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. Autora da COLUNA QUEDA LIVRE, atualizada quinzenalmente aos domingos.
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Comentários

2 comentários para “AS ORIGENS DOS PRINCIPIA – PARTE III”

  1. Muito Bom!!!!
    Com certeza virão outros. Aguardarei ansiosa. bju, Gilka

    Posted by GilkaCoimbra | June 28, 2010, 19:24
  2. Muito legal essas postagens do “Principia”. Eu achei muito interessante. Na verdade as tuas postagens são as mais interessantes, pena que são quinzenalmente, quando passa uma semana eu fico muito ansioso para que chegue logo o “santo” domingo das postagens. Adoro essa coluna.

    Posted by João Ilha | June 28, 2010, 20:04

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