Nervoso, Halley viu a carruagem aproximar-se do edifício do Trinity College, em Cambridge. Era ali que esse homem, além de ocupar a cadeira lucasiana de Matemática, mantinha seu laboratório; e se os boatos estavam corretos, lugar no qual ele permanecia a maior parte do seu tempo. Quando a carruagem finalmente parou, Halley percebeu que estava prestes a dar um passo importante em sua vida.
Apesar de ter sido a motivação inicial, a aposta e, consequentemente, o prêmio, agora ficara em segundo plano. Naquele momento, sua atenção estava concentrada em encontrar as respostas para as causas mais profundas que estruturavam o mundo, aquelas que punham em movimento a Lua e os planetas. Portanto, com a certeza de ter vindo ao lugar certo, Halley preparou-se para o encontro.
Para sua surpresa, ao descer da carruagem não encontrou ninguém a sua espera. Viu nisso um sinal de má sorte. Contudo, em seguida lembrou que era domingo e, portanto, professores e alunos estariam descansando em qualquer outro lugar e não naquele edifício antigo e sombrio. Assim, sem perder as esperanças, entrou no prédio para procurar o seu anfitrião.
Não foi preciso procurar muito, bastou seguir os ruídos que vinham de uma sala no fundo do corredor principal. A porta estava entreaberta. Halley bateu e aguardou. Como ninguém respondesse, ele decidiu que era melhor esperar dentro da sala a chegada do matemático. Quando acostumou os olhos à penumbra que ali existia – a maioria das cortinas estava fechada –, pode ver melhor o ambiente de trabalho que tinha à sua frente.
Perto de uma das janelas havia sido construído um forno que, naquele momento, encontrava-se aceso. O barulho que tinha ouvido no corredor vinha dali, pois em cima dele, em um grande recipiente de metal, uma substância esverdeada estava fervendo. Sentiu no ar um cheiro desagradável, que logo reconheceu como sendo enxofre. Na mesa de trabalho e no chão, papéis e mais papéis, assim como livros dos mais variados aspectos e tamanhos, encontravam-se espalhados numa confusão difícil de entender. “Estranho”, pensou, Halley. Segundo seus colegas, esse matemático era conhecido por ser extremamente meticuloso e organizado. Nas poucas reuniões da sociedade às quais se dignava a comparecer, era sempre muito exigente com a pauta e com todos os tramites burocráticos. Qualquer palavra ou comentário fora do contexto era motivo suficiente para que ele pedisse – não, exigisse – a reformulação de documentos e até de decisões. Como agora entender o caos no interior daquela sala?
Resolveu, então, examinar alguns dos papéis e livros que estavam espalhados pela mesa. Outro susto. Entre os livros, encontrou títulos tão ecléticos que teve dificuldade em entender qual seria o interesse intelectual daquele homem. Ali estavam obras de tradição alquímica, como as de Michael Maier, Michael Sendivogius, Lazarus Zetzner, Elias Ashmole e George Starkey; além de diferentes versões da Bíblia, com várias passagens dos livros de Daniel e do Apocalipse sublinhadas e riscadas. Halley sentiu-se bastante confuso e até mesmo um pouco inseguro. Quem seria, afinal, o homem que vinha procurar? Um filósofo natural ou um alquimista? Ou estaria tratando com um teólogo? Será que seus colegas de sociedade conheciam essa faceta da sua personalidade?
Afastando os livros, pegou uma das folhas sobre a mesa. Eram transcrições de alguns das obras que estavam espalhadas pela sala. Havia várias delas, como se o autor precisasse traduzi-las diversas vezes para ter certeza de que estava entendendo bem a mensagem ali escrita. Também encontrou outros papéis, mas desses não conseguiu compreender absolutamente nada, pois estavam escritos em uma linguagem cifrada, uma espécie de código.
Largando as folhas de papel, voltou a olhar para a sala e pela primeira vez entendeu o que ali via. Não estava no laboratório de um filosofo natural qualquer, aquela nem mesmo era a sala de um professor de Matemática. Na verdade, ele estava olhando para o laboratório de um seguidor das antigas tradições. É claro que aquilo tudo podia ser interpretado apenas como a excentricidade de um gênio. No entanto, aquele material o fazia acreditar que não se tratava apenas de um passatempo, mas da ocupação principal daquele homem.
De qualquer maneira, suas fontes não haviam deixado dúvidas, o matemático que estava prestes a encontrar era alguém com aptidões extraordinárias. Segundo os boatos, ele possuía um método poderoso para resolver os problemas mais complexos sobre as curvas, mas a natureza desse método ele a mantinha em segredo. E agora Halley começava a entender melhor os motivos que o levavam a não desejar se expor. Se ele era realmente um seguidor das tradições alquímicas, o que esses homens mais prezavam era o silêncio sobre suas descobertas.
No entanto, nada disso interessava a Halley. Tudo bem estudar os clássicos, como os textos de Lucrécio ou de Arquimedes, mas Alquimia? Esse não era, definitivamente, um conhecimento que ele gostaria de buscar. Contudo, pelo que aquele laboratório deixava transparecer, o homem com o qual havia marcado o encontro tinha outros interesses que não estavam relacionados diretamente com a Filosofia Natural ou a Matemática. Teria, então, de saber lidar com isso para não se indispor com a única pessoa que poderia ajudá-lo a encontrar as respostas que procurava.
Halley estava tão imerso em seus pensamentos que não percebeu a porta se abrindo. E foi com um grande susto que ouviu uma voz atrás dele:
- Quem é o senhor? E quem lhe deu permissão para invadir essa sala? – perguntou furioso um homem que Halley logo reconheceu como sendo o matemático que procurava.
- Desculpe, mas ao chegar não encontrei ninguém e como vi a porta aberta resolvi entrar. Meu nome é Edmond Halley e tenho, se não estou enganado, um encontro marcado com o senhor.
A fisionomia do homem se suavizou um pouco. Entrou na sala sem se preocupar com cumprimentos ou cortesias. Halley não sabia se ele simplesmente estava ignorando as boas maneiras ou se achava que não era preciso se mostrar educado. De qualquer modo, só depois de se convencer que tudo estava exatamente como havia deixado, foi que ele decidiu se apresentar:
- Muito bem. Seja, então, bem vindo ao meu laboratório, Sr. Halley. Meu nome é Isaac Newton.
Continua…
Margarete Hülsendeger - Professora de Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. Autora da COLUNA QUEDA LIVRE, atualizada quinzenalmente aos domingos.
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Muito bom! Gostei imensamente e quero ler a continuação. Os detalhes dos personagens e ambientes estão perfeitos.
Cada vez melhor, melhor e melhor!!!!
bju Gilka