Eu me lembro muito bem daquele dia. Era apenas um rapaz, mas os acontecimentos ficaram, para sempre, marcados na minha memória. Meu pai conseguira-me trabalho no palácio do Doge de Veneza. Segundo ele, lá teria comida, aliviando-o do fardo de ter mais uma boca para alimentar, e um teto sobre a minha cabeça.
O castelo era um lugar muito movimentado, sempre repleto de pessoas, usufruindo da boa vontade do Doge. Eram principalmente sábios, com roupas puídas, mas com falas eloquentes, tentando aparentar uma importância que, na verdade, não tinham. Esperem… Estou divagando. É a idade. São tantas as lembranças que se torna muito fácil misturá-las, fazendo delas um bolo irreconhecível. Vamos voltar à nossa história.
Era, então, uma tarde muito bonita e, como sempre, o palácio estava cheio de gente entrando e saindo em busca de favores. Aquele dia em especial fora dedicado aos que procuravam algum tipo de apoio para as suas atividades. Havia poetas, escultores, pintores e inventores das mais variadas geringonças. Eram homens adultos, mas comportavam-se como crianças, competindo entre si pela atenção do meu senhor.
Naquele dia, no entanto, o rebuliço era ainda maior. Um dos apadrinhados prometera trazer uma máquina que permitiria observar as estrelas como se elas estivessem ao alcance de nossas mãos. Confesso, demorei-me no salão – além do que me permitiam as minhas funções –, pois não conseguia dominar a curiosidade. Desejava ver com meus próprios olhos aquele prodigioso artefato. Imaginem! Observar as estrelas! Poder quase tocá-las! Não havia como resistir a tal promessa.
Muitos comentavam que aquilo só poderia ser algum tipo de fantasia criada pela imaginação de um certo filósofo natural chamado Galileu Galilei. Ele já havia demonstrado várias vezes que gostava de aparecer. Entretanto, até que ponto suas observações possuíam conteúdo filosófico? Era o que eles, entre sussurros, discutiam. De minha parte, apesar de ser muito jovem, logo percebi que o problema era apenas um: inveja. O tal Galileu era um dos preferidos do Doge. E ser o favorito significava patrocínio que, por sua vez, significava dinheiro e, portanto, segurança, pelo menos, até o próximo preferido ser eleito. Desculpem, de novo me deixei distrair. Vamos continuar.
Pois bem, lá estava eu, curioso para ver o tal aparelho. Pelo meio da tarde, um pouco antes da hora marcada para audiência, o senhor Galileu chegou. Acompanhava-o um rapaz, mais ou menos da minha idade naquela época, carregando um embrulho enorme. Devia estar pesado, pois ele suava no esforço de sustentá-lo. Todos no salão pararam de conversar. Em torno do filósofo e de seu assistente criou-se uma grande expectativa, o que aumentou ainda mais o nervosismo dos presentes.
Com um sinal, Galileu ordenou que o rapaz colocasse o embrulho no chão, mas não permitiu que ele fosse aberto. Permaneceu ali parado e em silêncio, aguardando. Não se dignou a lançar um único olhar a qualquer um dos presentes. Parecia saber que, até aquele momento, havia sido alvo da intriga de toda aquela gente. Não precisou esperar muito. Alguns minutos depois, o Doge anunciou a sua presença no salão.
De um silêncio de túmulo passou-se a um barulho ensurdecedor de vozes querendo falar todas juntas. Sua Excelência, com um único gesto, fez todos se calarem e, dirigindo-se a Galileu, pediu-lhe que mostrasse seu aparelho de observar as estrelas.
Como se estivesse encenando uma peça teatral, o próprio Galileu pôs-se a desfazer o pacote onde estava escondida a tal máquina. Era uma coisa muito esquisita. Consistia, basicamente, de um grande tubo de metal no qual estavam adaptadas lentes de vidro em cada extremidade. O dispositivo permanecia em pé por meio de duas hastes metálicas. Fiquei um pouco decepcionado, estava esperando algo mais grandioso. Como é que aquele negócio estranho poderia permitir que víssemos as estrelas no céu? Era o que eu me perguntava. Silenciosamente, me escondi detrás de uma cortina para ouvir a explicação.
Galileu era um velho, como eu sou agora, devia ter mais de 40 anos, mas ao começar a sua fala parecia um rapazinho, tal a sua animação e entusiasmo. Disse, entre outras coisas, que por meio daquele tubo poder-se-ia ver coisas longe com se estivessem perto. Ele mesmo já havia tido a oportunidade de observar a Lua, as estrelas fixas e quatro estrelas que giravam a uma grande velocidade em torno de Júpiter. Todos ficaram literalmente embasbacados, inclusive o Doge.
Após encerrar sua exposição, com um novo gesto teatral, convidou a todos para, utilizando seu perspicillium, assim chamou aquele tubo, a se aproximarem para observar os céus. É claro que o primeiro a fazê-lo foi o Doge. Ele quase caiu para trás. Afirmou ter visto o Sol tão próximo dele como nós estávamos uns dos outros naquele salão. Em seguida, todos os presentes também se aproximaram e com novos sustos foram confirmando o que já havia sido dito pelo nosso governador. No entanto, as más línguas, quase de imediato, começaram a se fazer presentes. Eles duvidavam da validade daquelas observações. Em cochichos, se perguntavam se tudo aquilo não seria algum tipo de ilusão muito bem engendrada por aquele filósofo pretensioso. Vejam e aprendam. Lutem contra ela. Inveja! Pura Inveja!
Contudo, o senhor Galileu parecia não ouvir nenhum desses comentários maldosos. Seus olhos eram apenas para o Doge. Após todos terem se acercado da máquina, ele chamou Galileu para próximo dele e, muito impressionado, e até emocionado, dobrou o seu salário e diante de todos declarou que o manteria no posto de filósofo oficial de Veneza por toda a sua vida. Vocês tinham de ver as expressões dos maledicentes. Foram todos obrigados a se calar e a engolir a inveja que estavam sentindo. A vitória havia sido, sem dúvida nenhuma, do “filósofo pretensioso”. Bem feito.
E eu? Como assim eu? Ah! Querem saber se eu também vi o que todos viram? Bem… Na verdade fui obrigado a esperar que a noite chegasse e todos fossem dormir. O perspicillium ficou ali no salão do palácio, pois Galileu o deu de presente ao Doge. Quando não havia mais ninguém por perto, eu realmente não resisti e dele me aproximei. O que eu vi? Antes de seguir adiante, é bom que vocês lembrem: agora é perigoso falar sobre essas coisas. Galileu está preso em sua casa e a Inquisição tornou-se ainda mais rigorosa na defesa das causas da igreja. Portanto, nenhuma palavra deve sair daqui. Bem…
O que eu vi naquela noite, por meio do perspicillium, foi a Lua. Sim, a Lua. E, acreditem, não é perfeita. Ao contrário do que dizem os padres, ela não é feita de cristal puro. Ela tem montanhas e imensos buracos na sua superfície. E não importa o que digam, eu sei o que vi. Eu estava lá.
A verdade é filha do tempo, e não da autoridade.
Galileu Galilei
(2009 – Ano Internacional da Astronomia)
Margarete Hülsendeger - Professora de Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. Autora da COLUNA QUEDA LIVRE, atualizada quinzenalmente aos domingos.
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Margarete,que lindo! com teu texto voltei a Veneza e a um tempo distante.
Penso que deves reunir estas “histórias” e publicá-las. É uma bos forma de aprender. Agradável, interessante e cheia de mistérios!
Parabéns!
bju, Gilka