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categoria: QUEDA LIVRE

A AULA

- Bom dia!

Silêncio. Era uma manhã de segunda-feira. Primeiro período. Nada bom. Rostos cheios de sono e tédio mal a fitavam. Rostos jovens, alguns com espinhas. Ela era a mais velha da sala. A professora.

“Por que sempre resolvo começar matéria nova na segunda-feira? Será que ainda não aprendi que esse não é um bom dia? Segunda-feira não é um bom dia para ninguém. Mas, não tem outro jeito. Tem de ser hoje”.

Com a cabeça enfiada no armário, procurando suas canetas coloridas, disfarçava, refletindo na melhor maneira de iniciar a aula. As expressões de seus alunos deixavam claro que, se começasse da maneira tradicional, ela os perderia em cinco minutos. Talvez menos.

Discretamente olhou para um dos quadros pendurados na parede. Era ele. Seu rosto sério e distante no tempo parecia dizer-lhe que seguisse em frente. Como estava prestes a enfrentar trinta adolescentes sonolentos e arredios, rezou por uma inspiração.
“Por onde devo começar?” – perguntou ansiosa, ao retrato. “Pela 1ª Lei? Não? Pela 3ª? Também não? Então, só pode ser pela 2ª Lei? Não?! Por onde, pelo amor de Deus?!”

Pelo canto dos olhos percebeu que alguns alunos já a estavam olhando de forma estranha. Alguns trocavam sorrisinhos como a dizer: “Coitada, é maluca”. Outros, a olhavam amedrontados, acreditando que ela estaria maquinando algo terrível – uma prova surpresa, por exemplo.

Ela sabia da sua fama. Sua sala de aula era uma espécie de santuário. Um lugar de silêncio e concentração. Não era dada a brincadeiras, levava tudo muito a sério. Até uma piada ela tinha dificuldades de entender. Nesse aspecto, ela reconhecia: era muito parecida com ele.

Voltou a enfiar a cabeça no armário. Agora buscando seu caderno de chamada. Suspirou. Será que ele se sairia bem dessa situação? Será que saberia exatamente por onde começar? Não. Com certeza, não. Ele era péssimo professor. Introvertido, recluso, casmurro e muito, muito, obsessivo. Deixar de comer e até se tornar uma cobaia em seus próprios experimentos eram atitudes normais para ele. Estava sempre querendo provar a validade e a correção das suas ideias. Nada diferente disso o satisfazia. Era obcecado pela verdade – a sua verdade.
Sua briga com Leibniz havia entrado para os anais da História da Ciência como a mais terrível, baixa e torpe briga entre homens de ciência. Tudo por que ele não aceitava ser o segundo. Críticas, mesmo as ditas construtivas, eram consideradas ofensas pessoais. Ele as pagava com silêncio, condenando seus opositores ao ostracismo acadêmico – “O pobre Hooke que o diga”, ela pensou. Era, sem dúvida nenhuma, um homem vingativo e rancoroso. No entanto, um gênio.

“Por favor! Preciso de um pouco da sua genialidade agora. Está vendo esses trinta adolescentes? Eles estão esperando alguma atitude de minha parte e não pode ser qualquer uma. Você está ouvindo? Então? Estou esperando. Uma luz, nem que seja pequenina! Por favor!” – ela implorava, mentalmente ao retrato, como se ele pudesse sair da moldura ao qual estava preso para atender aos seus pedidos ansiosos.

Sentiu as suas costas um clima de agitação. Seus jovens e inquietos alunos já estranhavam a sua demora. Todos a olhavam apavorados. Agora, até os sorrisinhos maldosos haviam desaparecido. “O que ela estaria tramando?”, era o que se perguntavam. Ninguém havia se preparado para uma prova surpresa e logo numa segunda-feira.
Com os cadernos de chamada e as canetas coloridas nas mãos, ela se preparou para encarar a turma. Não podia esperar mais. Antes, no entanto, em busca da tão desejada inspiração, lançou um último e esperançoso olhar ao retrato na parede. E nesse momento, algo muito estranho aconteceu.

Foi como se uma maçã tivesse caído em sua cabeça. Naquele exato segundo, soube exatamente por onde deveria iniciar a sua aula. Não seria por nenhuma das três leis. Ela começaria falando sobre esse homem irascível, excêntrico e genial. Um homem além do seu tempo, responsável por teorias fantásticas, válidas até os dias de hoje. Ela os apresentaria a ele.
Virando-se, finalmente, para turma ensaiou um sorriso e modulando a voz para ser ouvida por todos, começou:

- Vocês já ouviram falar de Isaac Newton? Sim? Não? Pois é. Ele era um cara genial, apesar de um pouco maluco. Vou contar a história dele para vocês.

Deve-se aprender sempre, até mesmo com um inimigo.
Isaac Newton

Margarete Hülsendeger - Professora de Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. Autora da COLUNA QUEDA LIVRE, atualizada quinzenalmente aos domingos.
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Comentários

2 comentários para “A AULA”

  1. Margarete, parabéns! me senti em tua sala de aula. lembrei do “retrato”, e da professora genial que sempre foste.
    Parecia que estava te vendo… muito bom!

    Posted by Gilka | August 5, 2009, 21:40
  2. Margarete,
    amei, senti teu silêncio, senti a turma desconfiada, ouvi teu coração batendo. Muito boa tua análise/reflexão.
    Com certeza, todo educador consciente já passou por esta situação, o que não sei, é se todos tiveram esta luz tão radiante quanto a tua.
    abraço
    Eliana Lugon

    Posted by eliana s.lugon | October 26, 2009, 9:59

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