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categoria: QUEDA LIVRE

“TUDO É VENENO E NADA É VENENO”

Senhor, meu Deus, em ti confio; salva-me de todos os que me perseguem, e livra-me para que ele não arrebate a minha alma, como leão, despedaçando-a, sem que haja quem a livre.

Salmo 7

 

- Mestre, o dia está no fim, quem sabe paramos para o descanso da noite? – perguntou um dos ajudantes.

- A-a-in-da e-e-xis-xistem mu-mu-itas pe-pe-pessoas pa-pa-ra a-atender? – perguntou o médico sem conseguir disfarçar a gagueira.

- Sim, mestre. Mas, podemos pedir que venham amanhã. – disse o rapaz.

- N-n-ão. V-v-vou a-a-ten-ten-der a t-t-odos. – respondeu o médico, com voz cansada.

 

Do lado de fora, da humilde casa, uma longa fila se formara. Havia pessoas de todas as idades e sexos. Até mesmo um que outro nobre sujeitava-se a permanecer em , aguardando a sua vez. A fama do médico que ali atendia tinha se espalhado por toda a região. Era uma espécie de médico-cigano, sem casa e sem destino certo, atendendo onde houvesse doentes para curar.

A próxima a ser recebida era uma menina com cerca de cinco anos que vinha acompanhada pela mãe. Ao vê-lo, ela, imediatamente, se pôs a chorar.

 

- Pe-pe-quena não precisa ter me-me-do – tranquilizou o médico.

A criança assustada, chorando, escondia o rosto no peito da mãe.

- Desculpa, Herr Doktor, ela está com medo da sua corcunda – disse a mãe, constrangida. – São superstições bobas, eu sei, mas ela é pequena para entender.

 

O médico não falou. Assim, como a sua gagueira, a corcunda era um fardo que carregava há muito tempo. Nada podia fazer a respeito disso. Virando-se, pegou, de cima da mesa, uma maçã que um de seus pacientes tinha-lhe dado de presente. Cuidando para não assustar ainda mais a criança, ele lhe ofereceu a fruta.

- Pega filha – insistia a mãe. – Herr Doktor é um homem sábio, ele não quer te fazer mal.

Depois de algum tempo e muita paciência a menina finalmente se acalmou e o exame pode começar.

fora, os dois ajudantes, ignorando as ordens do médico, começaram a dispensar os que ainda aguardavam na fila. os casos mais graves foram autorizados a permanecer. Apesar da teimosia demonstrada por seu mestre, eles sabiam que Herr Doktor estava no limite de suas forças.

 

Quando o último doente foi liberado a noite ia adiantada. As marcas de cansaço apareciam no rosto de todos, mas eram mais evidentes no semblante de Herr Doktor. Os dois jovens acompanhavam o médico desde que ele fora expulso da universidade. Como haviam sido seus alunos, acreditavam que estariam aprendendo muito mais com ele do que com quaisquer dos ditosdoutores da medicina”.

 

Herr Doktor, ao contrário da maioria desses doutores, não se limitava a ouvir as queixas dos doentes para imediatamente liberá-los com alguma receita de chá de ervas. Ele apalpava, auscultava, e fazia uma série de perguntas sobre o estado geral do enfermo, antes e depois de os sintomas aparecerem. A consulta encerrava depois de tudo ser dito e o doente ter sido literalmente virado do avesso. Costumava justificar essa atitude dizendo: “Um médico que não é também um cirurgião não passa de um ídolo, de um macaco pintado”.

 

Seu comportamento, pouco diplomático, aliado a uma personalidade difícil, fizeram com que Herr Doktor conquistasse muitos inimigos. Mal se estabelecia em um lugar, logo estava envolvido em alguma confusão. Os dois jovens assistentes tinham perdido a conta do número de aldeias e cidades das quais tiveram de fugir devido aos desentendimentos provocados por seu mestre.

Eram inegáveis, no entanto, as suas conquistas. A maior delas: o tratamento da enfermidade taxada de “a doença do pecado”. Ele foi o primeiro a usar substâncias químicas e minerais na cura dessa e de outras doenças. Algo que deixou seus colegas ainda mais furiosos; afinal, todos seguiam a risca a metodologia aristotélica que incluía apenas o uso de produtos de origem vegetal e animal.

 

E era esse homem que agora estava meio dormindo sobre a mesa de tanto cansaço. Tiveram de sacudi-lo para que ele se alimentasse antes de ir se deitar.

- Qu-qu-antos fi-fi-ficaram para a-a-ma-manhã? – perguntou, enquanto tomava a sua sopa.

- Poucos, Mestre. Não se preocupe – respondeu um dos jovens. – Agora, trate de repousar.

 

Contudo, após a refeição, ele não se deitou; pôs-se a escrever um de seus vários tratados médicos. Estava redigindo-o em alemão, e não em latim, como era o costume. Para ele, todos tinham o direito de ter acesso às suas informações. Essa seria mais uma batalha a ser travada; os demais médicos não iriam aceitar essa atitude passivamente.

 

Enquanto escrevia, resmungava, como se os resmungos pudessem clarear as suas ideias. Apurando os ouvidos, os dois rapazes podiam ouvir frases soltas e, o mais extraordinário, sem nenhum traço da gagueira que desde criança o perseguia:

- Tudo é veneno e nada é veneno. A diferença entre remédio e veneno é uma questão de dosagem – dizia ele em voz baixa. –… não existe nenhuma enfermidade, por terrível que seja, para qual Deus não haja previsto a cura correspondente.

 

No entanto, como era humano, antes de dar por concluído, o seu trabalho foi vencido pelo sono. E enquanto era deitado na cama, por seus jovens ajudantes, Phillipus Aureolus Theophrastus Bombastus Von Hohenheim, também conhecido pela alcunha de Paracelso, continuava resmungando:

- O médico deve ser servidor e não inimigo da Natureza.

 

FIM.

Margarete Hülsendeger - Professora de Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. Autora da COLUNA QUEDA LIVRE, atualizada quinzenalmente aos domingos.
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