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categoria: NOSTALGIA

PROIBIDO PARA MENORES

Por André Martins

Outro dia me surpreendi sendo assaltado por um desses pensamentos criminosos que a gente logo encaminha ao bueiro da vulgaridade e esquece, afinal, somos seres adultos e moralmente defensáveis, até prova cabal em contrário, exibida diante do júri da existência, esfregada na nossa cara de réus nada confessos. A propósito: somos moralmente defensáveis, não é?

Bem, depois da breve pausa pra você responder e se entender com seus botões, como eu ia dizendo, peguei a ideia que me atacou na esquina e mandei-a para o Guaíba, para que se juntasse aos outros produtos internos brutos que por lá abundam.

O pensamento era de todo imoral e condenável. Um composto de palavras que formavam frases de conteúdo meramente carnal, penduradas em ganchos, como num açougue. Quando muito serviriam para o Chorão emplacar mais um sucesso do Charlie Brown Jr. ou o Dinho, do Capital Inicial. Ou, ainda, para que minha ex-namorada ex-psicóloga exercitasse um pouco os seus conhecimentos freudianos, sempre balançando a franja pop e engalfinhando os dedinhos entre os fios de cabelos muito bem cuidados.

Mas, mesmo tendo dado descarga na minha consciência, o conjunto de fezes, digo, frases, não ia embora. E virou um daqueles submarinos russos ou alemães, quase impossíveis de afundar.

O que fazer? Despejar Diabo Verde em cima? Ou deixar pra lá os pruridos morais e contar, secretamente, só pra você, que já deve estar morrendo de curiosidade ou de saco cheio ou já parou de ler isso aqui lá no primeiro parágrafo?

Vamos fazer de conta que você continua aí do outro lado, arrastemos o pesado móvel da moralidade bem pra lá e ataquemos o prato cheio dos fatos.
A ideia que me pegou de soslaio foi a de que o desejo sexual e o desejo de compra podem ser a mesma coisa. Ou são, mas como não sou um teórico no assunto não posso afirmar com todas as letras. É como se o mundo fosse dividido em grandes shoppings, supermercados e todos os tipos de loja que você possa imaginar.

Você está andando por entre as ruas/gôndolas e, de repente, se depara com um produto que parece que está pedindo pra que você o compre/coma. Você está em um outro lugar, sei lá, um batizado, uma livraria, sinaleira. Olha para o lado e vê. Seus olhos vidram. Que produto. Eu quero. Quanto custa? Ôpa! Nem todos os produtos estão expostos em prateleiras pra você comprar.
Alguns você tem de abrir a carteira para tirar as cédulas da sedução, ao invés do vil metal. Alguns. Tem o desejo de compra que se manifesta por aquele tipo de produto que não é lá uma Brastemp. Ele está ali, meio a 1,99 e tal, mas não é de todo ruim, tem a sua utilidade, digamos, descartável, mas tem um uso específico.

Outra face da mesma moeda é o desejo de ser comprado. Você, mesmo sem saber, se coloca na posição do produto, exibe o seu rótulo com o maior orgulho e fica esperando que alguém venha o leve. Logo. Antes que o seu ego se machuque.

E por aí vão os desejos. Pelo ralo das nossas esmagadas existências, tentadores, moralmente condenáveis, mas indispensáveis. Se você já está vestindo a pele de um ser humano maior de idade, que viu a inocência falecer, sabe muito bem do que estou falando. Se não, vai me julgar baseado nos preceitos preconceituosos da moral, essa tia velha, rancorosa e carcomida. O mal comida fica por sua conta e risco.

É quando somos assaltados por esses insights que nos damos conta do valor do que é proibido. Não é proibido, mas por dar essa impressão junto aos nossos genes carregados de enganos, tornam-se desejos incontroláveis que nos permitimos. Ou não. Porque, cá entre nós, só não é proibido se permitir.

Texto originalmente publicado em maio de 2004.

André Martins, publicitário, foi autor da coluna TEMPESTADE CEREBRAL no site www.argumento.net.

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