Eu queria ser arquiteto.
Arquiteto, respondia, aos meus colegas de ensino fundamental, quando perguntavam o que eu seria quando crescesse. Depois, no segundo ano do médio, queria ser publicitário. Eu fui publicitário. Eu me formei e trabalhei como tal, ainda que pouco convicto. Eu não queria ser um professor. Ou melhor, eu nunca me imaginei sendo um professor.
Hoje, não consigo pensar em ser outra coisa que não um professor.
Quando a gente viaja, faz um projeto, pesquisa na internet, vai atrás de hotéis, de voos, de lugares a conhecer. Enquanto a gente amadurece, de certo modo também traça alguns objetivos, pequenos ou grandes, como um roteiro de viagem.
Ryan não. O único plano de voo de Ryan é acumular milhas e chegar aos 10 milhões, uma meta raríssima. Sua vida é solitária, e ele é, aparentemente, bem resolvido com isso. Dos 365 dias do ano, viaja mais de 300. Por conta disso, adora acumular – além de milhas – pontos e outras vantagens naqueles cartões de fidelidade: de hotéis de luxo a operadoras de carros alugados. Sua prática em fazer e desfazer pequenas malas (sim, Ryan não viaja com malas pesadas, apenas uma que possa ser carregada dentro do avião) é espantosa.
Nas suas viagens pelos Estados Unidos, Ryan faz o serviço que muitos chefes não têm coragem: demitir as pessoas. Na verdade, ele mesmo acredita que passa por sua função uma espécie de remotivação profissional. Ou seja: a de que há vida além da empresa em que o funcionário dedicou anos, ou uma vida inteira. A despeito da crueldade e das frases feitas, Ryan sai-se bem na sua tarefa de desestabilizar a vida dos novos demitidos. Por conta disso, Ryan faz uma série de palestras motivacionais e é conhecido como o “cara da mochila”, pois a sua fala traz sempre a imagem de que carregamos, durante a nosso vida, peso demais.
Mas e se nos damos conta de que carregamos peso de menos?
UP IN THE AIR, novo filme do diretor Jason Reitman, do ótimo JUNO, sensação independente de dois verões atrás, levou no Brasil a vergonhosa tradução de AMOR SEM ESCALAS, o que passa uma ideia absolutamente errônea de esta ser mais uma comediazinha romântica. Não. UP IN THE AIR, um dos filmes mais inteligentes desta nova safra, traz um George Clooney inspiradíssimo (cada vez mais remetendo aos personagens clássicos dos anos 40-50), vivendo o seu Ryan com enorme naturalidade.
Ele adora o que faz. Apenas se sente em casa quando está voando. Porém, seu conforto emocional é quebrado quando surge Natalie (Ana Kendrick), jovem talentosa que pretende revolucionar a empresa onde Ryan trabalha, diminuindo gastos em viagens a partir da instalação de um programa de demissão via internet, por web cam.
Não é preciso dizer que Ryan e Natalie viajarão pelos EUA para que ele prove a ela a impossibilidade desse programa de fato ser viável. Não é preciso dizer dos conflitos – sempre divertidos – que os dois terão pela frente. Mas não, é preciso dizer, sim, que não haverá um suposto interesse amoroso dela por ele – até porque, em uma das melhores piadas do filme, ela diz ao celular que ele é apenas um colega, afinal, ele é velho. No mesmo instante, George Clooney, ou melhor, Ryan, que arranca suspiros da plateia feminina mais, digamos, madura, ouve o comentário e olha-se no espelho, surpreso.
Alex Goran (Vera Farmiga) surge na vida de Ryan para cumprir essa função. Uma espécie de alma gêmea, colecionadora de milhas e de cartões de benefícios, a atração mútua é erotizada entre cartõezinhos de fidelidade. É ela, Alex, quem vai provocar uma turbulência na vida de Ryan.
É o roteiro, recheado de divertidos e inteligentes diálogos, o maior astro de UP IN THE AIR. Há uma humanidade tão evidente nas palavras ditas por aqueles seres que compramos os personagens quase que instantaneamente. O conflito entre a idealista, mas que ainda revela uma ausência de cinismo, Natalie, e um Ryan já fechado no seu casulo, atinge camadas muito mais profundas dos que as risadinhas que soltamos ao assisti-los. Está ali, submerso, um dos grandes temas que o cinema sempre nos brinda e que, quando tratado com competência, é praticamente infalível: a solidão.
São esses seres solitários que manejam suas vidas, sem muita certeza do próximo passo, ainda que esse próximo passo seja quase automático, que nos lembram que não necessariamente já estipulamos todas as nossas metas, por mais “seguros de si” que somos, e que às vezes não ter meta alguma pode ser uma grande viagem sem fim.
Jason Reitman segue apostando no amor – ou na sua ausência – e se antes havia nos brindado com uma série de relações em torno de uma adolescente, mostra que mesmo depois dos 40 podem existir adolescentes ainda mais espinhentos dentro de nós.
UP IN THE AIR é um dos filmes mais premiados do ano. Teve seis indicações ao Globo de Ouro, incluindo filme, diretor, o fabuloso roteiro (que venceu) e os 3 atores principais. Nada disso teria importância se ele não mexesse tanto com nossos voos em piloto automático.
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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De fato também achei um ótimo filme, o primeiro grande filme do ano e o melhor até agora do Reitman …