(para a Patrícia)
E se nos ensinam que devemos ter forças, porque ser forte é o que se espera nesses momentos em que o vazio é engolido, em que as pernas tremem, em que a tristeza se apodera de tudo, o que posso eu te dizer agora, neste momento, se não em forma de um abraço, uma troca de afeto mútuo e sincero, que recupera nossas lembranças de infância, eu e tu fantasiados, eu um palhaço, tu uma cigana, quando a gente tinha um monte de planos pela frente e um mundo a ser descoberto.
Nesse abraço apertado eu quase nada te digo porque não há nada a dizer, a não ser sentir, e eu sinto, sinto muito, sinto tanto, e queria poder fazer que as coisas fossem simplesmente diferentes, ou quem sabe mais justas, mais belas, mais leves. Na verdade, queria que tudo fosse mais leve para ti e queria até que nem preciso fosse te dar esse abraço sem palavras.
Queria fugir de um churrasco dentro do jipe amarelo e comer xis na esquina, a despeito da fúria daqueles que tão gentilmente assaram a carne. Queria dar cambalhotas na cama, estabelecer regras e números da loteria, ouvir as tuas confidências em Tramandaí ou Albatroz. Na verdade, queria eu poder te fazer fugir, ao menos por alguns minutos, e te fazer voltar a acreditar na beleza das pequenas coisas, que há tanto se tornaram turvas e sem sentido.
Quem me dera ter eu o dom, minha prima, de te transferir a tal força e de interromper teu sofrimento, te abraçando tão forte que novamente seria possível acreditar. Ouvindo o som do mar, escutando as vozes das pessoas que te amam, e que não partem. Vivemos nesse incrível e estranho teatro em que tantos saem de cena cedo demais, e não há possibilidade do aplauso ou do bis. Mas sobrevivem ali, no nosso palco de lembranças, testemunhando nossos medos, nossas fraquezas, mas também nossas alegrias, nossos carinhos, nossos amores.
Não há, realmente, nada a ser dito, a não ser essa vontade incontrolável de te abraçar, assim, tão forte, tão verdadeiramente e terno, para que sejas capaz de acreditar que o único sentido das coisas é quem elas não têm sentido nenhum. Mas só nos resta vivê-las.
Não te desejo força, pois essa nasceu contigo. Eu te desejo crença, certeza ou qualquer outra palavra que possa te ajudar nessas horas em que o olhar transborda-se de pequenas nostalgias e a melancolia não quer nos abandonar.
E te ofereço a minha cumplicidade, porque a distância não é capaz de apagar o que de fato somos.
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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Olá, Paulo!!!!
Fazia tempo que eu não lia um texto seu; e quando leio… é uma coisa linda dessa, que me emociona tanto!!!!
Belíssima a carta!!!! Fiquei emocionada, e feliz em saber que ainda existem pessoas sensíveis no mundo.
Pessoas capazes de, com poucas e sábias palavras (e atitudes mais ainda) acalentar, amenizar a dor, e devolver a um coração despedaçado pela dor a alegria e a crença na vida.
Muito bonita mesmo a carta. Mais ainda sua ligação com ela, que mais do que sanguínea, é espiritual mesmo.
Parabéns pelo texto!!!! Lindo mesmo!!!!
Abraço,
Thalyta