Passou o dia cantarolando, feliz. Ansiosa, louca para ir embora, tomar um banho, ficar bem cheirosa e encontrar-se com o namorado. As colegas insistiam nas perguntas, mas ela se esquivava nas respostas.
Finalmente, chegou em casa. Colocou a saia preta, os sapatos salto agulha, a blusa creme e o colar de pérolas, para dar um toque sofisticado. Olhou-se ao espelho antes de borrifar o perfume. Sorriu. Sentiu o gosto do cheiro em sua boca, e teve um leve enjoo.
Desceu as escadas delicadamente. Ouviu a buzina. Sorriu. Abanou da porta do prédio, enquanto se dirigia para o carro negro. Lá dentro, um sufocante odor de cigarro com suor. Cumprimentou com um beijinho tímido na bochecha. O automóvel deu sinal de vida. O vento assoprou pela janela semi-aberta. Sentia-se viva, ali, vendo as pessoas surgirem como imagens em uma tela. Alisou o colo, ajeitou algumas dobras que descompunham o figurino. Sentia-se digna, sentia-se mais do que era naquele carro de luxo.
“Para o mesmo motel?”, disse ele, as primeiras palavras que proferiu. Ela ligou o rádio, mexeu nos cd’s do porta-luva, escolheu um. A música começou a tocar, uma trilha sonora para aquele início de noite.
“Pensei que a gente poderia comer alguma coisinha antes…”, ela disse, sendo imediatamente interrompida.
“Não, a Teresa fez qualquer coisa lá em casa pra janta. E também tem jogo do São Paulo hoje. Eu não posso demorar”.
Ela sentiu um ligeiro arrepio, e depois um calor na ponta dos dedos e na boca do estômago. Sorriu novamente. Perguntou como havia sido o dia dele. Ele grunhiu qualquer coisa que ela não entendeu.
O motel estava próximo. Aumentou o volume da música e abriu mais a janela.
“Tá frio, Sandra, fecha isso aí. Que coisa, parece criança…”
Ela olhou para ele com atenção. Olhou para os ralos cabelos pintados de preto, ridiculamente espalhados a fim de imitarem uma franja. Olhou para o pulôver puído, a calça social estufada, a barriga querendo fugir através do cinto. Olhou para os dedos amarelos de tanto fumar. Olhou para a aliança reluzente. Olhou para o rosto dele, que agora estava virado para ela, impecavelmente vestida, impecavelmente distribuída em seus 42 quilos a menos do que ele, que esboçava um olhar vazio em seu rosto absurdamente enrugado de 27 anos a mais do que ela.
“Meu Deus, quando foi mesmo que eu entrei neste clichê?”, pensou, mas não falou. Ajeitou os anéis enquanto ele entrava na garagem do quarto do motel. Ele abriu a porta. Tinha pressa. Ela não saiu. Ficou ali, por alguns segundos. Ele ficou imóvel do lado de fora. Fez a volta no carro e perguntou, pela janela:
“Qual parte da minha frase de que eu estou com pressa esta noite tu não entendeu?”
Ela abriu a porta do carro, abriu a porta do quarto, abriu o zíper, abriu as pernas. Não havia tirado o colar de pérolas. Nem o sapato de salto alto. Ele tinha pedido. No teto do motel, alguém havia colado aquelas estrelas fosforescentes, que brilham no escuro. “Olha”, ela disse, mas ele não ouviu. ‘Meu Deus, é uma galáxia’.
Enquanto o velho se retorcia em cima dela, enquanto seu rosto se afundava naquele travesseiro com cheiro azedo, enquanto seu olhar se confundia com as estrelas artificiais do céu, ela abraçou o corpo suado com força, com carinho, com medo de perdê-lo.
Era tudo o que tinha: esse absurdo céu de estrelas de papel.
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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História trágica de uma vida igualmente trágica. Esse é o preço que se deve pagar porque se tem medo da solidão? Trágico. Triste.
Como sempre conseguiste captar aquele lado “cinza” que todos temos mas evitamos revelar.
Parabéns!
Margarete