Foi quando descobriu que não articulava mais as palavras. Ou ao menos nenhuma língua conhecida. Aquilo que falava era algo nunca antes ouvido. E foi assim, de repente. Estava no buffet de sorvetes, em dúvida entre o chocolate bariloche e o morango silvestre europeu. E tudo piorou quando descobriu o chocolate suspiro poético. Qual a diferença entre eles? Acenou para a sorridente moça atrás do balcão e fez a pergunta:
“Oaefjlafdhn hmsahff kl fal kdhfa clo fdçolhvc ocnçapxmfi ckdsk dlkçnc?”
O olhar da moça foi digno de pena. O paninho em cima do ombro foi remexido, ela deu outro sorriso com um indisfarçável ‘ai meu deus’ entredentes. Nestor sorriu, nervoso. O que fora aquilo? O que ele disse? Ele mesmo tentou remendar, pedir desculpas por aquela frase sem significado, e falou: “Omneynbaunvinmeo iwiundu iwm!”
A mocinha sorriu: “Dona Gertudres, tem um alemão aqui e eu não entendo nada do que ele fala!”
Mas a dona Gertudres nem precisou se aproximar. Um homem que estava atrás de Nestor falou para a mocinha: “Olha, eu falo alemão e essa língua dele aí não é alemão, não!”
A menina ficou ainda mais confusa: “Será russo?”
Nestor estava envergonhado. Mas quanto mais ele tentava se explicar, mais as palavras desarticuladas saíam, num vomitar sem eira nem beira. Suava em baixo dos braços. O que estaria acontecendo? O nome dele era Nestor da Silva Oliveira, solteiro, vinte e oito anos, morador do bairro Bom Fim desde os sete de idade. Era brasileiro, falava português, ora bolas!
Pegou o morango silvestre europeu mesmo, não disse mais um ai. Pagou, sob os olhares divertidos de todos os clientes, que faziam apostas internas pra descobrir de que lugar aquele cara era.
Nestor comeu, silenciosamente. Duas mulheres vieram falar com ele. Uma falava romeno, nem perguntem como alguém falava romeno por ali. A outra falava dinamarquês, outro mistério. Deveriam mudar o nome da sorveteria para Torre de Babel. Mesmo comovido, Nestor não respondeu nada. Sabia que as mulheres estavam sendo simpáticas, apesar dele nada entender daquelas outras línguas enroladas. Apenas sorriu e negou com a cabeça. Negar, sempre é melhor.
Comeu seu sorvetinho, deu um “kasdb” antes de ir embora, repetido da melhor maneira possível pela mocinha atendente, e tratou de se afastar das pessoas. Logo adiante, numa rua meio deserta, começou a falar sozinho, e nada daquelas letras se misturarem da forma que aprendeu na escola e falou durante toda a sua vida.
Estava realmente nervoso, pensando que estava criando uma nova língua, solitária. Pegou ônibus calado, foi pra casa. Lá, fez o teste: escreveu num papel o seu nome: “Prakf ej Ewaso Pleqaota” Por Deus, até a escrita!
Soninha! Lembrou-se da Soninha, sua amiga linguista. Ligou para ela correndo, do celular. Soninha de cara atendeu: “Fala Nestor”, e ele só nos lwedknc kvf fkfnldfnvl lkdvkjjhas, “Nestor o que houve?” e ele continuava com krbnfdsk jfnu cp gç dsjc jkfngk dkfd dlvn e ela, desesperada, “Meu Deus, é um sequestro, um grupo iraquiano, afegão, por favor, o que está acontecendo?”
Desiludido, Nestor desligou o telefone. Nada mais podia fazer.
Chorou. Dormiu. Acordou. Soninha esmurrava a porta do apê. “Abre Nestor”
Nestor abriu, ela a pedir explicações. “Mçon kdsimo kgmk i iejdmdiwmi didmckl kfdm kfk”, Soninha a pedir pra ele parar com aquilo, ela tinha se assustado, Nestor cada vez mais nervoso, falando sem parar, Soninha chorando, Nestor chorando, ljds kfdjid cxidmdfi dsismsi fjko skpo dl, dkclf çl, “Ai, Nestor, eu não entendo. E agora?”
O agora veio depois. Dezenas de estudos, cursos, palestras, linguistas, antropólogos, fonoaudiólogos, todos tentaram desvendar a língua nova de Nestor, saber o porquê que ele, de uma hora para outra, começou a falar aquilo. Em vão. Nestor perdeu seu emprego de vendedor de colchões por motivos óbvios. Hoje, vive de bolsa-auxílio das pesquisas que fazem com ele. Três anos se passaram, e Nestor escreveu um livro: “HDSKL JHND JK DKDMC FKLWM” é o título. É uma obra de um único leitor: o autor. Mas não é quase sempre assim?
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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Oi, Paulo:
Estou gostando demais desses teus textos bem humorados. Eles são divertidos e fazem a gente rir das coisas mais simples e bobas da vida.
GOSTEI!
Abraço
Marga
Às vezes acontece, ninguém entende.
Gostei muito.
bju, Gilka
Adorei……bj