Começou esta maravilhosa maratona do Festival de Verão Bourbon, em Porto Alegre. Pena não ser possível tirar férias para assistir a tanto filme interessante… Enfim, meu foco inicial acabou sendo dois filmes argentinos. No primeiro, MOTIVOS PARA NO ENAMORARSE, uma mulher desiste de se envolver com os homens após uma longa série de relacionamentos fracassados. No segundo, AMOROSA SOLEDAD, uma mulher desiste de se envolver com os homens após uma longa série de relacionamentos fracassados. Opa! Algo errado? Em ambos, há os amigos confidentes para quem elas explicam a escolha da solidão. Em ambos, há cenas farsescas, como esquecer-se do lado de fora do apartamento, sem as chaves. Em ambos, a protagonista tem um nome metafórico: Ventura e Soledad. Em ambos, há o encontro com uma possibilidade de amar, contra todas as regras, contra todas as probabilidades: um homem fora do padrão até então escolhido, mas que aos poucos começa a mostrar uma doçura que elas nunca tinham experimentado.
Inegavelmente, a linha narrativa é quase a mesma. Apesar de tantas semelhanças, AMOROSA SOLEDAD, dirigido por Victoria Galardi e Martin Carranza, é bastante superior. Bem verdade que a ótima Ines Efron (XXY e NINHO VAZIO), construindo uma Soledad maniática e adorável, carrega a obra nas costas. Quase não há ação dramática em AMOROSA SOLEDAD. Na história, há algo emperrado, entupido, como o vaso sanitário da casa da protagonista que insiste em derramar água, até o momento em que, mais fácil do que o arrumar, Soledad tem a brilhante ideia de transformá-lo em uma mesinha. Feliz da vida, coloca uma toalhinha no vaso, e sobre ela, um cactus e uma vela. Pronto, está solucionado o problema.
Não. O problema é que para Soledad não é tão fácil colocar a poeira para baixo do tapete. “Tenho inveja de você, que cursou uma faculdade. Ir todos os dias ao mesmo lugar, convivendo com as mesmas pessoas… isso não é para mim”, diz, a certa altura. Doce, neurótica, sensível, frágil… assim é a Soledad: diferente dos outros. Transitando entre seu apartamento e sua lojinha de objetos de decoração, dividida com um casal de amigos gays, Soledad constrói sua rotina de forma repetitiva e maçante. Ainda assim, seus grandes olhos azuis nunca param de brilhar. O movimento da câmera acompanha este ponto de vista. As cenas surgem, por vezes, desnecessárias. Raras vezes se viu no cinema tanto telefonema, muitos deles sem razão de ser. É a mãe ligando, é o pai (participação especial de Ricardo Darín), é o ex-namorado. Hipocondríaca, adoradora de velcro e de equipamentos médicos, Soledad vive nos hospitais, para tratar de dores talvez imaginadas, mas nunca de fato vemos o aprofundamento destas situações, simplesmente porque não interessam. O que importa é a construção das manias e crises da personagem, uma perfeita sintonia de Efron com os diretores, pois sua Soledad tinha tudo para ser antipatizada, mas é alguém com quem nos identificamos e por quem torcemos.
Celeste Cid, protagonista de MOTIVOS PARA NO ENAMORARSE, esforça-se, e é o que há de melhor no filme, porque seu colega de cena, Jorge Marrale, é caricato a não mais poder. Porém, sozinha ela não consegue a façanha de Efron, pois tudo é deficiente nesta obra: o roteiro é um amontoado de clichês, a produção é simples e o elenco coadjuvante deficiente. A própria personagem é uma cópia deslavada da adorável Amélie Poulain de Audrey Tautou. Há os mesmos closes que tentam pegar os grandes olhos curiosos, há a mesma narração em off que tenta infantilizar suas vivências. Há um preciosismo com filtros e um estilismo exagerado que dão às cenas cores que transformam tudo em uma artificialidade gritante. Ou seja, aqui em tudo se percebe a mão do diretor Mariano Mucci em cena, em uma tentativa de construir uma fábula amorosa. Sem sucesso.
Já AMOROSA SOLEDAD, trocadilho com o nome da personagem e uma espécie de saudosismo dos bons tempos (e saudade daquilo que nunca ela terá, no caso, um verdadeiro amor) é um pequeno filme que conquista pela sua simplicidade, apoiado em uma bela trilha sonora e uma produção bastante caprichada. O seu final é de uma poesia absurda, uma cena aparentemente banal, mas que revela tudo, tudo o que se esperava da personagem. Não é à toa que AMOROSA SOLEDAD teve uma importante conquista no Festival de San Sebastian, um dos mais respeitados da Europa, no ano passado: Prêmio do Júri Jovem. Os dois filmes são um excelente caso de estudo, a provar a tese de que o talento ainda faz a total diferença em tempos de massificação… quando até o cinema argentino, sempre tão criativo e inventivo, mostra-se com uma aparente falta de ideias.
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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