// você está lendo...

categoria: CONTEXTO

SEMPRE O MAR

Há sempre o mar, esta imensidão líquida ao teu redor que não desaba, que não deságua, que não desacelera, enquanto percorres, vagarosamente, a areia da praia e o céu oscila entre o azul e o vermelho, é o pôr-do-sol que se apresenta, e tu aceleras o passo, com teus pés pequeninos, deixando um rastro seguro atrás de ti, enquanto olhas as montanhas, a serra, a bela paisagem que cada vez mais se aproxima, e as ondas estouram leves, explodindo pequenas fagulhas de espuma, neste mar calmo, absurdamente límpido.

 

Há sempre o mar, e ele envolve o teu corpo enquanto mergulhas de olhos abertos a decifrar o indecifrável, num jogo de minúsculos seres – peixes, algas, micro-organismos que dançam no ritmo da água, e tu borbulhas.

 

Há sempre o mar, este universo que te acalma enquanto caminhas com essa tecnologia presa ao ouvido, ainda me lembro da expressão faceira da velhinha da fronteira com  a Bolívia, aqueles fones estilo tiara no cabelo, nunca havia ouvido uma música assim, e tu possui dois minúsculos pontinhos pretos que criam a ilusão de uma rave à beira-mar. Fixada no teu mundo sonoro.

 

Teus passos ficam presos à areia. Tua ilusão de liberdade está ali, naquele desenho repetitivo que se constrói em um ritmo só teu.

 

Há sempre o mar, e agora te sentas em frente a ele. E respira. As ondas quase te alcançam, mas fogem, tímidas, em marcha-ré. Tu pareces sorrir, porém esconde uma angústia que eu sei, sim, eu sei de onde vem.

 

Teus ombros pesam. Olha ao lado: não há mais ninguém, garota. Estás sozinha: tu e as gaivotas e um ou outro caranguejo escondido na fofa areia. E o mar. Há sempre o mar.

 

E então aqui, longe dos teus filhos, do teu marido, do teu emprego, da tua pose de mulher bem-sucedida, então aqui, finalmente, chegamos ao momento em que teus ombros cedem. A música para. Teus lábios tremem.

 

O sol já se foi, mas ainda está claro, pois seus reflexos escapam por detrás daquelas montanhas.

Lentamente, como as ondas, tu te encolhes, te aconchegas, um pequeno crustáceo fechado em si mesmo.

 

Ninguém te escuta.

Não chego perto. Não sei o que fazes, ali, tão encolhida, mas te sei camaleoa, tão naturalmente parte desta cena que te abocanha.

 

Limpa o sal da tua face.

 

A onda estoura.

Nada.

Outra onda.

Não há ninguém aqui.

 

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
Mande um mail para o autor | Todos os artigos de Paulo Ricardo Kralik Angelini

Comentários

Sem comentários para “SEMPRE O MAR”

Deixe um comentário