Pense em um menino, guardador de carros, cantarolando Zé Ramalho…
Pense em uma madame entrando em um elevador com um cachorro labrador.
Pense em um vendedor ambulante de praia cantando Roberto Carlos.
Pense em uma mulher com um traseiro mais que avantajado usando um fio dental minúsculo.
Pense em ônibus de linha passando dos 80.
Pense em um metrô com vagão feminino, cor de rosa: só elas entram.
Tem certas coisas que só acontecem no Rio.
É difícil não se apaixonar por esta cidade. Seus habitantes são tão passionais que parece que a emoção contamina. Um simples joguinho de futebol na praia gera acaloradas discussões recheadas de “porra” e “caralho”. Imagina em dia de Fla-Flu… em que o Flamengo vença de virada, de 5 a 3, como no último domingo!
Na divisão democrática do espaço na praia, das areias mais desejadas do Brasil, escuto uma madame falando de sua secretária e duas amigas tomando todas as cervejas porque a patroa de uma delas a demitiu. E a outra diz: “A gente tem que celebrar a vida, minha filha! Daqui nada se leva!”
No Rio, todo mundo filosofa, sem vergonha. O Rio de Janeiro tem praia e vida cultural de primeira grandeza. São tantos espetáculos e exposições e eventos de moda e festas que tem gente que cansa… e vai para a praia.
Temperaturas elevadas. Recordes anunciados nos jornais: sensação térmica de 50 graus. Caraca nas esquinas. Nas praias, biscoito Globo, mate, sorvete Colegial e Guará Viton…
Mas o Rio tem mais… qualquer coisa de Lisboa nos prédios antigos do Centro Histórico, incluindo o maior acervo de livros portugueses fora de Portugal, em um prédio lindo. E para chegar lá, literalmente, tive de cruzar o Saara.
Rio de Janeiro. Fazia alguns anos que aqui não vinha. Já estava na hora de retornar, apenas para me lembrar que esta é a cidade mais encantadora do Brasil. Na verdade, este é o Brasil. Digo isso porque aqui há encantamento. Perco o fôlego, feito criança, cada vez que o ônibus adentra Botafogo, escancarando o Pão de Açúcar e uma natureza que quase machuca. Caminho embasbacado na Lagoa. Corro quase tropeçando no calçadão de Copacabana. Revejo uma amiga querida e passeamos na noite da Urca. Bato palmas de pé ao ver Paulo José, Nathalia Thimberg, ao ouvir as palavras de Caio Fernando Abreu, Ana Cristina César.
Ou simplesmente fico sentado em um banco, o calor tomando conta e a vida ali, passando.
A vida é aqui.
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
Mande um mail para o autor | Todos os artigos de Paulo Ricardo Kralik Angelini
Paulo querido
Descreves com perfeição o que ando sentindo ao passear por aqui. Que pena não nos encontrarmos. Tens toda a razão, é aqui!
bju, Gilka