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categoria: CONTEXTO

RODRIGO DO LADO DE LÁ DO TEJO

Lisboa é uma cidade à beira de um grande rio, o Tejo. Um rio que se confunde com o mar, na geografia e no olhar. E na literatura, também. Duas belas pontes passeiam entre as margens do Tejo, a ex-Salazar, hoje 25 de abril, vermelha, que lembra a de San Francisco, e a novíssima Vasco da Gama, enorme e moderna, a segunda maior da Europa.

 

Entretanto, atravessar o Tejo de barco recupera uma grande tradição. Antigamente, as travessias eram feitas quase que exclusivamente pelas faluas, barquinhos a vela que transportavam as pessoas de Lisboa para as cidades do outro lado da margem: Almada, Setúbal, Barreiro, Seixal… O grupo português Madredeus, inclusive, canta pela memória das faluas:

 

Faluas do Tejo/ Que eu via a brincar/ E agora não vejo/ No rio a passar/ Faluas vadias/ Que andavam ali/ Em tardes perdidas/ Qu’eu nunca esqueci/ E era tanta a beleza/ Que essas velas ao sol vinham criar/ Belo quadro da infância/ Que ainda não se apagou/ E eu tenho a certeza/ Que as Faluas do Tejo hão-de voltar/ Outra vez a Lisboa

 

A 15 minutos de Lisboa, através dos modernos barcos da Transtejo, chega-se a Seixal. Quem participa da Conversa com o Leitor, na Biblioteca Municipal da cidade, é o escritor Rodrigo Guedes de Carvalho. E eu digo escritor porque é assim que o conheci, ao ler e me surpreender com Daqui a nada, seu livro de estréia. Os portugueses diriam: Ah, com o jornalista Rodrigo, já que ele é um dos rostos mais famosos da televisão portuguesa. Com 21 anos de carreira, foi repórter de guerra e hoje é âncora do telejornal noturno da SIC, a maior rede de TV de Portugal. Tentando comparar e assumindo os problemas disso, é uma espécie de Pedro Bial.

 

Tão logo iniciou a conversa, Rodrigo disse que não lhe interessavam os leitores que, de maneira ignorante, procuravam nas obras os segredos e fofocas de uma grande rede de televisão. Disse que sofre com uma certa inexistência de um leitor virgem, pois aqui em Portugal todos chegam às suas obras com opiniões formadas da figura pública de Rodrigo, para o bem e para o mal. Há aqueles que querem ver a carreira de Rodrigo refletida na obra, o que não existe. E há os que nem abrem as páginas e já dizem: O , o gajo da televisãoaqui em Portugal todos os jornalistas se pretendem escritores e lançam livros

 

Conversei com Rodrigo e intitulei-me esse leitor virgem, visto que cheguei a sua obra sem nunca o ter visto na televisão. Disse ainda que fui capturado pela beleza de Daqui a nada, obra que faz diálogos com a também primorosa Os cus de Judas, de Lobo Antunes, de quem sou ardoroso leitor, e também Rodrigo o é. Aliás, muitos criticam a influência, como se fosse a repetição de uma fórmula, o que é uma grandessíssima bobagem.

 

Mesmo que se servindo de técnicas similares – o fluxo de consciência, a polifonia espalhada em diferentes narradores, a experimentação com a linguagem –, a obra de Rodrigo tem vida própria. Em Daqui a nada, há os ecos da Guerra Colonial, mas todo o texto é atravessado pela difícil percepção do tempo que não volta e que não foi de todo aproveitado. Os narradores de Rodrigo (um homem de quarenta anos, pai; sua ex-mulher; a filha que não conhece o pai) desenrolam o tecido da memória e trazem a dor da perda do não-vivido. A amargura, a proximidade com a morte, a solidão, a falta do afeto, carregam o livro por um caminho tortuoso que fascina o leitor. Uma pena que muitos nem chegarão a conhecer esse belo romance por conta de seus preconceitos televisivos.

 

Voltando à conversa na Biblioteca de Seixal, Rodrigo deixou claro desde o início que estava ali para conversar sobre literatura, descartando perguntas sobre a vida na TV. E conseguiu, havia lá muitos leitores interessados na obra. Falando em leitor, Rodrigo falou sobre seu caminho de leitura, passando, entre outros, por Lobo Antunes, Saramago até o Ano da morte de Ricardo Reis (disse que agora parece estar sempre a ouvir a mesma música), Mafalda Ivo Cruz (pouco conhecida mesmo aqui, que trabalha também com um complexo narrador, e o fio narrativo pouco se encontra), Rui Belo, Virgílio Ferreira, Jorge de Sena. Falou que nunca pensa no leitor quando está a escrever, mas é claro que depois, quando o livro é lançado, fica nervoso com a resposta. Rodrigo criticou muito a onda de livros light em Portugal, a literatura cor-de-rosa de Margarida Rebelo Pinto (uma das mais vendidas em Portugal) e os tantos romances históricos.

 

Frases:

 

“Eu quando escrevo não penso no leitor”.

 

“O autor precisa sair de seu casulo”.

 

“Não escrevo light, nem auto-ajuda, nem romance histórico, o que é um risco no mercado editorial do nosso país”.

 

“Leitor tem que ter uma cenoura a seguir.”

 

“A certa altura, a personagem começa a se impor ao autor.”

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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