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categoria: CONTEXTO

REWIND

 

Estava saindo da pracinha. Sentia as pernas tremerem pelo exercício e pela aventura inusitada. Todas as manhãs ficava na frente daquele lugar, esperando seu ônibus. Uma praça sempre vazia. Os balanços, a gangorra, o escorregador, não havia criança disposta a desafiá-los? Talvez pelo horário, cedo da manhã. Talvez porque as crianças de hoje não curtissem mais esses brinquedos de madeira, sem joystick, sem som de tiro, sem boneco japonês, sem vídeo.

 

Ela sujou um pouco os sapatos, mas não estava preocupada com isso. Caíra com os pés firmes na areia molhada. Olhos fechados. Voara. Num pulo, saltou determinada. Era a hora certa para repetir a sensação de ser a mulher maravilha. Ela era a mulher maravilha. Não tinha mais vergonha. Estava feliz, mesmo que por tão pouco.

 

Feliz por estar fazendo aquilo, feliz ao sentir o vento no rosto, seu corpo avançando e recuando, movimentos alternados em sentidos opostos, deslizando pelo ar. Mãos firmes nas argolas de ferro, a pressa dos pés a tocarem o solo, acelerando o impulso. Ria sozinha, sentada naquela tábua de madeira. Não dava bola para os outros, era ridículo, ela sabia, mas e daí? Inveja dos superpoderes daqueles que voam.

 

Como na sua infância, quando pedia para a mãe empurrar forte, muito forte, o mais forte do mundo. Ria alto, a pasta jogada no canto, o celular tocando com insistência. Era seu mundo de volta. Esquecia.

 

Ela sempre quis voar outra vez. Sentia o gelado da manhã invadindo cada pequena fresta de sua roupa. Uma senhora passava pela rua e começou a rir quando a viu sentando-se no balanço vermelho. Ela acenou para a mulher desconhecida, que carregava pesadas sacolas. Acomodou-se no vermelho depois de se levantar, indecisa, do laranja. Ficara cinco minutos a observar os três possíveis pedaços de madeira que se mexiam com leveza por causa do vento: um vermelho, um amarelo e um outro laranja.

 

Admite que olhou ao redor, um pouco desconfiada, preocupada com o que os outros poderiam pensar. Não, não sou louca. Mas havia jogado pasta e celular no chão. Paciência.

 

Seus passos até a grande armação de ferro foram firmes. Tinha certeza que precisava daquilo, que aquele gesto simples valeria por cinco sessões de análise. “Procuras a criança que morreu cedo demais em ti?”, sempre a sua analista a sussurrar no ouvido. Perguntas sem respostas. Tão óbvio, meu Deus, por que fazem faculdade pra isso?

 

As pessoas a observaram entrar na pracinha com certo espanto. Por que o medo? Por que não deixar a vontade guiar, pelo menos uma vez na vida? Para de pensar. Vai. Vai. Aquele mulher puxou a filhota para perto: perigosa?

 

Não era uma atitude comum invadir terreno pueril, especialmente para uma mulher de quarenta anos numa manhã de segunda-feira. Todos olhando no relógio. Todos esperando o ônibus. Todos esperando a semana que começava. Reunião diária naquela parada, naquela estrutura de ferro que representava uma pequena prisão, uma jaula aberta onde todos aguardavam o veículo certo que conduziria cada um para seu destino particular. Tão previsível.

 

“Uma parada de ônibus na frente de uma pracinha é algo tentador”, é o que ela sempre pensava enquanto esperava a condução. Quantas vezes não quis entrar naquele espaço colorido? se via ali. Aquele lugar também lhe pertencia.

 

E foi apenas por causa da demora do ônibus. estava atrasada mesmo. Talvez fosse um sinal. Sim. Talvez. Quando chegou ao ponto de ônibus, sabia que aquela segunda-feira seria única. Alguma coisa assim dizia.

 

Espreguiçou-se com decisãomúsculos, nervos e ossos avisando: estamos vivos. Abriu os olhos com dificuldade, na luta das pálpebras contra o sono. Sorriu.

Ela acordava. E sonhava que era outra vez criança.

 

(Texto fruto de um exercício da oficina de criação literária do escritor Luiz Antonio de Assis Brasil, com a proposta de se construir uma história de trás para frente. 2004)

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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