Em um comercial de automóveis, pessoas pretensamente chiques conversam com a câmera desvendando as motivações que as fizeram comprar aquele carro. Uma delas diz: “É maravilhoso poder olhar as pessoas aqui de cima”, referência primeira à altura que o carro proporciona, mas de fato uma analogia cafajeste a um certo elitismo hierárquico. Sente-se neste carro e veja o povinho lá embaixo.
Outro comercial de automóveis. Um meigo casal de velhinhos. O simpático senhorzinho revela à esposa que em décadas de casamento nunca a traiu. A senhora sorri. Pensamos que um momento de ternura haverá entre os dois, mas, ao contrário, ela leva o marido para dentro do carro, desconversa. Ponto para o cinismo e para a hipocrisia. O painel do automóvel é tão bonito que aquilo é mais importante que as puladas de cerca da senhora. Hahaha… que engraçado.
Qual é a graça?
Sendo ex-publicitário, mas também, defendo-me, detestando o politicamente correto burguês, ando bastante incomodado – cada vez mais – com essas pretensas gracinhas que nossos homens do marketing proporcionam, sempre revelando o lado torpe, o jeitinho, a sacanagem, a traição.
Tampouco me agrada, devo confessar, certa linha de comerciais, muitos deles natalinos, de uma famosa rede de supermercados que sempre vende um humanismo piegas, beijando o sobrenatural, paquerando com o sentimentalismo. Aquele papo O segredo: acredite nos seus sonhos que eles se realizam. Vagalumes enfeitarão a árvore natalina, enquanto um seca as lágrimas sentado no sofá, proporcionando o gozo do publicitário: isso mesmo, quero ver você chorar.
Não gosta de nada, muitos pensarão. Gosto sim. Gosto daquele comercial que não seja apelativo, que seja inteligente sem forçar nenhum tipo de barra, nem pro bem, nem pro mal. E cada vez menos tenho visto comerciais assim. A nossa tão criativa propaganda anda tão igual, ou alguém consegue agora me dizer qual a diferença dos comerciais das cervejas, todos absolutamente idênticos, fanfarrões celebrando o ócio num bar, na praia, na casa, com alguma gostosa fechando os trinta segundos com uma tirada engraçadinha. E a marca? Who cares.
Talvez seja por isso mesmo que tenha desistido da profissão. Não sou bom o suficiente para essas táticas. Não sou nada extraordinário como pensam essas cabeças pretensamente pensantes, que se acham tão acima da média… assim, que delícia, vendo todos nós, esse povinho, láááá embaixo…
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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