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categoria: 2009

DESCONSTRUINDO SCHILLER

Direção: Cibele Forjaz

Com: Georgette Fadel e Isabel Teixeira

 

Dizem alguns críticos que o escritor alemão Friedrich von Schiller, quando escreveu a peça dramática Mary Stuart, o emblemático confronto entre duas rainhas, desenvolveu as metáforas da filosofia da liberdade moral (na representação da Rainha Mary que, ao renunciar ao pecado e à culpa, atinge a liberdade moral: “Já pus em ordem todas as minhas coisas terrenas. Conto ir deste mundo livre de todas as dívidas com os homens”) e da busca da harmonia (retratada na Rainha Elizabeth I, que persegue o que lhe falta: a beleza de Mary Stuart: “São estes os encantos, lorde Leicester, que nenhum homem impunemente contempla e com os quais nenhuma outra mulher se atreve a comparar os seus? Francamente! Essa glória conseguiu-se com facilidade. Para que tal beleza seja igual para todos, preciso é que a todos tenha pertencido!”). A emblemática diretora teatral Cibele Forjaz, que sempre traz ao Porto Alegre em Cena espetáculo inovadores (quem se esquece daqueles em que uma ainda pouco conhecida Leona Cavalli brilhava, como Toda nudez será castigada e Um bonde chamado desejo?), propõe a desconstrução do texto de Schiller, a desarmonia das vozes em dueto, das dores e angústias de ser rainha e de ser atriz.

 

O Theatro São Pedro transformou-se em arena para receber a montagem de Rainha[(s)] – Duas atrizes em busca de um coração: apenas o palco foi utilizado, montando-se arquibancadas em torno de um grande círculo labiríntico pintado no chão. Nas extremidades, dois camarins onde as atrizes recebem o público. O texto de Schiller é apresentado ao espectador de duas formas: alguns lampejos do original, em monólogos que funcionam como esquetes, ou nos diálogos acirrados das rainhas, e uma espécie de aquecimento da plateia ao porvir, na conversa informal das atrizes, em tom de bastidores, sobre as cenas mais importantes, como que trocando experiências, situando o público no contexto histórico. É outra metanarrativa: o teatro se mostra teatro. Porém, ao mesmo tempo, a característica de embate entre as rainhas também é passada para as atrizes, que duelam em palavras por fatos banais: de grampos de cabelo a marcas na pele que indicam envelhecimento. Entre elas, o sumiço do coração comprado no açougue, e o aparecimento da metáfora que vem no subtítulo: duas atrizes, duas rainhas, apenas um lugar. Apenas uma sobrevive.

 

A arena montada por aquelas duas mulheres prende a atenção do espectador. A alta dose de humor sarcástico nas “improvisações” ensaiadas das atrizes é um dos pontos altos, especialmente quando elas se misturam ao próprio texto clássico. A interatividade do público é sempre pretendida: as atrizes atuam no grande círculo, girando lentamente para que todas as partes das arquibancadas testemunhem seus duelos. O final da peça é questionado: todos sabem que Elizabeth, a rainha da Inglaterra, alegando que Mary Stuart tivesse conspirado por sua morte, pede a cabeça da Rainha escocesa. Porém, na montagem de Forjaz, o público vota: uma bolinha vermelha para a cabeça de Mary; uma branca, para Elizabeth. As bolinhas são pesadas em uma balança, e o público sela o destino. Enquanto vota, a plateia observa os apelos disfarçados das atrizes: ambas querem morrer. É melhor a vítima trágica do que a assassina culpada.

 

No palco do São Pedro, nem tudo funciona à perfeição. As pesadas e incômodas cadeiras que fazem as vezes de arquibancada provocam ruídos, são incômodas. Há pessoas que não conseguem ver os dois extremos onde se localizam as atrizes, quando naqueles camarins: algumas ficam de pé. Há ainda espectadores nos camarotes laterais, que enxergam ainda com maior dificuldade. Talvez se fosse em um teatro em formato de arena, tudo funcionasse melhor. Georgette Fadel e Isabel Teixeira digladiam-se com muita competência. Ocorre que tudo em Isabel é maior: a voz, a altura, a presença, e o público tem a sensação de um duelo desigual. Contudo, Georgette é pequenina e funciona como a parceira ideal: tanto como a rainha ciumenta quanto a aspirante a atriz. Suas falas são metralhadoras giratórias, e uma é escada para outra. Porém, inegável dizer, a presença de Isabel Teixeira ilumina. Ela canta lindamente, ela percorre uma sutil palheta de emoções: da doce e sarcástica atriz que come uma maçã à furiosa e destemperada rainha que arranca os cabelos. Não por acaso, a atriz recebeu o prêmio Shell por sua atuação.

 

O público ovacionou – ok, aparentemente quase tudo é ovacionado – as duas atrizes à procura de um coração, no centro do círculo do grande teatro. O Porto Alegre em Cena se aproxima de seu final, e talvez este tenha sido um dos anos mais positivos, mais regulares da mostra.

 

Argumento.net é veículo oficialmente credenciado ao PORTO ALEGRE EM CENA

 

 

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor de Redação e Língua Portuguesa em escolas particulares de Porto Alegre, professor de Literatura na UFRGS e revisor de textos... ou simplesmente alguém que precisa das palavras. Voltou de Portugal, onde fez estágio de doutoramento em literatura na Universidade de Lisboa, com bolsa CAPES, mas deixou lá boa parte de si. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO, atualizada semanalmente aos domingos.
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