SÃO PAULO
Direção: Zé Henrique de Paula
Com: João Bourbonnais, Einat Falbel, Marcella Piccin, Thiago Carreira, Marcelo Góes, Lourdes Gigliotti, Alexandre Meirelles, Elber Marques, Fernanda Maia (piano) e Luciana Rosa (violoncelo)
Nelson Rodrigues entrou em cena neste sábado chuvoso de Porto Alegre, e Senhora dos Afogados rendeu uma metáfora à própria condição climática que assola os gaúchos nestes últimos dias de inverno. A expectativa era grande, e a primeira cena é, de fato, promissora. Ao vivo, um piano e um violoncelo dão os acordes de Pedaço de Mim, de Chico Buarque. No palco, duas dezenas de atores em um séquito após a notícia da morte de Clarinha, engolida pelo mar.
Estamos, pois, diante de um musical. O diretor Zé Henrique de Paula incluiu canções que se intercalam a uma das primeiras tragédias escritas por Nelson Rodrigues (em 1947, mas encenada a primeira vez em 1954). O crítico teatral Sabato Magaldi, amigo pessoal de Rodrigues, classificou a sua obra dramática em peças psicológicas (Vestido de Noiva, por exemplo), tragédias cariocas (A falecida) e míticas. Ao mergulhar no simbolismo, buscando referências a tragédias gregas, as peças míticas acabaram tornando-se as menos populares. Doroteia, Álbum de Família e Senhora dos Afogados estão neste grupo.
A montagem do grupo paulista traz para o palco a história de Moema, filha apaixonada pelo pai (de onde se lê o mito de Electra), que afoga – em um mar que não devolve os corpos – as duas irmãs, além de planejar um envolvimento do próprio noivo com a mãe, para que o pai possa matá-la e, assim, ficaria ela como a única mulher da família (além da avó, já velha, que enlouqueceu).
Há, portanto, que se entender que trabalhar com uma peça mítica de Nelson Rodrigues pede armas um pouco distintas das que se utiliza quando se monta uma tragédia carioca, por exemplo, muito mais rica em um humor negro. Esses textos exigem um cuidado: ao mesmo tempo em que há a densidade trágica, há a sutileza nas ações. O maior pecado da Senhora dos Afogados apresentada no Porto Alegre em Cena é o cruzar constante da fronteira do exagero. O texto já é por si só pesado, e a superatuação reforça, mas de forma redundante, o que já estava sendo dito. Por isso, grande parte do elenco grita as suas dores, e a emoção perde-se na verborragia e nas suas expressões furiosas ou enlouquecidas. Há, evidentemente, algumas exceções, como a atriz que faz um D. Eduarda (a mãe) entre a sofreguidão e a histeria.
O diretor optou por um deslocamento temporal. Se a história da família Drummond originalmente se passa na primeira metade do século XX, a montagem paulista a adaptou no século XIX. Ainda que essa transposição renda excelentes figurinos, ao mesmo tempo, parece quase aleatória. A ideia é excelente, mas já que se mexeu no original, por que não incluir algumas marcas históricas que justifiquem esta transferência temporal? Do contrário, uma ideia brilhante que se esteriliza.
Outra ótima intenção é a inclusão das canções brasileiras, de forma anacrônica, pois são do século XX (entram no rol Faltando um pedaço, de Djavan, O que será, de Chico, entre outras). Todavia, ainda que os músicos caprichem nos arranjos, as interpretações solos são fracas, ainda mais quando comparadas aos belos momentos oportunizados quando o grupo inteiro interpreta, de longe o melhor do espetáculo.
Ponto positivo é a utilização do coro, uma brincadeira metatextual com a onisciência, pois ele está em todos os lugares ao mesmo tempo, testemunhas que permanecem em cena durante quase todo o espetáculo, sentados em cadeiras ou em pé, a presenciar todos os acontecimentos. As prostitutas rendem interessantes momentos de apuro visual, mas também elas poderiam ser melhor aproveitadas, participando mais da ação, ainda mais por se tratar de um grupo de seis ou sete atrizes (havia um ator lá infiltrado, dando um ar ainda mais bizarro e cadavérico a esses seres fantasmas).
Talvez, o maior problema de Senhora das Afogados não tenha relação direta com o trabalho do grupo, mas sim com a expectativa gigantesca que se constroi ao lermos as excelentes e criativas ideias de concepção do espetáculo. Fica no ar, portanto, um gosto amargo do que a peça poderia ter sido.
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Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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