Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face.
Caio Fernando Abreu
Foi numa quinta-feira, uma hora da tarde. A Orquestra de Tango de Buenos Aires maravilhava a platéia inteira no Teatro. Os músicos executavam uma versão belíssima de Piazzolla quando um senhor, duas cadeiras além, deixa as suas lágrimas escaparem.
São desses pequenos momentos que se criam as pequenas epifanias, uma quase transcendência que nos faz levitar e pensar: estou na hora certa, no lugar certo. Testemunhar um momento antológico, ao menos no nosso grosso livro das histórias pessoais.
Como se não bastassem as músicas em seqüência, de arrepiar, as lágrimas daquele senhor desconhecido traziam um quê de melancolia, é verdade. Talvez chorasse porque na sua própria viagem epifânica o meu colega de platéia tenha buscado em sua memória algo que se tenha dissipado. O seu velho amor. Ou a falta dele durante uma vida inteira. Vai saber.
Mas sejamos menos óbvios. Talvez o velho senhor chorasse simplesmente porque sim. Porque estava a presenciar um show inesquecível, e a música traz sempre essa possibilidade de nos fazer ver o que não se vê, e de sentir o que não se explica.
A apresentação da orquestra de tango oficial do país do tango já tinha esse selo de qualidade antes mesmo de eu entrar no teatro. Mas tudo se superou.
Talvez aquelas notas tenham construído também um pouco de todas as imagens de uma semana de férias muito bem vivida na capital Argentina, que chegava ao seu final. Talvez cada acorde trouxesse com ele as gargalhadas e os risos de descer uma escada rolante ao contrário para não se sair da estação de metrô. Ou as imitações dos queridos personagens estranhos do hotel. Talvez trouxessem as belas imagens da cidade portenha no inverno, nas suas ruas amareladas pelas luzes da noite. Dos seus parques de Palermo. Da praça na Recoleta. Das compras e dos brindes de Quilmes no bar perto do Congresso.
Sim, é isso. Os tangos executados pela orquestra formavam minha própria trilha sonora. De trás para frente, cada cena era reconstruída. E foi a sensação de: que belo filme!, emoldurada pelas lágrimas do velhinho, que me fez pensar nisso tudo.
O senhor secou suas lágrimas. As minhas, não precisaram sair. Apenas um arrepio correu a espinha, a lembrar aquilo que nunca esqueço: não há dinheiro melhor empregado do que uma viagem.
Buenos Aires segue o seu curso. Neste exato momento, alguém se deslumbra com o Obelisco na 9 de Julio. O Abaporu de Tarsila repousa grandiosamente no Malba. Os táxis preto e amarelo cortam as ruas. Alguém fotografa uma cena cotidiana. E a nossa vida segue. Nós, turistas, voltamos ao nosso dia-a-dia. Mas já não somos iguais.
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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Oi Paulinho
Teu texto me levou a BUE. Adoro tango e gosto muito do povo argentino. A música é algo incrível, toca a alma.
Adorei o exercício na escada rolante. Queria ter te visto… rssssssss É isso aí! viver a vida com alegria!!!!!
Férias é muito bom e viajar melhor ainda.
Parabéns pelo texto.
Gilka
Oi, Paulo:
Acabei de ler teu texto no Argumento. Apesar de não ser uma fã de tango, confesso que me emocionei com as tuas palavras. Sem contar que deixas transparecer a tua tristeza pelo fim das férias. Beijos e seja bem vindo, pois, afinal, a vida segue.
Margarete