“Só, caminho pelas ruas
Como quem repete um mantra
O vento encharca os olhos
O frio me traz alegria
Faço um filme da cidade
Sob a lente do meu olho verde
Nada escapa da minha visão.
Muito antes das charqueadas
Da invasão de Zeca Netto
Eu existo em Satolep
E nela serei pra sempre
O nome de cada pedra
E as luzes perdidas na neblina
Quem viver verá que estou ali”
Vítor Ramil
Basta uma imersão em alguns romances históricos gaúchos para que a cidade de Pelotas se cristalize como uma pequena joia de civilização no sul do Rio Grande. Com a economia voltada ao campo, às charqueadas, movimentando muito dinheiro no século XIX, a cidade acabou por construir uma cena cultural forte, fazendo com que os grandes senhores enviassem seus filhos para a Europa, para que eles adquirissem uma educação diferenciada. Do contraste entre a finesse desses bem-nascidos com a rudeza dos trabalhadores braçais é que nasceu aquela boba fama piadista de cidade de frescos. Imagine um vestuário exagerado, uma higiene recheada de talcos e perfumes europeus, uma educação refinada à mesa em oposição à grossura do estereótipo do gaúcho a cavalo. Na literatura, ainda, pesco dois nomes: o do poeta romântico — mal lido — Lobo da Costa (1853-1888) e o do músico e escritor Vítor Ramil, dois legítimos pelotenses.
De qualquer modo, levei muito tempo para conhecer a cidade de Pelotas, talvez por conta de muitos que me diziam que era triste ver a decadência do lugar. Aproveitando a saudade de Portugal, e dos doces portugueses, e da Fenadoce em “cartaz”, resolvi descer as quase três centenas de quilômetros e conhecer uma das maiores cidades do interior gaúcho.
Em tempos de pressa, quando caminhamos olhando para o chão, fechados, ensimesmados, para não tropicarmos em obstáculos, nada como a possibilidade de visitar um lugar que se deve olhar para o alto, para os detalhes das construções. Porém, confesso que fiquei realmente desapontado ao ver um sem número de belíssimos prédios deteriorados. Prédios ricos em detalhes mofados, com arabescos quebrados, com portas e janelas destruídas, deixados ao abandono. Agravado pela ausência de habitantes nas ruas por conta do feriado, tinha a sensação de vagar em um cenário fantasma. É uma vergonha que não haja um projeto por parte do governo para recuperar de fato, com mais empenho, aquelas belas edificações. É uma vergonha lembrarmos que, poucos dias atrás, nossa governadora gastou combustível em seu aviãozinho para chegar a Pelotas. Tão logo aterrissou, foi avisada sobre a presença de grupos de manifestantes e desistiu de visitar a Fenadoce. Voltou a Porto Alegre, por medo das vaias e da baixíssima popularidade. O desperdício deste caso isolado, por conta da megalomania de nossa autoridade que não suporta críticas, e tantas outras barbaridades do feitio, fazem com que tenhamos quase vontade de arrecadar dinheiro por conta própria e salvar Pelotas desta condição degradada. Tirar Pelotas desta condição de Satolep, invertida em si mesma, à espera de dias melhores.
É perceptível a precária condição de muitos bairros, alguns deles em franca expansão e abrigando enormes aglomeramentos populares, quase favelas. No centro, ruas sujas, casas comerciais sem pintura, poucos prédios… Verdade que há um lampejo de esperança. Muitas edificações de uma quadra do Centro Histórico, a que envolve a Praça General Osório, dentre as quais destaco as da Prefeitura e da Biblioteca Municipal, dão uma prévia de como poderia ser aquela cidade que quase esconde a sua beleza arquitetônica.
Ali ao centro da Praça, o imponente chafariz das Nereidas, de 1873, muito bem conservado, espirra as suas águas e provoca uma bela sensação. Todavia, a alguns metros de lá, em uma ruazinha perpendicular, repousa o belíssimo Teatro Guarany, de 1920, com ares de visível abandono. Outro ponto alto da cidade é a Catedral São Francisco de Paula, de 1832. A má conservação externa esconde a delicadeza e grandiosidade do interior, com seus altares de mármore trazidos da Itália e um lindo afresco do pintor Aldo Locatelli.
Enfim, o que nunca, nunca foi motivo de discussão na vida pelotense é a qualidade de seus aclamados doces. E basta adentrarmos os pavilhões da Fenadoce para sentirmos o delicioso cheiro de açúcar, cravo, frutas, chocolate…
Os tachos no fogo, com pêssegos virando creme, pintando com seus vapores os estandes de vidros, em exposição, deixando à vista as doceiras em ação, deixam todos com água na boca: a maravilhosa alquimia da transformação dos ingredientes em ninhos, bem-casados, queijadinhas, beijinhos, trouxinhas de nozes, bombons de morango, ambrosias…
Contudo, foi uma confeitaria específica que atraiu o meu olhar, e o meu paladar: Delícias Portuguesas. O teste para saber se de fato ela merecia aquele nome foi experimentar o dificílimo Pastel de Santa Clara, uma vez que o Pastel de Belém eu jurei que nunca comeria fora de Lisboa. O Pastel de Santa Clara vem de Coimbra, mas eu confesso ter tido muita dificuldade em encontrá-lo em Portugal. De qualquer modo, o verdadeiro doce possui uma massa fina, mas tão fina, que ela se desmancha na boca, deixando explodir um delicioso recheio de creme de ovos e amêndoas. Humm… Pois bem, comprei um docinho na confeitaria pelotense e… sim, legítimo. Deliciosamente crocante e leve, ao mesmo tempo. Trouxe uma caixa para casa. Nostalgia gastronômica.
Também mergulhei em ninhos, bombons de morango com branquinho, doce de amendoim com doce de leite, de nozes, de castanhas, ambrosia (uma das melhores que já comi em minha vida). Os doces de Pelotas quase nos fazem esquecer da atual nada confortável situação econômica da cidade. Esquecida ao extremo sul, é inevitável a comparação com as mais ricas do norte, da serra, que recebem os turistas com muito mais empenho e têm muito mais dinheiro para investir em turismo. De qualquer maneira, resta a simpatia do povo pelotense, que merecia mais atenção por parte das nossas autoridades.
“Morrer! Morrer… que me importa, se tudo aqui me encanta.”
Lobo da Costa
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
Mande um mail para o autor | Todos os artigos de Paulo Ricardo Kralik Angelini
estou lendo o livro de Vitor Ramil, Satolep. E fiquei curioso em saber as origens das fotos que se encontram ali. Fiz então uma busca pelo Google Earth, tentando encontrar fotos atuais que pudessem confirmar a existência daqueles locais e prédios antigos. E é quase impossível reconhecer nas fotos de locais e prédios atuais qualquer sombra de semelhança com as imagens no livro.
As imagens no livro Satolep, são mesmo de Pelotas? Custo a crer.
Agradecerei se puder informar.